O cenário social refractário de Moçambique (Parte I)

OPINIÃO

Dionildo Tamele

O que caracteriza Moçambique desde os primórdios da sua constituição são de facto guerras, desigualdades sociais, corrupção, ociosidade que é parte integrante da cultura política e a opacidade académica e o cenário refractário na produção científica, não esquecendo a classe trabalhadora, nepotismo, clientelismo, péssima governação, ausência de liderança, como alguns ingredientes que fazem parte do tecido social de um país denominado Moçambique. A isto junta-se o facto de que somos bons mestres na procrastinação e em protelar o que é mais importante e urgente a se fazer.

Entretanto, estas características não só caracterizam o Estado moçambicano de forma institucional, mas a sociedade no seu todo, com maior enfoque para as diversas organizações políticas, sociedade civil, instituições religiosas.

Com este ensaio pretendemos, reflectir em torno da última notícia sobre a morte do líder da junta militar da Renamo, Mariano Nhongo. A morte deste moçambicano e a sua influência política e militar desde a morte de Afonso Dlhakama dividiu diversas opiniões do solo pátrio partindo dos académicos, políticos, estudantes universitários com interesse em estudos de política e segurança, e as diversas instituições religiosas que durante o período colonial e na época da guerra civil foram de capital importância, para que o país tivesse tréguas, primeiro com o jugo colonial e depois com os próprios moçambicanos.

Foi possível no presente cenário ver algumas análises proféticas dando conta do fim do conflito no centro, indo mais fundo na ideia segundo a qual as discrepâncias existentes no seio do partindo Renamo já terminaram. Outros são da opinião de que o líder da junta militar morre de forma inglória, mas especula-se que tenha formado alguns seguidores seus que podem dar continuidade ao seu legado de guerra, o mesmo legado deixado pelo primeiro desertor da Frente de Libertação de Moçambique, anos pós independência, em 1976, criando uma guerra civil, que teve como seguidor Afonso Dlhakama.

Na linha do afirmamos no primeiro parágrafo do presente ensaio, algumas questões podem ser levantadas: Que ilações se podem tirar em torno da morte do líder da junta militar? Qual foi seu contributo na instabilidade do país? Quem tirou benefício com a instabilidade política e militar na zona centro e na própria Renamo? Tantas outras perguntas poderiam ser feitas antes de se fazer análises precipitadas, até porque ele foi parte integrante do nosso tecido social.

Moçambique, como escreveu o filósofo moçambicano Severino Ngoenha, foi e ainda é o palco privilegiado de todas as formas de violência, tornando esta façanha inelutável, dado que em alguns pontos do país tem se desvelado em forma de guerra o que ulteriormente cria a instabilidade em vários seguimentos sociais. Explica ainda o filósofo que tal violência deriva do facto de sermos violentos a nível individual, o que possibilita a violência colectiva.

Voltemos à morte do líder da junta militar da Renamo, em torno dos prováveis contornos políticos, económicos e sociais. Afinal, o que impede o debate político nacional, em termos teóricos e práticos.

A teoria política, bem como o pragmatismo político, estão além daquilo que deve responder às situações do debate político desde as fragilidades do sistema político e o de governação que não conseguem responder às necessidades primárias do país.

Uma pergunta que não deve ser contida prende-se com o verdadeiro responsável do cenário desta situação. Talvez ontem pode ter sido Chissano, Guebuza, hoje não resta dúvida que é o actual Presidente, Filipe Nyusi. Até porque no seu discurso no primeiro mandato teria dito que o povo era o seu patrão. Mas é notório que o mesmo povo que é seu patrão continua além das expectativas no sentido em que desde os actos de corrupção, com incidência nas dívidas ocultas, onde Nyusi é mencionado constantemente por agentes processuais, o conflito do centro que não está a conseguir responder à violência armada em Cabo Delgado.

A nossa pretensão não é, de maneira alguma, que Nyusi como sendo o Presidente do país possa de facto responder a todos os problemas do país, mas como sendo guardião número um de Moçambique deve ser capaz de gerir os problemas do seu patrão, que desde o primeiro mandato está a ser desiludido. Em outros cenários, ou melhor, em outras galáxias governativas o Presidente devia pôr à disposição o seu cargo ou sofrer um impeachment, não só pela incompetência política e governativa, mas pelo seu envolvimento de forma directa no maior escândalo financeiro do País.

Mas como estamos no cenário onde fazer política associa-se a uma mera brincadeira e não à ideia da resolução dos problemas mais fundamentais dos moçambicanos, desde a elaboração de boas políticas públicas que possam beneficiar as massas, à escala nacional, este cenário mostra claramente que em Moçambique existe uma crise de consciência política aliada a um analfabetismo político, o que propicia o baixo nível de cidadania, em todas esferas da sociedade, fazendo com que os moçambicanos não se apropriem da esfera pública para reivindicar as suas maiores preocupações, que estão associados ao bom funcionamento da máquina administrativa do Estado e das suas instituições.

Para terminar, vou recorrer ao argumento do sociólogo moçambicano, Elísio Macamo, quando ele coloca a questão de saber como, um país 30 vezes menor do que o nosso e com mais ou menos o mesmo percurso histórico, consegue mandar 1000 homens que em duas semanas fazem aquilo que nós em 4 anos não conseguimos fazer. Considera que não temos absolutamente espaço para regozijo. É para termos vergonha e nos perguntarmos se merecemos a independência. Há gente que se sente mais incomodada por estas comparações do que pela nossa própria mediocridade. Esta colocação de Macamo é de suma importância na medida em que encontramo-nos num país que, nos últimos 4 anos, perdeu a capacidade de decidir o seu percurso histórico e de tomar as decisões no seu território. Não quer isso dizer que a ajuda externa seja má, mas quem deve estar na linha devem ser os moçambicanos. Talvez isso seja produto do nosso nível de educação que continua incipiente, aliado ao nível de socialização da cultura política primária, sem nenhuma capacidade de compreender os fenómenos do seu país de forma complexa.

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