- Falência técnica da LAM já é indisfarçável
- Apenas um avião da LAM e outro da Mex é que estiveram disponíveis ontem
Os aeroportos nacionais voltaram, ontem, a viver um dia de caos que lembra a primeira semana de Julho de 2018, quando o governo decidiu exonerar todo Conselho de Аdministração das Linhas Aéreas de Moçambique (LAM), então liderado pelo falecido António Pinto, devido à incapacidade técnica de levar passageiros ao destino, obrigando ao cancelamento e reprogramação de diversos voos, chegando mesmo a deixar o antigo primeiro-ministro em terra. Desta vez, a companhia de bandeira, acordou com apenas um dos seus cinco aviões (todos alugados) e um outro da sua subsidiária MEX, o que obrigou ao cancelamento e reprogramação massiva de voos. A empresa reconheceu a situação que comprometeu a agenda de centenas de passageiros, tendo prometido regularizar a situação.
Reginaldo Tchambule
Depois de anos sendo empurrada com a barriga, a companhia de bandeira, LAM, volta a dar sinais claros de estar numa situação de falência técnica. Esta segunda-feira, centenas de passageiros que tinham voos programados para vários destinos dentro e fora do país viram as suas agendas comprometidas na sequência de reprogramação e cancelamento de muitos voos.
Sem um serviço de comunicação B2C eficiente, muitos passageiros só ficaram a saber do cancelamento dos seus respectivos voos já nos aeroportos, o que criou enormes constrangimentos a quem tinha agendado algum trabalho, evento, reunião e até mesmo a lazer.
Até ao princípio da tarde desta segunda-feira, a LAM havia somente conseguido fazer voos de Maputo para Nampula, Nacala, Quelimane e Joanesburgo e a empresa dava garantias de que iria transportar todos os passageiros aos seus destinos no mesmo
Ao todo, foram reprogramados nove voos nos seguintes destinos: Inhambane, Vilankulo, Beira, Tete, Chimoio, Nampula e Pemba. No caso da Beira e Tete estavam previstos, até ao fecho desta edição, quatro e dois voos respectivamente.
A reprogramação de voos deveu-se a avaria simultânea de quatro aviões, dos cinco aviões alugados, neste momento operados pela LAM, sendo um Boeing 737 -700 e três Bombardiers Q400, todos com cores nacionais e matrículas moçambicana. Trata-se de aviões em leasing.
Para garantir operações em serviços mínimos, ontem, a LAM tinha somente disponível um único avião da sua frota. Trata-se de um Bombardier CRJ, alugado há cerca de três meses na África do Sul para substituir, temporariamente, um dos dois Boeings operados pela LAM que neste momento encontra-se na África do Sul, numa manutenção de vulto denominada Check C.
O Check C é uma revisão que ocorre a cada 12 a 18 meses, que implica que o avião deixe de operar durante um largo período de tempo, influenciando a própria operação corrente da companhia aérea, e efectuada num hangar de um centro de manutenção. Neste caso, o Boeing já está há alguns meses na revisão na África do Sul.
Outro avião que esteve a circular ontem foi o Embraer ERJ 145 da subsidiária da LAM, MEX, que também funciona de forma condicionada, com apenas um dos seus três aviões da mesma marca, pois um está também a fazer Check C em Namíbia, enquanto o outro está fora de operação, em reparação num dos hangares da empresa desde que sofreu um incidente em Quelimane, deslizando para fora da pista.
Por onde andam o Conselho Fiscal e o IGEPE?
A situação técnica da LAM tem estado numa deterioração progressiva nos últimos anos, numa altura em que já se começa a questionar a apatia do Instituto de Gestão de Participações do Estado (IGEPE) e do Conselho Fiscal da Própria companhia de bandeira.
Evidências apurou que este último órgão praticamente nem sequer funciona devido a ausência constante do respectivo presidente, Sheik Abu Bacar, que, de acordo com fontes da empresa, sequer coloca os pés lá. Cenário similar verifica-se também em relação a Augusto Mateus, presidente da Mesa da Assembleia Geral.
Mas o problema não pára por aí. Na sua última reestruturação, a LAM mudou a sua estrutura de gestão, passando a ser administrada executivamente por uma direcção geral, liderada por Pó Jorge, enquanto o Conselho de Administração está adstrito ao IGEPE, o que pode estar a comprometer a sua actuação enquanto representante do Estado, ou seja, o IGEPE está numa posição de jogador e árbitro.
A título de exemplo, em Julho de 2018, quando a companhia de bandeira registou uma crise similar, o Governo, através do IGEPE, interveio e demitiu o último Conselho de Administração que a empresa teve antes da reestruturação, na altura liderado pelo já falecido António Pinto.
Foi numa situação similar em que a empresa ficou sem aviões para assegurar operações por falta de dinheiro para pagar dívidas de combustível, o que obrigou a cancelamentos e reprogramações de voos durante uma semana. Entre os passageiros que ficaram por terra, na ocasião, o destaque vai para o antigo primeiro-ministro, Carlos Agostinho do Rosário, que tinha uma viagem de trabalho a Lichinga.
Refira-se que a LAM desmantelou, há cerca de quatro anos, três aviões próprios sob alegações de que estavam desactualizados. Trata-se de um Boeing 737 – 700, vendido abaixo do seu valor de mercado, e dois Embraer 190, que estão a cair aos pedaços no Quénia, sem comprador, numa operação em que a LAM tem que pagar mensalmente mais de 40 mil dólares de parqueamento. Os aviões já estão completamente desvalorizados e já se pensou em vender em peças, mas sem sucesso. Até hoje ninguém foi responsabilizado por esta operação.

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