Kagame: mensageiro para pressionar e impressionar a TotalEnergies?

DESTAQUE POLÍTICA
  • Nyusi coloca Ruanda cada vez mais no centro de tudo
  • O momento coincide com a campanha de pressão para retoma das actividades pela Total
  • Kagame mudou abordagem de caça aos seus opositores refugiados em Moçambique

Paul Kagame, presidente de Ruanda, fez uma visita relâmpago, ao nosso país, na passada sexta-feira, e no mesmo dia reuniu com o Presidente da República, Filipe Nyusi, onde, dentre vários aspectos, analisaram a situação de luta contra o extremismo violento em Cabo Delgado, onde o Ruanda intervém com um contingente de mais de dois mil homens, desde Julho de 2021. No balanço do encontro, foi anunciado que os dois estadistas discutiram também sobre interesses económicos do Ruanda em Moçambique, tendo sido colocada a possibilidade da companhia aérea ruandesa fazer ligações com vários destinos do mundo a partir de Maputo. Mas a visita coincide com o momento em que as autoridades moçambicanas têm empreendido esforços para pressionar a TotalEnergies a retomar as actividades, mesmo sem responder ainda cabalmente às exigências colocadas na mesa pela multinacional.

Evidências

Um ano passou desde a última vinda de Paul Kagame a Moçambique. A última visita foi em Setembro de 2021, quando Paul Kagame esteve em Moçambique para participar das celebrações do Dia das Forças Armadas (25 de Setembro), saudar as tropas ruandesas que combatem o extremismo violento em Cabo Delgado e assinar acordos cujo conteúdo continua desconhecido pelos moçambicanos.

E semana passada aterrou em Maputo, de forma relâmpago, numa altura em que a francesa TotalEnergies continua silenciosa em relação às datas para a retoma do seu projecto de LNG avaliado em 23 mil milhões de dólares, fazendo ouvido de marcadores às campanhas de pressão para que retoma as suas actividades em Afungi, no distrito de Palma, em Cabo Delgado. Mas a companhia já colocou as suas condições e deverá se pronunciar no próximo ano, se retoma ou não, face às condições que se apresentar.

Paul Kagame é apontado como próximo de França do que seu homólogo Filipe Nyusi, havendo informações já desmentidas que apontam que a sua intervenção em Cabo Delgado é por procuração da França, por isso, é peça fundamental para o lobby político com París, para garantir a retoma da Total.

No encontro de dois dias, não foi oficialmente anunciado se os dois estadistas debateram a retoma da TotalEnergies ou não, até porque este assunto sempre foi tratado com certo secretismo. Aliás, nem os acordos que Moçambique vem celebrando com Ruanda são do domínio público.

No intervalo de um ano, as relações entre Moçambique e Ruanda conheceram nova página, tendo sido assinado diversos instrumentos, que incluem acordo de extradição, o que provocou muita tensão na comunidade ruandesa refugiada em Moçambique.

Os relatos que se ouvem no seio da comunidade são de intensificação da inteligência que se resume na intimidação dos refugiados para que estes se entregam, havendo casos de membros da associação que se entregaram e foram transformados olhos de Kagame no meio dos refugiados, o que fragmentou a comunidade em Moçambique.

Antiterrorismo domina agenda

Oficialmente, os dois chefes de Estado analisaram a cooperação entre as suas nações nas áreas económica e de defesa, destacando os esforços dos jovens soldados que estão na linha da frente do combate contra o terrorismo na província de Cabo Delgado, onde o Ruanda apoia as forças moçambicanas no combate a grupos rebeldes.

“Os dois líderes saudaram de forma geral os valentes jovens moçambicanos e ruandeses, que com apoio das forças da Missão da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral não poupam esforços para travar a acção dos terroristas no nosso solo pátrio”, fez saber a ministra dos Negócios Estrangeiros e Cooperação de Moçambique, Verónica Macamo.

O secretismo em volta das “decisões importantes” e dos acordos assinados com o regime de Kigali acontece numa altura em que ainda não está claro que preço é que Moçambique vai pagar pela intervenção militar do Ruanda na luta contra o extremismo violento em Cabo Delgado. Apesar de Filipe Nyusi e Paul Kagame insistirem na narrativa segundo a qual a presença de tropas ruandesas surge no contexto das boas relações bilaterais entre os dois Estados e a mesma é financiada pelo Governo ruandês e não acarreta custos futuros para Moçambique, o facto é que persistem dúvidas sobre a engenharia financeira desta operação.

Há duas semanas, a União Europeia estava a discutir um financiamento às tropas ruandesas que lutam contra o extremismo violento em Moçambique.

“A União Europeia está a discutir a prestação de apoio ao destacamento ruandês em Moçambique. Não comentaremos o assunto até que seja tomada uma decisão. As conversações com os Estados-membros estão numa fase avançada, com a proposta a receber forte apoio da França, Alemanha e Itália”, revelou Nabila Massrali, porta-voz dos Negócios Estrangeiros e da Política de Segurança da União Europeia.

Em Setembro último, a União Europeia concordou em fornecer 14,6 milhões de dólares à Missão da SADC em Moçambique (SAMIM), ao abrigo do Mecanismo Europeu de Apoio à Paz, um fundo de cinco mil milhões de euros que permite à Europa armar exércitos africanos bilateralmente. Apesar dos esforços das forças conjuntas de Moçambique, Ruanda e da SADC para conter o extremismo violento, os insurgentes continuam a criar terror em Cabo Delgado.

De referir ainda que os dois países estão também a ponderar estabelecer uma parceria no sector da aviação. O anúncio de cooperação na aviação civil entre Moçambique e Ruanda é feito três semanas depois de o Governo moçambicano ter admitido a possibilidade de privatizar a Linhas Aéreas de Moçambique (LAM), a companhia de bandeira que neste momento se encontra em situação de insolvência técnica.

“Os dois estadistas focalizaram as suas atenções na exploração das linhas aéreas dos dois países, que permitam tornar expeditas as viagens de Moçambique para várias partes do mundo, usando as linhas aéreas do Ruanda, aproveitando a posição em que o Ruanda se encontra no mundo”, disse Verónica Macamo, sem avançar mais detalhes sobre a operação.

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