49 anos da independência de um país que anda a velocidade de camaleão

DESTAQUE POLÍTICA SOCIEDADE

O país celebrou, no passado dia 25 de Junho, o Dia da Independência Nacional conquistado no ano de 1975. Volvidos 49 anos da independência, Moçambique continua a enfrentar vários desafios, sendo neste momento um dos 10 mais pobres do mundo, apesar de ser rico em recursos naturais, o que espelha o fracasso das políticas de desenvolvimento adoptadas pelos seus sucessivos governos. Entretanto, enquanto entre os līderes e governantes do partido Frelimo reina o sentimento de que o país cresceu significativamente quando comparado com o que era quando foi “arrancado” do jugo colonial, vários estratos da sociedade moçambicana consideram que a chamada Pérola do Índico foi empobrecida devido a má governação, corrupção e outros males.

Evidências

Na semana que antecedeu a comemoração do dia da independência, os moçambicanos ficaram chocados ao saber que, afinal, a governação dos últimos 10 anos, sob batuta de Filipe Nyusi, produziu um exército de pobres.

Não é para menos. Como que a carimbar a passagem de um dos períodos mais negros da história da governação do país, nos últimos 10 anos, de acordo com a Estratégia Nacional de Desenvolvimento 2025-2044, aprovada, recentemente, pelo Conselho de Ministros, o número de pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza aumentou exponencialmente.

Com efeito, segundo o documento que temos vindo a citar, no período que coincide com os dois ciclos de governação de Filipe Nyusi, o número de pobres aumentou em cerca de 85%. Quer isto dizer que se em 2015, 46,1% da população moçambicana estavam em situação de incapacidade de aquisição de bens alimentares e não alimentares com o objectivo de satisfazer as necessidades básicas, o número subiu para 65%.

Este é apenas um dos vários exemplos que ilustram a trajetória decrescente de um país que chegou a ser referenciado na primeira década do presente milênio como um exemplo de crescimento a nível global.

O desemprego, fome e pobreza são dos principais motivos da frustração dos moçambicanos, sobretudo os jovens, que deixaram ficar o seu descontentamento nas urnas nas eleições autárquicas passadas.

“O país está a ser mal governado. Nestes 49 anos de independência, eu não vejo grandes avanços, pois nós os moçambicanos continuamos a ter uma vida precária e o governo parece não ter solução para os problemas do povo. A educação baixou de qualidade, a saúde está um caos autêntico. Posso dizer que neste momento vivemos numa selva em que é cada um por si”, desabafa Zelito Sitoe, de 37 anos, residente em Maputo.

Quem também não vê sinais de desenvolvimento nestes 49 anos é a senhora Mônica Manuel, de 62 anos de idade, residente no bairro de T3, na cidade da Matola, para quem o nível de vida tende cada vez mais a degradar-se.

“É verdade que já não formamos ‘filas de abastecimento’, mas o custo de vida está insuportável. Eu sou reformada e sou pensionista do meu marido, mas, mesmo assim, o que consigo no fim do mês não é suficiente para ter uma vida tranquila. Por essa razão, todos os dias, no fim do dia, me dedico à recolha de latas para reciclagem, como forma de poder garantir o sustento de meus filhos desempregados e meus netos”, revela Mônica.

Já para o jovem Sandro José, mecânico de profissão, a governação dos últimos 10 anos aumentou o nível de insatisfação, sobretudo de jovens como ele, pois o executivo mostra-se incapaz de satisfazer as suas principais inquietações. Aliás, vinca que devido a insatisfação, os jovens estão a procura de uma alternativa política.

“O país é mal governado. Não vejo nenhum avanço, sobretudo nos últimos anos, em que o país praticamente estagnou em termos de crescimento. Não há oportunidades para os jovens, por isso quando uma instituição anuncia duas vagas aparecem mais de mil jovens à procura de emprego, tal como se viu no caso do restaurante Diamond e recentemente no município de Marracuene, em que milhares foram se apinhar a concorrer a poucas vagas. A situação está crítica e isto leva os jovens a procurar outras alternativas políticas”, sublinhou.

