- Machismo continua a afastar mulheres da carteira
- Além de serem impedidas pelos pais, há raparigas proibidas pelos namorados
Embora a educação seja um direito para todos, em Moçambique e no mundo, ainda persistem disparidades no acesso à instrução formal entre homens e mulheres, com estas últimas muitas vezes sendo obrigadas a abandonar os estudos e os seus sonhos mais cedo para se dedicarem a tarefas domésticas ou obrigadas a envolverem-se em uniões prematuras. Ana da Glória Matavel, proveniente do Distrito de Guijá, na província de Gaza, e Sandra José Baleque, natural de Inharrime, em Inhambane, partilham os desafios de qualquer rapariga que esteja na periferia, primeiro foram os pais a ensinsar que o destino era o lar e agora são os seus parceiros que não incentivam a estudar.
Renato Khau
Embora em termos estatíticos as mulheres representem mais da metade da população moçambicana, ou seja, em maior número que os homens, estas continuam com menos acesso à escola, desde o primário até ao superior em relação ao género oposto. Dados do Instituto Nacional de Estatísticas mostram que apesar das crianças do sexo feminino serem a maioria nas classes iniciais a tendência até chegar ao nível superior é sempre decrescente, acabando por graduar mais homens que mulheres, o que mostra as dificuldades que ainda existem para a retenção da rapariga na escola.
Já a Girl Move (2021), estima, no seu estudo, que 40% das raparigas no país consegue entrar na escola, mas só 10% consegue concluir o ensino secundário; e cerca de 1% consegue fazer o ensino superior. E as taxas ainda podem ser piores, visto que 60% da população vive com significativas dificuldades financeiras, pobreza e com menos de 1 dólar por dia.
Desde criança, Ana foi ensinada que uma mulher tem de ser obediente, trabalhadora e apenas devia apender a ler e escrever, pelo que estudou até a 6ª classe. E antes que avançasse para a classe seguinte, já estava sendo preparada para uma união conjugal prematura com o amigo do seu padrasto.
Hoje, com 20 anos de idade, reside no bairro Pessene, no Distrito de Moamba, na província de Maputo, e conta que ainda tem vontade de voltar a estudar, pois tem sonhos que foram interrompidos ainda criança, e o dela é ser uma contabilista.
“Não terminei a 6ª classe porque o meu padrasto dizia que eu já era mulher de verdade e não precisava estudar muito”, relatou, para depois ajuntar que este trabalhava na vizinha África do Sul e quando voltava “vinha com um amigo dele escuro que até comprou telefone Samsung para mim, e eu não queria ficar perto daquele tio, me assustava, mas sempre vinha para casa com o meu padrasto”.
Ana lembra que foi em Dezembro de 2016 que o tal amigo do seu padrasto trouxe para si um plástico cheio de roupas, dizendo que a queria lobolar para que passasse a ser sua esposa
“Minha mãe não fez nada, quem falava era meu padrasto e aquele senhor”, lembra, com uma lágrima no canto do olho. Por sorte, com ajuda da tia conseguiu fugir e abandonar a familia para viver em Maputo.
Já em 2019, conheceu um jovem e rapidamente se envolveram, acabando por morar juntos, mas o tempo não foi suficiente para estudá-lo. E não tardou a se revelar, autoritário, impulsivo e controlador.
“Ele sempre queria saber onde estou e a fazer o quê. Mesmo quando fiquei grávida e fui viver com ele parecia outra pessoa”, relata Sandra, acrescentando que quando tentou voltar a escola, através do ensino à distância, em 2021, sofreu ameaças do Esposo, acabando por abdicar mais uma vez dos estudos.
Ver os sonhos sacrificados por ser mulher
Tal como ela, Sandra, de 24 anos de idade, actualmente residente no bairro de Muhalaze, foi forçada a abandonar a escola ainda na tenra idade. Cresceu com a mãe e dois irmãos mais novos na Vila-sede de Inharrime. O seu sonho era continuar a estudar mais, mas devido as condições financeiras da família, ela foi sacrificada. Não teve a mesma sorte dos rapazes.
Para ajudar a família, trocou a escola pelo trabalho. Levantava cedo para vender diferentes frutas da época à beira da estrada, como forma de ter algum incremento da renda familiar.
