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Luca Bussotti
Uma das condições típicas de quem sofre de cancro é o que se costuma chamar de “indeclinabilidade do futuro”. Os verbos de todas as línguas do mundo são declináveis em vários tempos, principalmente passado, presente e futuro. E o futuro representa, em muitos casos, uma função e uma consequência de cadeias de eventos que começam no passado e se desenrolam no futuro, passando pelo presente. Entretanto, existem vários pensadores, conhecidos como “deterministas”, tais como, por exemplo, Spinoza, que negam a possibilidade de um futuro declinável mediante acções livres (o “livre arbítrio”), uma vez que tudo está inscrito e preconcebido por parte da necessidade absoluta de Deus/Natureza. Do outro lado, a maioria do pensamento cristão aceita o livre arbítrio, quer para justificar o mal, quer para que os homens possam moldar o seu futuro contingente, fora do grande fim comum a toda a humanidade, correspondente ao juízo de Deus.
Em épocas mais recentes, os filósofos “libertários” – a partir de John Locke – enfatizaram o direito de cada indivíduo a não ser subjugado pelo sistema, abrindo as portas à modernidade actual. No pensamento sociológico, a tensão Necessidade/Liberdade corresponde à linha de fractura entre autores “sistemáticos”, de matriz positivista, que privilegiam o papel do sistema, reduzindo a liberdade individual a uma mera função de tal sistema, e autores que fazem da acção individual (a partir de Max Weber) a sua base de leitura das sociedades contemporâneas. Uma sociedade que paulatinamente desmoronou, com a queda do prestígio das ideologias e das instituições “sólidas” tradicionais, pondo as bases de uma “liquidez” que exaltou (aparentemente) a liberdade individual, mas que retirou dela qualquer certeza e referência ética e social disponível nos tempos passados.
Hoje, a indeclinabilidade da sociedade moderna não tem muito a ver com o antigo debate sobre Necessidade/Liberdade, mas sim com a ausência de referências morais e de profetas que interpretem e difundam os fundamentos de bases saudáveis do bem-estar colectivo. Os acontecimentos dos últimos anos revelam isso. Depois da Segunda Guerra Mundial, havia pelo menos duas grandes tipologias de reservas morais (com conjugações políticas) a nível planetário: por um lado, as grandes vítimas, por outro, os libertadores do nazi-fascismo. E os profetas eram muito mais colectivos do que individuais; ou seja, os heróis emergiam de contextos marcados por uma consciência pública difusa e compartilhada.
Dentro da primeira tipologia, a das vítimas, um lugar de destaque era ocupado pelo povo judaico. Forte da sua cultura milenária, este povo tinha sobrevivido ao Holocausto de Hitler, expressando um desejo que nenhum ser humano dotado de uma mínima sensibilidade e racionalidade podia negar: ter um Estado próprio, onde desenvolver as capacidades do seu povo, num clima de paz e democracia. A escolha do lugar onde construir esta terra promessa foi, provavelmente, errada; de qualquer forma, sobretudo com os Acordos de Camp David de 1978 entre Israel e Egipto, as coisas pareciam caminhar para um rumo certo. O que aconteceu depois é história recente e bem conhecida; mas, mesmo num clima de conflito e de abusos (tipo a Guerra dos Seis Dias de 1967), o povo judaico sempre conservou aquele património de reserva moral mundial que a Segunda Guerra lhe tinha garantido. Hoje, este povo, através do seu governo, perdeu todo este património, configurando-se como genocida e opressor, como se tivesse esquecido o que se passou com Hitler, Mussolini, mas também Stalin na União Soviética. Em suma, se depois da Segunda Guerra Mundial cada pessoa era um pouco judaica, hoje o anti-semitismo voltou de moda, por causa das terríveis acções do governo presidido por Netanyahu. O que Hannah Arendt descreveu como “banalidade do mal”, a propósito de Eichmann, pode ser lido hoje em relação à grande parte dos Israelitas.
A outra grande reserva moral era representada pelas vítimas do apartheid, os sul-africanos que conviveram por dezenas de anos com o pior sistema de governação que a humanidade recorde. Não havia ninguém, fora dos inconfessáveis interesses geopolíticos da época da Guerra Fria, que não condenasse o regime de Pretória pelas suas atrocidades. Assim, Nelson Mandela se tornou o profeta de uma humanidade melhor e mais pacífica, mas representando os anseios de um povo inteiro, e com a colaboração de outras figuras de destaque, Desmond Tutu em primeiro lugar. O que está a acontecer na África do Sul é evidente a todos (salvo aos sul-africanos). Quando o capitão da selecção dos Bafana Bafana, Ronwen Williams, quase que chorou ao saber que grande parte do continente africano estava a torcer para o México no jogo inaugural da Copa do Mundo, eis que o pior já aconteceu. A África do Sul transformou-se de país-guia (ética, antes de económica) a país-perseguidor dos seus irmãos africanos, com a maioria das suas classes políticas a serem levadas para a onda xenófoba, sem indicar que o caminho certo é outro, e que os problemas estruturais do país não se resolvem expulsando alguns milhares de “estrangeiros” que sempre alimentaram a economia sul-africana.