Nyusi diz que o país está “bom”, mas seus antecessores discordam

À margem das celebrações, o Presidente da República, Filipe Jacinto Nyusi, e antigos estadistas moçambicanos, Armando Emílio Guebuza e Alberto Joaquim Chissano, fizeram uma radiografia sobre “avanços e recuos” no país nestes 49 anos.

O Presidente da República, Filipe Nyusi, criticado até por membros do próprio executivo por aquilo que consideram ser a pior governação de todos os tempos, não tem dúvidas que o país está no melhor momento, visto que desenvolveu em todos sectores, apesar do terrorismo no norte do país, Cabo Delgado, ser um desafio.

Apesar do desafio de conter a segurança na província conflituosa, Nyusi diz que os Moçambicanos estão orgulhosos e satisfeitos com o nível de desenvolvimento no sector da educação, saúde, entre outros.

Trata-se de uma visão quase míope da realidade actual dos sectores de educação e saúde que estão um verdadeiro caos. Enquanto, o sector da educação enfrenta uma crise sem precedentes marcada pela precariedade de infra-estruturas escolares, falta de material didático, erros nos livros, demora de mais de um semestre na alocação dos manuais escolares, problemas de horas extras que levam os professores a boicotarem aulas nas segundas turmas, entre outros.

No sector da saùde, a crise vai desde a falta de subsídios que levou a recorrentes greves (que foram normalizadas) à falta de consumíveis hospitalares e medicamentos nas unidades sanitárias a vários níveis no país, a ponto de os pacientes serem obrigados a comprarem seu próprio material para poderem terem acesso ao tratamento.

“Nestes 49 anos da independência, o país desenvolveu-se em todos os sentidos. São ganhos que quando olhamos em todos os caminhos percorridos até aqui, orgulham a todos os 33 milhões de Moçambicanos quase em todos os sectores, nomeadamente na saúde, agricultura, na educação, na justiça, na energia eléctrica, na diplomacia e tantas áreas”, destacou Filipe Nyusi.

Igualmente, assegurou que o país está em paz, apesar dos desafios de vencer o terrorismo na zona norte do país.

“O país está relativamente em paz, depois de 16 anos de conflitos entre irmãos. Decidimos sentar na mesma mesa e restabelecer a paz. O grande desafio é controlar o terrorismo que perturba os distritos de Cabo Delgado. Sobre este desafio, temos a firme convicção de que se estivermos unidos vamos vencer com vista a tornar a paz efectiva”, disse.

“O sonho (…) está longe de ser uma realidade”

Por sua vez, Alberto Joaquim Chissano fez uma apreciação que converge com os sentimentos dos moçambicanos. O antigo presidente diz que o sonho dos Moçambicanos está longe de se alcançar, principalmente com a situação de Cabo Delgado.

Joaquim Chissano observou de igual a situação nortenha do país, Cabo Delgado, que ainda dizima vidas e jorra sangue dos inocentes, por isso, face a estes episódios, o ex-presidente da República de Moçambique observa que compromete os intentos dos moçambicanos.

“O sonho, como muitos dizem que temos para o nosso país, está longe de ser uma realidade (…). Temos a situação de Cabo Delgado que deve ser desafio permanente. O desafio imediato é vencer o terrorismo que está a prejudicar a nossa marcha”, disse.

Para o autor da obra “Os Tambores Cantam”, Armando Guebuza, os moçambicanos ainda não alcançaram seus sonhos, apesar de 49 anos de independência.

Por seu turno, o Presidente da Renamo, Ossufo Momade, lançou duras críticas ao Governo, tendo dito que ao longo deste período a Frelimo no poder não foi capaz de resolver o problema de raptos, crise económica, corrupção, despartidarização do Estado, nepotismo e clientelismo na Administração Pública.

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