Academia de Futebol Unidade “D”: Uma “escola” que sonha em formar craques

DESPORTO
  • Quando a vontade supera todos os obstáculos
  • “A Black Bulls trouxe uma nova forma de ser e estar no nosso futebol”
  •  “É nosso sonho estarmos ligados a um clube nacional ou internacional”

 

No Bairro Unidade “D”, Distrito de Infulene, arredores do Município da Matola, nasce uma nova academia de futebol que pretende formar novos valores do futebol nacional para, no futuro, alimentar os clubes nacionais e internacionais. Trata-se da Academia de Futebol Unidade “D”, que surgiu de uma ideia inovadora de um jovem sonhador que responde pelo nome de Miguel Chamba, por sinal professor de Educação Física. Mesmo com a escassez de recursos para colocar avante o seu projecto, Chamba não desarma e diz que mais do que formar jogadores, pretende contribuir para a formação do homem do amanhã.

Duarte Sitoe

A formação já provou que é um dos caminhos que Moçambique precisa investir para voltar aos grandes palcos do futebol internacional. Recentemente, a Associação Black Bulls sagrou-se campeã nacional de futebol naquela que foi a sua primeira aparição na elite dos grandes do futebol nacional. O sucesso dos “Touros” foi graças ao investimento na formação e nas infra-estruturas desportivas.

Diz o adágio “Se podemos sonhar, também podemos tornar nossos sonhos realidade”. Pois é, foi assim que Miguel Chamba embarcou no sonho de criar uma academia vocacionada na formação de jogadores de futebol. Em conversa com o Evidências, o professor de Educação Física, formado pela Faculdade de Educação Física e Desportos da Universidade Pedagógica de Maputo, contou que teve a ideia de criar a academia quando viu crianças praticando a modalidade das massas no campo da Unidade “D”.

“Lembro-me nostalgicamente daquele domingo. Tudo aconteceu quando voltava de um jogo dos veteranos. Estava na companhia dos meus colegas e vi crianças a jogarem futebol num campo com dimensões reduzidas. Aquele momento acendeu a vontade que tenho de transmitir aquilo que outrora me foi ensinado pelos meus professores e treinadores. Interrompi a jornada e decidi juntar os meninos, tendo os convidado a treinar. Felizmente, a resposta deles foi positiva e hoje eles fazem parte da nossa academia”, explicou Miguel Chamba.

O que antes era um sonho tornou-se realidade, contudo, segundo conta, vários foram os desafios enfrentados nos primeiros dias. Para superar algumas adversidades, Miguel Chamba viu-se obrigado a pedir ajuda a algumas figuras daquele bairro que é conhecido por produzir talentos ao nível da província de Maputo.

“Um dos desafios que enfrentamos nos primeiros dias foi a dúvida de que o projecto teria pernas para andar. Não tínhamos bolas para arrancar com o projecto, mas depois de desenhar o projecto entrei em contacto com algumas entidades do bairro para expor a ideia e felizmente abraçaram a ideia, e foi aí que conseguimos o nosso start, com uma bola e 10 mecos. Mesmo com pouco material temos dado o nosso melhor na esperança de que dias melhores estão por vir”, declarou Chamba.

A fonte reconhece que não tem sido fácil gerir os atletas de palmo e meio com o material que tem a disposição, mas segundo conta, para fazer omeletes não são só necessário ovos. Um pouco de vontade e predisposição já ajudam.

“Na verdade, o que tem nos guiado até hoje é nossa força de vontade (minha e dos atletas). Consigo notar no seio do nosso grupo de trabalho que temos motivação para dar e vender. Actualmente, a academia conta com duas bolas, das quais uma é nossa e a outra nos foi cedida pelo mister Danito Cuta. O assunto material tem sido um calvário para o ensino do ABC do futebol, mas nem com isso paramos de trabalhar, porque temos crença que este projecto ainda irá sensibilizar os moradores da zona a abraçar a causa”, projecta.

“Queremos contribuir para a formação do homem do amanhã”

No presente, muitos são os jovens e adolescentes que se têm desviado para o álcool e drogas. Para além de dotar os seus jogadores com habilidades técnicas e tácticas, Miguel Chamba, ou simplesmente mister Guelito, assim como é acarinhado pelos seus pupilos, revela que procura incutir valores aos atletas com vista a contribuir para a formação do homem do amanhã.

Com esta academia, pretendemos entreter os miúdos de modo a estarem ocupados para que não tenham espaço para álcool e drogas, que fazem com que muitos talentos se percam. A nossa maior luta é conciliar o desporto com os estudos, com vista à formar o homem de amanhã”, remata.

Em países como o Senegal, Camarões, Gana e Nigéria, o grosso das academias tem ligações com alguns clubes nacionais e estrangeiros. Questionado se no presente a Academia de Futebol Unidade “D” tem parcerias com alguns emblemas nacionais, o nosso entrevistado disse que é um sonho ainda por realizar.

“É nosso sonho estarmos ligados a um clube nacional ou internacional. Tenho certeza que a nível do bairro existe muito talento que apenas precisa de ser lapidado. Na minha cabeça paira a vantagem de uma futura ligação com um clube para os miúdos não terem que percorrer longas distâncias para terem o ABC de futebol, isto é, criarmos uma base na Unidade “D” onde o próprio clube teria garantias de que neste bairro temos uma escola onde a qualquer altura teremos atletas para sustentar as equipas seniores e quiçá levá-los para o estrangeiro”, projectou.

“Black Bulls trouxe uma nova forma de ser e estar no nosso futebol”

Guelito olha para as dificuldades do presente como motivação para continuar a trabalhar para que no futuro o bairro que o viu nascer tenha atletas com qualidade a despontar nos clubes nacionais e internacionais. Por outro lado, a fonte aplaudiu o trabalho que está a ser levado a cabo pela Associação Black Bulls, tendo também destacado a necessidade do empresariado nacional investir seriamente na formação dos jogadores, não só no futebol, mas sim nas diversas modalidades desportivas.

“Temos que dar a Deus o que é de Deus e a César o que é de César. Temos que aplaudir o trabalho da Black Bulls, que trouxe uma nova forma de ser e estar no nosso futebol, tanto na formação como ao nível das infra-estruturas. Há muito pouco investimento na formação por parte dos empresários, porque estes querem ganhos imediatos. Dizer que na formação é necessário que se tenha muita paciência não só dos treinadores assim como dos investidores, ajudem-nos a proporcionar um ambiente de aprendizagem às nossas crianças, de modo a termos jogadores bem formados para enfrentar as adversidades que lhes aparecerem pela frente. Quando se tem um projecto destes é sempre crucial ter entidades que aceitam investir para o ganho de amanhã. A formação é a base de tudo”, conclui.

Importa referir que actualmente a Academia de Futebol Unidade “D” movimenta 50 atletas com idades compreendidas entre oito e 15 anos, estando a competir nas provas organizadas pela Associação provincial de futebol de Maputo.

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