Felisberto S. Botão
Entender a cultura da religião – Cont. 1
Andei a adiar o assunto presidente Ruto, do Quénia, de tanto desgastante que é. Essencialmente eu levantava suspeitas do que poderia via a acontecer, se o presidente continuasse no caminho que estava a seguir. As minhas suspeitas se confirmaram, infelizmente.
Ruto é um preto coitado, como a maioria de nós da classe estudada, a chamada classe média, que estudou os princípios e teoremas do sistema colonial, para usar a mesma linguagem e se sentir integrado. É só lembrar o sucesso que fez na reunião do G20, na conferencia do clima que ele organizou no seu país, e outros eventos continentais, onde ele brilhou com os teoremas sobre o sistema financeiro, investimento climático, e a restruturação das instituições de Bretton Woods. Os brancos perceberam os seus complexos, e usaram-no, dando-lhe o que ele queria.
De seguida “recomendaram” um pacote fiscal inexequível, para a sua autodestruição. Eles sabiam que o Ruto não iria querer perder a imagem do “preto quase branco“. Daí ouvirem pela própria boca do Ruto, aquando da eclosão da manifestação anti “tax bill”, “…a culpa não é do FMI, …a culpa não é do Banco Mundial… “. Aí é que notamos que já perdemos de vez o nosso presidente. Agora ele está disposto a matar seus irmãos para provar que os quenianos é que são idiotas, um povo baixo, que não merecem um presidente avançado como ele, que entende as coisas complexas, como os brancos…
O Ruto já não é nosso, de africano só sobra a pele preta. O seu processo de destruição começou gradualmente, quando foi a Israel ser baptizado (na cabeça) pelos sionistas, o 1o poder religioso, e começou a falar coisas sem sentido contra a Palestina, a favor do genocídio israelita. Foi aos estados unidos, baptizaram-lhe como cristão, o 2o poder religioso, na cadeira do presidente americano, sentado como um discípulo do império europeu (caucasiano), e agora já se sente superior aos outros africanos, com a cobertura da Nato, ate deram-lhe o título do aliado estratégico não membro da NATO. Para a sua viagem para américa, tinha que viajar de um jato privado árabe, para receber a sua doze de baptismo do 3o poder religioso, o islâmico, e agora de volta a África, “full charged”, comprou os seus parlamentares, e impôs aos seus cidadãos uma proposta de lei fiscal, escrita pelos brancos, e que só satisfazia ao FMI e ao império europeu. E diz publicamente que o povo não entende, que são vândalos, como já ouvimos um dia aqui na nossa terra …
Como tristemente afirmou o presidente do Benin, Patrice Talon, no Brasil, na sua visita de 23 de maio de 2024, “africanos são fracos, tem que esquecer as memórias da escravatura e do colonialismo”. Na verdade, ele é que está a Projectar a sua fraqueza em nós, o povo africano, tanto que ele não age sem as ordens do presidente francês. O líder africano nutre a síndrome de “preto diferente”, a ponto de o presidente Talon não se incluir na afirmação que ele faz, acredita profundamente que os outros africanos é que são fracos, daí ele se associar aos seus semelhantes, os europeus.
Voltando ao Ruto, este deixou de ser um problema Queniano, ele tornou-se um problema para toda África, e mais ainda, para todo homem negro, globalmente, como podemos testemunhar com o recente envio da sua força policial para a invasão do Haiti, a mando dos estados unidos, que pretendem roubar os recursos daquele país. O Ruto deve ser parado, e o povo queniano já percebeu isso, e já está a exigir a sua saída do poder.
Hoje entendo a postura do Julius Malema, quando foi ao Quénia e detonou o Ruto pelas mentiras pan-africanistas, mostrando completo desrespeito pelo movimento e pelo povo. O Ruto acredita que o pan-africanismo não tem nenhum valor, que é apenas uma narrativa para fazer de contas e agradar os pobres africanos. Hoje entendo o presidente Uhuru Kenyatta, que lutou tanto contra o Ruto, preferindo apoiar o candidato da oposição nas últimas eleições, tanto era a gravidade do que ele antevia, mas que o povo não tinha noção.
O Ruto tornou-se um grande perigo para o Quénia e para África, e tudo foi organizado a nível espiritual, que iniciou com a visita do rei da Inglaterra ao Quénia, de 31 de outubro a 3 de novembro de 2023, para consagrar Ruto na sua cadeira, para que ele consolide seu poder inabalável no Quénia.
