A máxima de Celso Correia

OPINIÃO

Alexandre Chiure

O ministro da Agricultura e Desenvolvimento Rural, Celso Correia, surpreendeu, na semana passada, o País com a afirmação de que 90 por cento da população moçambicana têm três refeições por dia e que apenas 10 por cento é que passam por problemas de insegurança alimentar.

No início, pensei que fosse um engano ou que se inverteu,inconscientemente, a pirâmide. Mas no desenvolvimento da notícia, veiculada em quase todos os principais canais de televisão do País, apercebi-me de que foi exactamente o que ele disse ao responsável máximo da FAO na Itália.

Fiquei preocupado com a informação porque pensei que o ministro conhecesse bem a realidade moçambicana. Estivesse consciente de que milhares de compatriotas vivem numa incerteza sobre o amanhã. Que têm dese desdobrar em pequenos negócios ou biscatos para garantir, pelo menos, uma refeição, havendo dias maus em que não conseguem ter uma côdea sobre a mesa.

Deste modo, os números do ministro foram considerados por algumas correntes de opinião como sendo um insulto aos moçambicanos. Há já vozes que se levantam a exigir que Celso Correia venha apúblico retractar-se. Eu, pessoalmente, acho que o melhor é manter-se calado. O mal já está feito e não há por onde se pegar, sob o risco de se piorar a situação.

Percebi que, com aqueles números,a intenção do ministro era impressionar aquele organismo das Nações Unidas, parceiro privilegiado de Moçambique, mostrando serviço. Infelizmente, escolheu um foro inadequado para apresentar aquela estatística irrealista,uma vez que instituições como aquela dispõem de estudos detalhados e actualizados sobre o que se passa no mundo, no caso particular no país, e devem ter constatadouma discrepância entre os dados em seu poder e o que o ministro revelou.

Para começar, em condições normais, o que a FAO podia fazer era suspender ou relaxar a sua ajuda ao país, partindo do pressuposto de que, com esforços internos de produção agrícola, conseguiu atingir patamares que não justificam a manutenção dos programas de auxílio em termos de segurança alimentar.

O que joga a nosso favor é o facto de que as Nações Unidas, através das suas agências com representação em Moçambique, conhecem profundamente a situação que se vive no país. Estão cientes de que os níveis de pobreza são altos.Que há níveis acentuados de desigualdades sociais e baixo índice de desenvolvimento humano (0,4)

Segundo um estudo do Banco Mundial, Moçambique é o terceiro país mais pobre do mundo, com um rendimento nacional bruto de 460 dólares. A par destes dados, um relatório do PNUD, divulgado em Outubro de 2021 sobre níveis de pobreza no mundo, indica que mais de 70 por cento da população moçambicana, correspondente a 22 dos 30 milhões de habitantes, vivemem dificuldades, 63 por cento dos quais sesituamabaixo da linha da pobreza e a viver com menos de um dólar por dia.

Segundo a ONU, no período de 2015 a 2018, o número de pobres em Moçambique sofreu um acréscimo de pouco mais de um milhão de pessoas. Olhando para estes dados, é inconcebível que alguém nos venha dizer que 90 por cento da população deste mesmo país usufruem detrês refeições por dia. O Brasil, cuja economia é a oitava do mundo em termos de grandeza, não atingiu tamanho patamar. Cinquenta por cento dos brasileiros têm problemas de insegurança alimentar.

O ministro da Agricultura e Desenvolvimento Rural é capaz de ter razão ao apresentar estes seus dados sem nenhum estudo científico e desfasados da realidade. É que, infelizmente há, em Moçambique, o hábito de adulterar dados estatísticos com a finalidade de atingir objectivos políticos, económicos e sociais.

Nesta ordem de ideias, Gaza tem hoje, em termos estatísticos (dados dos órgãos eleitorais), uma população que, para o Instituto Nacional de Estatística, corresponde às previsões de crescimento demográficopara a província, relativo a 2040. Este bastião do partido no poder possui hoje mais assentos parlamentares do que outras províncias.

O outro exemplo é o do antigo administrador de Chibuto que, ao apresentar o relatório das actividades do distrito ao Presidente Armando Guebuza, disse que 85 por cento da população se encontravam cobertos pelo sistema de abastecimento de água, uma revelação longe de ser verdadeira, tendo-se provado o contrário. O objectivo daquele dirigenteera mostrar serviço, mas acabou por se dar mal.

As coisas chegaram a um ponto tal que depois de elaborados os relatórios e entregues, em formato digital aos dirigentes hierárquicos, estes encarregaram-se de acrescentar zeros a certos números e só depois é que mandam seguir os documentos para outras instâncias, o que configura uma flagrante violação de princípios éticos e de deontologia profissional, ao escamotearem, deliberadamente, a realidade.

Não receiam sequer que alguém da instituição de tutela possa pôr em causa tais resultados, confrontando as estatísticas apresentadas com a realidade. Tudo é feito com uma naturalidade impressionante. Os menos atentos acabam por cair na fita. Só os precavidos, exigentese como hábito de fazer contas e cruzar números é que não compram a banha de cobra.

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