- Decano e especialista do sector defende debate inclusivo para mudar o actual cenário
- “A mercantilização da educação também contribuiu para as manifestações”
Moçambique vive, desde Outubro do ano passado, um clima caracterizado por manifestações violentas que culminaram com a vandalização, destruição e saque de bens públicos e privados, afectando diferentes sectores, desde a economia, educação, turismo e diversos. Numa entrevista exclusiva ao Evidências, Eurico Banze, decano do sector da educação, assessor e antigo porta-voz do Ministério, para além de outros cargos que exerceu no passado, afirma categoricamente que os protestos a que se assistem no país são consequência da qualidade “precária” do sistema de educação. Banze, que conta com mais de 42 anos ao serviço da educação, observa, ainda, que a crise pós-eleitoral veio provar que o sistema de educação está em decadência e que alguma coisa está a falhar. Reformado há oito anos, na entrevista que se segue, partilha a sua visão sobre possíveis caminhos para enfrentar barreiras e desafios que assolam o sector. Sobre os sucessivos escândalos do livro, endurece o tom, para dizer que antes da mercantilização dos livros, gerando uma concorrência desleal, os manuais chegavam com qualidade, o que passou a não acontecer quando começou a disputa dos cartéis que hoje controlam o negócio
Elisio Nuvunga
Obrigado por nos receber para este dedo de conversa. Para começar, como é que olha para o sector da educação na actualidade?
– Vamos lá partir de coisas concretas e exemplos: Se nós formos para Xinavane, aqui na província de Maputo, temos um complexo fabril de açúcar, temos escolas primárias e secundárias, mas os nossos jovens não sabem como é que se produz o açúcar que se coloca na mesa, não têm informações sobre o processo de produção. São vários exemplos práticos. Este é o maior desafio da educação e é daí que se questiona de que forma a educação prepara o homem para o futuro. Na educação de hoje, não há uma relevância prática, mas, sim, teórica. As condições das escolas precisam de ser melhorados, mas é preciso que a escola esteja ligada à dinâmica social, económica, cultural, etc, de onde as escolas se situam e, só assim, poderão ser úteis na transformação positiva.
E como ultrapassar esse problema?
– A escola tem de se envolver na dinâmica do País em todas as dimensões. Isso exige também uma correcta preparação do professor. Eu acho que a formação do professor podia melhorar. O professor é um elemento-chave. Eu estou preocupado com a questão do professor. A classe docente não está unida. Temos várias associações: ANAPRO, ONP e há uma dissonância entre eles e, mais do que isso, se contra-atacam.
O que pode originar esse desentendimento na classe docente?
– Enquanto a classe docente não estiver unida, eu tenho dúvidas de que a escola possa ter a qualidade que nós queremos porque também tenho dúvidas sobre como é que cada um destes se dirige aos alunos e o que transmite ao seu aluno. Este é um problema. Portanto, a classe docente precisa de se reencontrar, precisa de identificar um ponto comum e a sua tarefa fundamental de unir-se em prol de uma educação de qualidade. Devem constituir uma única voz para interagir com o Governo, para as exigências que quiserem fazer.
“É preciso pensar a educação a partir de dentro (Moçambique)”
Diante desta falta de união e problemas previamente identificados, como tornar este sector relevante?
– A educação pode melhorar. A educação precisa de melhorar o ambiente da escola. As pessoas não valorizam o conteúdo local, mas é fundamental para garantir a relevância da educação. É preciso entender que o país tem as suas especificidades.
Quais seriam as medidas urgentes ou pontuais para minimizar esses desafios?
– Eu acho que é preciso que o Governo crie um diálogo para um debate. É preciso criar espaço para uma discussão aberta sobre que escolas e que educação queremos. Este debate é fundamental porque o Governo vai entender que há coisas que não podem ser uniformizadas porque há muitos interesses, sobretudo sonhos no sector da educação. Até hoje não temos certeza de que o conteúdo local é fundamental, não temos certeza de que as crianças têm que aprender o que está concebido no currículo local. Não temos convicções sobre nada. É preciso os especialistas, os académicos, os professores a pensar a educação a partir de dentro (Moçambique) e não de fora (estrangeiro), mas a partir das necessidades concretas das comunidades. Esse é um ponto fundamental e o professor deve ocupar o seu espaço.