Finalmente, os países africanos colonizados. Nos anos sessenta, a maioria deles já se tinha libertado do jugo colonial, mas alguns outros poucos tinham ficado ainda nesta posição de subjugação. Eram estes os países lusófonos, a que Salazar primeiro, Marcello Caetano depois não quiseram conceder a independência. Durante a sua luta, estes países granjearam a simpatia de muitos intelectuais e de quase todos os outros povos, de diversas tendências políticas e religiosas. E aqui também surgiram figuras proféticas, referências que ganharam fama internacional, mas nunca como heróis isolados, mas sempre como representantes de causas colectivas, gerais. Inclusivamente devido ao seu fim trágico, personagens como Amílcar Cabral e Eduardo Mondlane, seguidos por Samora Machel, foram provavelmente as de maior destaque nestas lutas, os profetas que traçaram o caminho para os seus países e não só. Hoje, os dois países que eles representavam (Guiné-Bissau e Moçambique, com a excepção de Cabo Verde) são entre os exemplos piores de evolução política e ética do continente africano. A Guiné-Bissau parece perdida entre golpistas que se sucedem à guia do governo, ao passo que em Moçambique não se vislumbra a sombra de um futuro promissor.
Aqui, fora das questões de cunho estreitamente político, o que se instaurou foi um Estado de medo, e não de direito, da suspeita feita sistema, da liberdade afirmada formalmente, mas negada nos factos. Quando Dom Ernesto Maguengue, no lançamento do livro Memento para Moçambique, define o seu autor, Severino Ngoenha, como o “profeta laico” do país, ele tem, ao mesmo tempo, razão, mas registando uma situação dramática. Ele tem razão pelo facto de ninguém, mesmo os mais críticos, conseguirem desconhecer o engajamento de Severino Ngoenha pela causa da paz, reconciliação e democracia; mas revela uma condição péssima do país, uma vez que – como o próprio Ngoenha quis escrever – o profeta é quem “interrompe a anestesia colectiva”, indicando caminhos possíveis, e não certos, que devem ser conquistados mediante a colaboração livre de todos e todas. Hoje, Moçambique já se despertou. Depois da morte de Azagaia, o país já não é o mesmo, e todos sabem disso. Ele saiu da anestesia colectiva, mas o que se determinou no país foi um hiato enorme entre os que acordaram e um grupo cada vez mais fechado de membros da classe política e de “intelectuais”. Por isso é possível afirmar que Moçambique (assim como Guiné-Bissau) está, neste momento, numa condição de indeclinabilidade do futuro.
Hoje, profetas isolados (Severino Ngoenha em Moçambique, Mazibuko Kanyiso Jara na África do Sul, Shikma Bressler em Israel) representam testemunhas indispensáveis dos nossos tempos; entretanto, eles, para conseguirem cumprir com a sua missão “profética”, precisam de colaborações, cooperações, até críticas. A razão pela qual em Moçambique, assim como na África do Sul e em Israel, a situação geral do país não melhora não é por falta de profetas individuais, mas sim de profetas colectivos. Se Nelson Mandela conseguiu vencer o apartheid, se a Israel foi concedido um território onde fundar um novo país, se os países lusófonos africanos se libertaram do colonizador português, isso tudo foi porquê por detrás deles estava um povo e um ideal ético e político claramente definido. O futuro era declinável, com todas as suas incertezas, mas ele estava lá, claro e definido. A acção livre dos homens só devia dizer como chegar ao objectivo, na perspectiva de um mundo mais justo e livre.
Hoje, será improvável que a África do Sul recue, em tempos curtos, da vaga de xenofobia que está a assolar o país; assim como o será com Moçambique, com uma sociedade civil já dinâmica, mas com uma classe política (incluindo uma boa parte das oposições, interessadas mais em desencadear lutas internas do que contra o partido hegemónico contra o qual, em princípio, deveriam se opor) e intelectual passivas, acomodadas aos seus privilégios e distante dos anseios do povo. E também o será em Israel, a menos que Netanyahu não perca as próximas eleições, uma vez que naquele país ainda ficou o hábito de processos eleitorais livres e transparentes.
Mas a indeclinabilidade do futuro depende também da postura de quem ganhou o nazi-fascismo. E aqui também a situação mudou por completo, ao longo dos últimos anos: por um lado, a União Soviética, desde as revelações de Nikita Kruschev, muito antes do fim do seu regime, revelou-se ser uma ditadura entre as piores da humanidade; por outro, depois do seu desmoronamento, tornou-se um país não apenas não democrático, mas também invasor de outro país independente, a Ucrânia, perdendo toda aquela riqueza moral que tinha conquistado ao derrotar Adolf Hitler. Da mesma forma, o país-guia do Ocidente por muito tempo, os Estados Unidos, com Trump caiu numa condição dificilmente definível, mas certamente abandonando o seu papel de profeta colectivo dos direitos humanos, da democracia e das liberdades individuais. Um futuro indeclinável, também, entre os antigos países-guias da humanidade depois da Segunda Guerra Mundial, uma vez que eles não propõem absolutamente nada de positivo, mas apenas guerras, interesses económicos e comunicações falaciosas.
Não existem receitas certas para sairmos desta situação mundial, com reflexos direitos para África e Moçambique: a única fórmula que poderia funcionar é de fazer com que os profetas se tornem expressões colectivas de anseios gerais, e não obras de indivíduos singulares, isolados, com poucas possibilidades de incidir nas mudanças reais a nível nacional, assim como global, o que verdadeiramente interessa à maioria das pessoas comuns.



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