Ibrahim Traoré, Bassirou Faye e a 3ª Revolução Africana _ Parte 5

OPINIÃO

Felisberto S. Botão

Encontro entre Ibrahim Traoré e Bassirou Faye e a força do Jacob Zuma

O inevitável encontro entre Ibrahim Traoré e Bassirou Faye finalmente aconteceu, representando as duas faces desta 3ª revolução africana.

O Ibrahim Traoré subiu ao poder através de um golpe de estado em Setembro de 2022, em Burkina Faso, com apenas 34 anos, e Bassirou Faye venceu as eleições em Março de 2024, no Senegal, com 44 anos de idade, ambos com uma orientação bem clara para derrubar o neocolonialismo em África.

O Traoré e o Faye representam os dois caminhos possíveis hoje em África para implementar mudanças necessárias para o derrube do neocolonialismo e libertação da mentalidade do nosso povo e da sua riqueza, para a prosperidade das nossas nações. No primeiro caso, o de Traoré, acontece quando as instituições do estado estão capturadas pelo sistema, e não mais servem aos interesses das massas, mas sim, às nações coloniais, através de uma elite nacional antipatriota. Como não há condições nenhumas de haver mudanças pelas vias democráticas, como assistimos nas últimas eleições autárquicas em Moçambique, a força resta como uma alternativa válida. No segundo caso, o de Senegal, acontece quando ainda há uma funcionalidade residual das instituições como a comissão de eleições e os tribunais. Aí segue-se o caminho democrático, e depois introduz-se as mudanças necessárias para a libertação da terra e do povo.

Entretanto, o Ibrahim Traoré e Bassirou Faye tiveram um encontro na recente visita que o Faye efectuou a Ouagadougou na última quinta feira, 30 de maio de 2024, tendo em agenda o reforço dos laços existentes e na abordagem dos desafios partilhados das suas nações e da região. Mas no fundo, é sabido que o Faye pretende trazer de volta o Traoré para o ECOWAS, e o Traoré pretende convencer o Faye a juntar-se a nova organização, a Aliança dos Estados do Sahel (AES), que representam o grupo de Estados que em comum surgiram através de golpes de Estado, criando uma roptura com a Europa e o Ocidente no geral, o que lhes têm conferido um apoio incondicional dos seus povos.

Pelas declarações no final da visita, não houve acordos objectivos, o Faye defende que deve-se continuar a apostar na ECOWAS, e resgatar o seu propósito original, e remover da organização o sequestro pelos franceses, enquanto por outro lado, o Traoré acredita que ECOWAS não tem salvação, aliás, como afirmou o Tiani, do outro elemento da AES, o Níger, “já deveriam ter saído do ECOWAS em 1994, quando a França sequestrou e passou a mandar na organização”.

A situação do Faye é muito complicada, pois a base democrática da qual ele vem, exige que ele tenha muito cuidado ao alinhar com qualquer posição do Traoré e do AES no geral. A condição democrática exige que o Faye leve as coisas de forma gradual, para não passar a percepção errada que ele não é um ditador como o estava sendo o seu antecessor. O Faye encontra-se amarrado às instituições que encontrou, e percebe que não é tão fácil fazer mudanças radicais dentro de um quadro existente, sem parecer ditador, principalmente aos olhos do Ocidente. Ele sabe que toda a gente está de olhos virados para ele, e também sabe que a França está atenta, pronta a descarregar a sua força propagandística, com a ajuda de seus parceiros Ocidentais.

Se de facto o Faye está comprometido com o pan-africanismo e a eliminação do neocolonialismo, o Ousmane Sonko, o seu parceiro e actual primeiro ministro, poderá ser a sua tábua de salvação, passando para este todas as decisões difíceis e controversas.

Como alertei no início desta séria da 3ª revolução africana, deve apelar-se a todos os jovens revolucionários, os que já tomaram o poder, assim como os potencias, que se não construírem os seus alicerces fora do sistema vigente, não têm como escapar a manipulação, e depois de 10 anos, vamos perceber que são os colonos de novo a mandar. Entretanto deve haver uma vigilância dobrada, pois é prática do colono capturar os nossos agentes e as nossas instituições, para que a revolução fracasse.

Estamos a reeditar o ano de 1963, onde os dois grupos pan-africanistas opostos, dos fundadores da África nova, o grupo de Monróvia e o grupo de Casablanca, cujo objetivo era a conquista do poder total, o controle do aparelho de Estado sobre os territórios africanos, e a expulsão dos colonialistas. Era uma luta política pela independência em relação às metrópoles, e pela inclusão da África na sociedade das nações. Uma luta pelo direito dos africanos à autonomia e soberania total dos seus territórios.

