Afonso Almeida Brandão
Este artigo é daqueles que, embora divertido, como habitualmente ensaio, tem um sabor amargo, uma vez que, se pudesse escolher, gostaria de não o ter escrito. Seria um melhor prenúncio e presságio para todos nós, portugueses.
A razão é simples, o assunto em apreço é demasiado caro e, de que maneira, tem saído recorrente e diariamente do nosso bolso, e de forma completamente injustificada, já que a juntar à “bacoquice” das mordomias dos administradores desta Empresa que já delapidaram milhões em inutilidades, pairam no ar, agora, cada vez mais dúvidas quanto ao modo como esta Empresa é (di)gerida a um ritmo frenético e alucinante, fazendo-nos questionar, legitimamente, se a sua situação actual é uma contingência e um fatalismo do mercado e das condições atípicas de restrições ao tráfego aéreo colocadas durante o tempo da pandemia, ou se estamos de facto perante algo mais deliberado e premeditado que roça o dolo e a incúria, dada a total incapacidade de rentabilizar um activo que, à partida, e tendo em conta os ordenados auferidos e o enorme potencial, sobretudo de localização, deveria estar numa situação bem diferente da que se encontra actualmente, não só ao nível da gestão operacional, mas, também e sobretudo, da saúde financeira e económica.
No entanto, anos depois e alguns milhares de milhões injectados, em que já foi assumido por um dos seus directores que nunca os iremos ver, temos agora a notícia que não só a saúde financeira da Empresa merece especial cuidado, como foram voando indiscriminadamente a cada despedida por parte dos seus administradores umas centenas de milhares de Euros para indemnizar não se sabe bem o quê, muito menos por qual motivo.
A comissão de inquérito e a audição bilíngue da actual CEO da companhia na Assembleia da República deu, a quem assistiu, pistas neste sentido, mostrando que o caso de Alexandra Reis era, na verdade, prática recorrente e não excepção naquela Empresa, deixando assim quem assistiu completamente atónito ao revelar continuamente que a Empresa foi pagando indemnizações, umas após outras, aos seus administradores cessantes e (de)missionários, mesmo aqueles a que o Gabinete de Comunicação, nos seus comunicados, tinha por várias vezes negado essa realidade.
Sem querer entrar em grandes elucubrações quanto ao modo como esta verdadeira sangria tem sucedido, ou o porquê da mesma, o facto é que, contas feitas até à data, o Governo Português, depois de uma atabalhoada renacionalização, injectou 1.200 Milhões de Euros em 2020, 360 Milhões em 2021, seguido de um novo pacote de 990 Milhões em 2022. Somado, dá 2.550 Milhões de Euros para a “reestruturação” da Empresa. A este valor é preciso somar-se a “ajuda Covid”, com 462 Milhões de compensação a operações de tesouraria pelo primeiro semestre de 2020, mais 107 Milhões referentes ao segundo semestre. Para o primeiro semestre de 2021, a Comissão Europeia aprovou ainda outra injecção de 71,4 Milhões. Totalizando assim, a módica quantia de 3,2 Mil Milhões de Euros, pagos por todos os contribuintes, em menor ou maior grau consoante a sua capacidade de contribuição, sem que possam retirar qualquer retorno, senão aquele que só existe na cabeça dos governantes e da administração, que prosseguem a sua idílica e demagógica argumentação de vantagens competitivas, quando, na realidade, a Empresa da TAP se encontra a breve trecho praticamente a ser preparada para ser adquirida por abutres que já “salivam” pela imagem de uma (em)presa demasiado titubeante e claudicante para se erguer da morte certa que paira sobre si.
O golpe de misericórdia, e o salto à jugular, será o próximo passo, perpetrado por predadores internacionais, que à data já se identificaram como potenciais interessados desta moribunda, mas, ainda assim, “suculenta carcaça”, à espera de ser (ab)sorvida pelos mercados a preço da chuva.
E tudo isto depois de um Governo sem qualquer legitimidade, já que por um arranjinho circunstancial e uma quadratura do círculo “carrazeda” de polémica, último reduto para salvar a face depois de uma derrota nas urnas, ter vindo criticar as opções de privatização por parte do anterior Governo de Passos Coelho e revertido levianamente a mesmíssima operação que agora se preparam para executar, esgrimindo a demagogia e a hipocrisia habitual que lhes são características e que todos conhecemos de ginjeira, pantominas e volte faces já bem conhecidos a que este Governo já tão bem nos habituou.
Para rematar, percebe-se, assim, de tudo o que tem vindo a público nos últimos meses, que na TAP, para além da incompetência gritante de quem dirige e a incompreensibilidade das decisões e de uma gestão tipificada e sobrevalorizada para os resultados apresentados, existe também uma navegação à vista onde o capital fácil, angariado sem grande esforço, proveniente de contribuintes, mascara amplamente a falta de visão que grassa pela Empresa, sendo este usado de forma absurdamente leviana — para não lhe chamar outra coisa — em que muitos dos portugueses que pagam este regabofe constante (sem nunca colocarem os pés num avião desta operadora, dado os preços absurdamente altos praticados pela Companhia num Mercado que se quer concorrencial, competitivo e dinâmico) são chamados a intervir continuamente, estando toda a Empresa blindada quanto ao seu risco, se não o reputacional, que já não é tão pequeno assim, que de quando em vez é atacado com as notícias absurdas e insanas que vêm à berlinda nos noticiários.
Se neste contexto não são de facto os milhões de portugueses que temos no nosso Páis que viajam e usufruem nesta Companhia de Bandeira, pelo menos contentemo-nos em saber que os nossos milhões, fruto do nosso trabalho, estão constantemente a “voar” continuamente dos balanços e das rubricas do activo desta Empresa, sobretudo os que estão em caixa, para os bolsos de alguns pára-quedistas que, de quando em vez, aterram nesta Companhia, sabendo de antemão que a qualquer momento poderão fazer uso do seu pára-quedas dourado sem que necessitem de grande zelo no exercício das suas funções.
Quanto aos aviões e restante activos — que deveriam preservar estese— são entregues continuamente ao piloto próximo da fila num processo contínuo, em que apenas “as moscas” vão mudando, sejam elas públicas ou privadas, como alguém um dia sumarizou de forma eloquente e brilhante. Prejuízos públicos, lucros privados, é este o capitalismo que advogam em Portugal e que urge mudar se quisermos parar de entregar o nosso valor e os nossos recursos mais endógenos a pessoas que não têm mãozinhas para os pilotar.
Quanto a LAM, deixo a análise aos meus Colegas Moçambicanos que estão concerteza mais dentro do assunto e que podem — e devem! — aflorar, com seriedade, o que verdadeiramente se está a passar com a Companhia Aérea de Moçambique e o que vai ser feito dela (e por ela) para que não venha a desaparecer de hoje para amanhã…
Enfim, estamos perante duas Companhias Áreas da Aviação, outrora de prestígio, hoje à beira da desgraça irremediável e confrangedora…

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