Sem poder estudar, continuou a sua vida, até que, em 2019, quando tinha 21 anos, conheceu o seu então esposo, com o quem teve uma filha, e a esperança renovou-se. Mas, logo depois veio a proibição dela poder ir à escola, porque o seu esposo havia estudado apenas até a 5ª classe, daí que ele não olhava com bons olhos a ideia de sua esposa ter um nível académico superior ao seu.
“Ele sempre me disse que eu tinha que trabalhar e cuidar de crianças em casa, porque escola não ia me fazer ganhar nada. Depois me disse que não devia mais ir à escola”, lembra Sandra, que hoje diz que daria de tudo para continuar com os estudos.
Falta de escolas secundárias nas comunidades constitui barreiras às raparigas
Segundo Adão Paia, activista social com experiência em matérias ligadas a igualdade de gênero, muitos são os casos em que se fomenta a ideia de que o homem é que é o garante e provedor da renda familiar e que a mulher nasceu para o espaço doméstico e tem de ter acesso limitado a educação como forma desta permanecer obediente e submissa.
“Existem concepções que defendem que a mulher não precisa da educação para o seu auto-desenvolvimento ou da família. Se formos a analisar, grande parte das famílias nas zonas rurais, e não só, defende que os homens é que devem ser os garantes do desenvolvimento das famílias e por isso devem aprender a ler, escrever e trabalhar para que cuidem das famílias. Mas é errado pensar assim”, refere Paia.
O activista acredita que para além da existência destes estereótipos dentro das famílias das raparigas “temos em paralelo uma sociedade que também tende a trazer elementos que dão força a estes fenômenos”.
Por causa disso, grande parte das raparigas quando crescem tende a acreditar que elas nasceram exatamente para irem ao lar, um cenário que é mais predominante nas zonas rurais onde as crianças só tem disponíveis escolas que leccionam até a 5ª ou 7ª classe.
“Hoje, temos a sorte de ter algumas universidades públicas e outras privadas em algumas vilas distritais e cidades ao longo do país, porém distante das comunidades, obrigando as meninas a percorrerem longas distâncias, sendo assim a distância mais uma barreira para as raparigas que queiram seguir estudando”, anota.
Há violência no caminho da escola e na própria escola – UNFPA, 2016
Pesquisas mostram que as raparigas que têm acesso à formação sobre competências para a vida, formação vocacional e referências femininas a nível comunitário e/ou referências de familiares com carreiras profissionais sentem maior incentivo a permanecer na escola,
Estudos recentes mostram que dar incentivos ou condições de mobilidade como bicicletas, como acontece com o projecto Sou Capaz da Secretaria de Juventude e Emprego, tem maior efeito na frequência no ensino secundário nas zonas rurais para as raparigas do que para os rapazes.
O relatório da INFPA refere ainda que “os países que adoptam políticas e instituições focadas em melhorar o capital humano dos jovens, através da educação, acesso à informação e serviços de saúde, tendem a ter ganhos económicos significativos”.
“A rapariga é sempre relegada aos trabalhos domésticos”
Para o psicólogo Háchimo Cassamo Chagane, nas zonas rurais, em geral, o papel da rapariga é sempre relegado aos trabalhos domésticos e para cuidar dos irmãos mais novos, sobretudo nas zonas rurais.
“A sua família quer garantir que ela esteja pura e em condições de se casar, devendo ser educada, trabalhadora, cumpridora das suas obrigações domésticas e que seja bem comportada, ou seja, a menina vai viver sendo monitorada a todo o momento pelos seus familiares como forma de prepará-la para a vida conjugal, o que é totalmente errado, por se tratar duma menor de idade”, destaca.
O psicólogo considera que existe a necessidade da sociedade reduzir práticas tóxicas porque são um atentado para a saúde psicóloga e mental das mulheres e de toda a sociedade.
“As raparigas acabam se conformando com o facto de existirem certos direitos para os rapazes que para elas lhes são barrados. Parecendo que não, toda a criança quando cresce tem seus sonhos e fica esperançosa de um dia poder realiza-los através da escola e quando este direito de ir a escola lhe é retirado, ela pode facilmente desenvolver o sentimento de frustração e auto-rejeição, algumas deixam de lado toda vaidade feminina e passam a ser as primeiras a levantar da cama e são as últimas a ir dormir, pois estão permanentemente fazendo trabalhos domésticos”, explica Áchimo Chagane.

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