Qual seria o espaço do professor?
– Primeiro, o professor tem que ter voz na escola. Tem que ter autoridade na escola. Os regulamentos podem reflectir um espaço mais visível do professor de alguma autoridade não só moral, ética, mas também autoridade científica, autoridade técnica.
Será que o professor não está a ser ouvido?
– Não o suficiente. O professor deve ter espaço de dizer aquilo que pensa e acha. Por exemplo, o professor pode dizer que “na minha leitura, esse conteúdo não é relevante”, e fundamentar e fazer as suas propostas.
“No fundo nós estamos em condições de produzir os nossos próprios livros”
E como é que olha para questão de investimentos no sector?
– Não vou dizer se são maiores ou não, mas eu acho que o importante é definir prioridades em função daquilo que está disponível.
Ainda sobre o quesito investimento, dentre vários desafios temos a questão do livro, carteiras e salas de aulas. O que está falhar?
– Infelizmente, quando nós acabamos entrando na mercantilização da educação, da escola, da gestão da educação há certas coisas que são quase inevitáveis. Quando os livros eram produzidos ao nível do ministério, toda cadeia de produção do livro, a coisa estava certa. Mas quando o negócio para produção iniciou, surgiu uma disputa entre os concorrentes que acaba por não ser honesta ou é desleal. Eu acho que na história do livro escolar, depois da descentralização, começamos a ter um problema porque cada um queria ganhar e cada um fazia tudo por tudo para ganhar.
O problema das carteiras não pode ser resolvido a partir do nível central. Eu acho que é preciso clarificar o papel de cada nível na resolução do problema da carteira escolar, ou seja, tem que se saber exactamente qual é a responsabilidade do governo provincial, do administrador do distrito, do chefe do posto e qual é a responsabilidade do chefe da localidade, porque o problema não é só de produzir carteiras, é preciso clarificar o papel de cada um destes e parece que não há clareza sobre quem faz o quê e isso se aplica para a questão das salas de aulas e para a resolução deste problema, volto a repetir, é indispensável a clareza das funções a cada nível.
Ainda sobre questão do livro, tem-se levantado grandes debates por conta dos erros ortográficos muito graves. Essa razão estaria por detrás de interesses particulares na produção dos mesmos?
– Não sei dizer, mas, em última análise, o livro só pode ser aprovado por uma única entidade. Pode haver vários interesses, mas o governo dever ter a capacidade de olhar e filtrar, verificar e ter a certeza de que este livro passa por mim e eu assumo as responsabilidades. Se isso não acontece, quer dizer que alguma coisa não está boa.
Estaríamos em condições de reproduzir os nossos próprios livros?
– Não sei o que é que está acontecer, mas, a princípio, há muitos autores moçambicanos na produção do livro. Estão vinculados a determinadas empresas. Se são moçambicanos, nós estamos em condições de produzir os nossos próprios livros. Portanto, os moçambicanos precisam de ser organizados e orientados para isso, para termos livros de qualidade que reflictam a nossa identidade e as nossas aspirações.
A Educação é, historicamente, um elemento catalisador de desenvolvimento de uma nação, porém, aquando das manifestações em protesto dos resultados eleitorais assistiu-se a um retrocesso significativo no país. Estes actos seriam, em parte, consequência da educação deficitária no país?
– Eu aceito, assumo como parte da história da educação que o que aconteceu e está acontecer é sinal de decadência da educação. É sinal de que a educação falhou, está falhando e não podemos ter receio de dizer isso. É urgente que se resolva isso. A escola tem que ter uma função diferente, tem que melhorar, tem que ser reorientada e isso não deve levar tempo. Volto a repisar: a mercantilização da educação também contribuiu para as manifestações. As manifestações infelizmente mostraram-isso.

Facebook Comments