O Grupo de Casablanca, liderados por Kwame Nkrumah (Gana) e Gamal Nasser (Egito), defendia o fim da divisão geopolítica imposta pela Conferência de Berlim (1885), em prol da unificação da África em uma só nação, o que garantiria posição de centralidade no cenário político, econômico e militar mundial. Simpático ao socialismo, apoiava a luta armada e era conhecido como o Grupo dos Radicais, defendia uma roptura radical do sistema colonial, como a única saída para a sobrevivência, perante a percepção que ocidente não iria desistir.

O Grupo de Monróvia, liderados por Houphouet Boigny (Costa do Marfim) e Leopold Senghor (Senegal), era pan-africanista minimalista, entendia as fronteiras herdadas da colonização como intocáveis. Defendia a solidariedade política entre os países africanos e não a integração de Estados soberanos num bloco. Foi o grupo que dominou a Organização da Unidade Africana (OUA), em 1963. Próximo dos ocidentais, era conhecido como o Grupo dos Conservadores, que defendia uma transição gradual, ou seja, não a uma roptura abrupta do sistema colonial, e queriam uma união africana parcial.

As ideias do Grupo de Monróvia, que também acreditava no pan-africanismo, mas não à custa do nacionalismo e de um Estado independente, prevaleceram. No final, em 25 de maio de 1963, em Adis Abeba, a capital da Etiópia, 32 países africanos independentes deram origem à Organização da Unidade Africana (OUA), uma instituição comprometida.

O grupo de Monróvia parece que foi sequestrado, primeiro a pela sua base de origem, Monróvia, capital da Libéria, país patrocinado, e praticamente fundado pelos estados unidos da América, em 1847, para receber os escravos libertos americanos; e segundo, era constituído pela maioria dos países francófonos, muito leais a França, como vemos até hoje, como é o caso de Faye do Senegal. A França sempre interferiu, como o faz hoje na ECOWAS, na União Africana e no Parlamento Pan-Africano.

O governo da União Africana falhou pelo gradualismo, como disse o então primeiro-ministro do Lesoto, Pakalitha Mosisii, “a integração deve ser gradual e não precipitada. Deve ser evolutivo e não revolucionário”. Esta é a mesma confusão que assistimos no Faye hoje, muito discurso bonito, mas comprometido, e pouca acção.

Hoje notamos o mesmo cenário, duas visões para a 3ª revolução africana, mas com ideologias diferentes. Os homens de terno e gravata querem a coabitação com o colono, e colher os benefícios da continuidade do sistema e das fronteiras, e terem uma metrópole aonde ir reportar; e os homens da farda querem recomeçar, acreditam no seu potencial de construir tudo do zero, com a força, inteligência e os recursos que Deus deu-nos em abundância, para construção de uma sociedade justa e soberana, que respeita as tradições.

África precisa aprender com a história, se não dermos o apoio incondicional ao radical Ibrahim Traoré, o Faye vai ganhar, e vamos precisar mais 50 anos, no mínimo, para libertar-nos do homem branco, na 4ª revolução.

E o que dizer do Jacob Zuma?

Jacob Zuma disse aos jornalistas que o ANC e o atual presidente, Cyril Ramaphosa, são “representantes do capital monopolista branco”, o que é uma grande verdade. Na verdade, o Zuma foi o primeiro presidente da África do Sul que forçou benefícios para o povo nativo negro, e respeitava a tradição africana, depois do país ter experimentado as caras bonitas do Nelson Mandela e Thabo Mbeki, que eram perfeitos para o capital branco, pois defendiam o gradualismo, que nem o grupo de Monróvia, nos anos 60. O Zuma tentou fazer alianças fora do capital branco, e estes usaram isso contra ele, pondo toda a propaganda a conspirar para derruba-lo, montando no seu lugar outro menino bonito, Cyril Ramaphosa.

Cyril Ramaphosa percebeu muito tarde que não há aliança possível com o capital branco, que depois de usarem-no para destruir o ANC, jogaram-no no lixo, sujando o seu nome, e terá que viver com isso para o resto da sua vida. Pelas projeções dos resultados das últimas eleições sul africanas, de 29 de maio de 2024, o ANC não vai passar dos 42%, perdendo a maioria que gozava desde 1994, o que vai obriga-la a fazer coligação para governar.

O Zuma ao ligar-se ao partido MK, roubou do ANC cerca de 15% dos votos, com a possibilidade de destronar o partido EFF, e fazer do MK a terceira maior força política no país.

Entretanto, o resultado do EFF, e do Julius Malema, para além de ser muito surpreendente para mim, mostra claramente que a mensagem do Pan-Africanismo radical não está a ser percebida pela juventude africana, a maioria não quer perder o conforto da tecnologia, das viagens a europa, e da civilização, e principalmente do nacionalismo, que prefere apostar no gradualismo, como o fez o grupo de Monróvia há mais de 60 anos atrás.

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