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Moçambique entrou, mais uma vez, num daqueles ciclos perigosos em que o cidadão paga mais, recebe menos e continua sem explicações convincentes. O recente aumento dos preços dos combustíveis deveria, em teoria, aliviar a pressão sobre o mercado, garantir maior disponibilidade do produto e reduzir as tensões entre o Governo, importadores e distribuidoras. Mas o que o país testemunha é exactamente o contrário. O combustível mais caro e, ainda assim, bombas secas, filas intermináveis e um sentimento crescente de desordem.
Quando um país aumenta o preço dos combustíveis e continua sem combustível, o problema deixa de ser apenas económico. Passa a ser institucional. Passa a ser um problema de confiança.
As enchentes nas paragens, os trabalhadores que passam horas à espera de transporte, estudantes sem conseguir chegar às escolas, pequenas empresas incapazes de cumprir horários e cidadãos obrigados a caminhar quilómetros revelam um país que começa lentamente a parar. E um país que para por falta de mobilidade é um país cuja economia perde ritmo, produtividade e estabilidade social.
O Governo, anunciou, semana passada, com a expectativa de que o mercado reagisse positivamente. A narrativa implícita era simples. Os preços anteriores estavam artificialmente comprimidos e já não permitiam sustentabilidade aos operadores. Foi o que eles disseram. Mas se, depois do ajustamento, persistem a escassez e a irregularidade no abastecimento, então há perguntas que precisam urgentemente de respostas públicas.
O que realmente está a faltar? Divisas? Produto? Capacidade logística? Coordenação? Ou estamos perante um braço-de-ferro silencioso entre o Estado e os operadores privados?
A ausência de comunicação clara cria um vazio perigoso. E, em política e economia, vazios de informação são rapidamente preenchidos por suspeitas e teorias de conspiração. É exactamente isso o que começa a acontecer. Cresce a percepção de que, mesmo depois do aumento, os operadores continuam insatisfeitos. Cresce a ideia de que o reajuste não resolveu o conflito estrutural entre custos reais de importação, margens comerciais e capacidade de pagamento do mercado nacional.
O mais grave é que o país parece descobrir, em momentos de crise, que as suas instituições funcionam apenas em condições normais. Sempre que são levadas ao limite, revelam fragilidades profundas. Falta coordenação, falta comunicação estratégica, falta capacidade de antecipação e, sobretudo, falta transparência.
O sector dos transportes é hoje o retrato mais visível deste colapso gradual. Há cada vez menos transporte público disponível, justamente num momento em que a população mais precisa dele. O debate sobre subsídios aos transportadores voltou à mesa, mas a questão é mais complexa do que simplesmente injectar dinheiro.
Subsidiar operadores num contexto em que muitos continuam parcialmente informais, com problemas de legalização integral das suas actividades, é também subsidiar desorganização. O Estado acaba preso num ciclo contraditório. Precisa de garantir mobilidade pública urgente, mas depende de um sector onde parte significativa opera à margem da formalidade plena.
Ainda assim, ignorar o problema também não é solução. Porque o cidadão comum não pode esperar pela perfeição institucional enquanto permanece horas numa paragem tentando apenas chegar ao trabalho. O drama social tornou-se demasiado evidente. Há famílias que já reorganizam refeições, horários e despesas apenas para garantir transporte diário. Há empresas que começam a enfrentar atrasos sistemáticos dos seus trabalhadores não por irresponsabilidade, mas porque simplesmente não há como circular normalmente.
Quando combustível falta, o transporte desaparece. Quando o transporte desaparece, o trabalho atrasa. Quando o trabalho atrasa, a economia abranda. E quando tudo isso acontece ao mesmo tempo, instala-se a sensação colectiva de um país imobilizado.



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