Para não sofrer muita pressão em casa, está a tentar lançar o homem da oposição (Raila Odinga) para a união africana, mostrando mais uma vez a falta de consideração pela instituição africana, olhando para ela como algo para parquear um opositor, pois ele não espera nada da UA.
Quando você vir a europa ou américa a elogiar um presidente africano, esteja certo que já perdemos o homem. Ou se eles elogiarem uma acção africana, como foi com TSU em Moçambique, através do FMI, saiba que vem problema pela frente.
O Ruto é um caso típico de manipulação espiritual dos nossos líderes. A religião também é usada para encobrir os rituais espirituais, que são a primeira linha de guerra que vários povos usam, que antes era aberto, mas hoje é disfarçado, pelo padrão cristão, introduzido pelo europeu caucasiano, e o africano foi completamente desvirtuado na sua sabedoria com relação a matéria.
Aí entendo uma das últimas intervenções do Ibrahim Traoré, quando foi visitar a associação de eventos tradicionais, e afirmou que o feitiço deveria ser usado como instrumento de guerra contra os nossos inimigos, e lembrou uma máscara já usada no passado pelo povo de Burkina Faso.
Não vamos deixar de repetir a essência deste debate, parafraseando o Maponga Joshua, que o “cristianismo é uma cultura, islão é uma cultura, judaísmo é uma cultura, *UBUNTU* é uma cultura. Quem ousa dizer que sua cultura é melhor que a outra? Quando tu praticas a cultura do outro… Quem pratica a sua?“.
A religião foi usada como a linha da frente para a incursão e manutenção do colonialismo. Daí a igreja e o estado terem desenvolvido uma ligação forte na era colonial, tanto na época dos árabes, assim como na época dos europeus. Não haja confusão, tantos as mesquitas como as igrejas, representam instrumentos de manutenção da estrutura colonial na nossa terra, e um símbolo de renegação da nossa cultura africana.
Hoje, depois das independências, os nossos governos independentes mantêm esta ligação, conservando todos os privilégios da igreja e da mesquita, mantendo o sistema colonial vivo, consciente ou inconscientemente, alienando a nossa própria cultura. Esta é a mania do nosso apego à coisa colonial, têm que ser como eles faziam.
A religião, tanto a islâmica como a cristã, empurra-nos a marginalizar a nossa própria cultura, tanto na sua essência, no que toca a princípios e fundamentos, como na sua manifestação, através de costumes, arte e música, provocando uma grave crise de identidade entre o nosso povo e principalmente entre a juventude.
A religião surge da necessidade do ser humano se comunicar com o Divino, de forma sistematizada e padronizada. Isso porque o ser humano não lida bem com o misticismo, mas quer lógica, que é o que sua mente entende.
A espiritualidade é o caminho tradicional que o ser humano sempre teve para se comunicar com o Divino, e os ancestrais são o caminho para materializar isso, pois eles estão em espírito, no mesmo modo que o Divino. Os africanos sempre fizeram isso muito bem, da sua forma. Daí resgatar a questão cultural, que alguém se referiu antes.
A necessidade da lógica, fez nascer a religião, onde os pensamentos e princípios começaram a ser escritos em pergaminhos, contrariando a tradição oral africana.
A tradição oral era sabedoria africana, para não deixar seus princípios, principalmente os espirituais, caírem em mãos alheias. Assim passavam de geração para geração, com base em guardiãs espirituais, que acredito/suspeito ainda existirem na Etiópia.
O receio se efectivou, com a invasão europeia. Eles tiveram acesso aos pergaminhos, que deu azos a criatividade europeia, para o surgimento do Cristianismo, e aos árabes, para o surgimento do Islamismo.
Ambas religiões tem a sua base nas escrituras africanas, mas cada um fez as suas modificações, segundo seus interesses coloniais. Por isso hoje vemos essa disputa em África, dos dois poderes coloniais, árabe e europeu, mas ambos preferem expressar-se em termos religiosos.
Portanto, falar de religião africana é muito complexo, pois se mistura com todo movimento religioso global.
Estas manipulações espirituais, camufladas com a religião estão a recolonizar África, mas num modelo diferente. Estão a tomar África do Sul, o Quénia, a Nigéria, e o Gana, que são os pilares da África. Olha para o comportamento dos presidentes destes países, não estão a perceber nada do que o povo clama, porque estão tomados espiritualmente, e já não controlam a sua cognição e muito menos a sua emoção. Aliás, a maioria dos líderes africanos estão neste estado, com rara excepção dos revolucionários do Sahel.
Para fechar, a religião é uma interpretação cultural da relação com Deus. Deve haver uma revolução cultural em África, de outro jeito, a revolução política não será bem sucedida.
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