- Falhas do Sistema de Saúde agudizam sofrimento dos que padecem de doenças crónicas
- Em Moçambique, os doentes crónicos travam batalhas diárias para sobreviver
- Especialistas de Saúde apontam que negligência está por detrás das mortes
Em Moçambique, viver com uma doença crónica é um teste constante de resistência. As barreiras são muitas, desde a escassez de infra-estruturas adequadas, falta de medicamentos acessíveis, ausência de médicos especializados e, sobretudo, um Sistema Nacional de Saúde que falha em prover o suporte necessário aos pacientes. Para quem enfrenta enfermidades como insuficiência renal, cancro, diabetes ou hipertensão, a luta pela vida é diária e, muitas vezes, desigual. Enquanto o corpo trava sua batalha interna, o paciente também precisa combater um sistema ineficiente e uma sociedade que ignora sistematicamente o sofrimento dos mais vulneráveis. Nesta edição, o Evidências conta o drama de alguns doentes crónicos na Cidade e Província de Maputo.
Luísa Muhambe
Segundo a Organização Mundial de Saúde, as doenças crónicas não transmissíveis representam 28% das mortes em Moçambique, o que de certa forma só agrava, com a escassez de centros especializados e especialistas para tratar esse tipo de doenças.
Perante as adversidades que enfrentam no seu dia a dia e, sobretudo, quando procuram tratamento no Sistema Nacional de Saúde, os doentes que padecem de doenças crónicas têm poucos motivos para sorrir.
André Foquisso, de 40 anos de idade, teve sua vida transformada de forma abrupta pela insuficiência renal crónica. Antes um técnico de laboratório, André agora se vê preso a um ciclo doloroso de tratamentos e despesas que parecem intermináveis. Para sobreviver, ele depende de sessões semanais de hemodiálise, cada uma ao custo de 7.350 meticais. No final do mês, essa conta soma 70.000 meticais, um valor proibitivo para a maioria dos moçambicanos, especialmente quando não há suporte governamental ou de uma Organização Não-Governamental.
“Eu não tenho escolha. Sem a diálise, os sintomas pioram. Graças a Deus nunca parei o tratamento, apesar do custo que é simplesmente insustentável. Minha esposa não conseguiria manter a casa e, ao mesmo tempo, pagar pelo meu tratamento. Se não fosse minha irmã e meu cunhado, não sei o que faria, eles é que têm feito de tudo para garantir que consiga fazer pelo menos uma diálise por semana e também tenha os medicamentos necessários”, revela André, com um tom de resignação.
O preço de estar vivo, para André, é alto, não apenas financeiramente, mas emocionalmente. Cada sessão de diálise traz algum alívio, mas também aumenta a angústia de saber que a doença não tem cura e que sua única chance de recuperação plena é um transplante renal, estimado em 14 mil dólares. Esse valor, em um país onde o salário médio é muito abaixo disso, é um sonho distante para muitos.
O drama de quem perdeu o ente querido depois de vários anos de luta
Para Lídia Macuácua, de 50 anos, a luta contra um cancro maligno no pescoço não é menos dolorosa. Além da doença que consome seu corpo, Lídia enfrenta um Sistema Nacional de Saúde que se debate com inúmeras dificuldades. A máquina de radioterapia do hospital Central de Maputo, onde por sinal faz o tratamento, está avariada há mais de um ano. Assim, sua única opção é viajar para outros locais em busca de tratamento.
“Eu já gastei mais de 20 mil meticais em exames como Tomografia Computorizada (TAC) e outros procedimentos. E, mesmo assim, não tenho garantias de que o tratamento vá continuar. Se eu tivesse recursos, poderia viajar para fora, mas sem ajuda do governo ou de ONGs, tudo recai sobre minha família”, desabafa Lídia Macuacua.
Devido a impossibilidade de fazer o tratamento no país, Lídia precisa com urgência de 100 mil meticais para viajar para o Malawi, onde poderá fazer a radioterapia que tanto necessita e, ao menos, garantir uma mínima qualidade de vida, enquanto está no aguardo da operação.
A história de Alice João Macanzi, uma mulher de 46 anos de idade, narrada pelo seu filho Rafael Thovela, se revela ainda mais trágica, tendo começado com sintomas sutis, como hemorragias menstruais que foram inicialmente ignoradas. Após várias visitas a hospitais locais, o diagnóstico chegou após meses de angústia: câncer de útero. O tratamento começou em um hospital central, onde Alice enfrentou quimioterapia e radioterapia
“Minha mãe se tornou um símbolo de força”, relembra Rafael. “Apesar das dificuldades, ela sempre manteve a esperança”, contou
O tratamento, no entanto, trouxe desafios significativos. A falta de transporte para as consultas e os altos custos médicos pesaram sobre a família. Rafael descreve momentos difíceis em que precisavam se unir para garantir que Alice recebesse o apoio necessário, sendo que os efeitos colaterais da quimioterapia foram devastadores.
“Ela ficava fraca, debilitada e sofria com náuseas, sentíamos um sentimento de impotência. Não podíamos fazer nada para aliviar sua dor, mas em meio a esse sofrimento, a família lutou para fornecer conforto, enfrentando noites em claro ao lado dela, pois não conseguia dormir devido às dores’’, revelou.
Thovela contou, por outro lado, que houve um tempo em que doença estava controlada, mas a situação se agravou com a negligência médica e as limitações impostas pela pandemia da Covid-19, sendo que depois de quatros anos de batalhas intensas Alice perdeu a guerra contra o cancro, deixando três filhos e uma neta.
Especialistas de Saúde apontam que negligência está por detrás das mortes
Para Nilton Veloso, ex-técnico de análises clínicas do Instituto Coração (ICOR), a maior causa de mortalidade entre esses pacientes é a negligência sistêmica.
“Muitos pacientes chegam ao hospital com doenças que ainda não foram diagnosticadas. São marcadas consultas para daqui a seis meses ou mais. Quando chega a data, muitos já morreram sem sequer saber o que tinham”, conta Nilton indignado, para depois referir que a negligência, no entanto, não cinge apenas no diagnóstico
“Não é raro que um paciente precise de um simples exame de hemograma e o hospital esteja sem reagente. Quem sabe se aquela pessoa tem uma hemorragia ou está com anemia? Esses problemas são comuns e fatais”, alerta Nilton, apelando ao governo para que intervenha com urgência, mas sabe que o caminho para reformas efetivas ainda parece longo
Leonardo Munjovo, médico no Hospital Central de Maputo, revela que a situação ainda não é das melhores e que com mais esforços a situação pode melhorar nos próximos tempos.
‘‘Actualmente, há poucos médicos especialistas, as enfermarias não conseguem albergar maior parte dos pacientes. Em alguns casos, não há vagas para internar alguns doentes nesses serviços especializados e também em alguns serviços especializados há falta de meios auxiliares de diagnóstico, que pode exigir que o paciente seja transferido para outros hospitais, isso acarreta alguns custos para o mesmo’’, referiu Munjovo.
“É preciso acelerar formação de médicos especialistas”
O médico destaca as condições socioeconómicas dos pacientes que os impedem de aderir ao tratamento (sem dinheiro para o transporte, por vezes não podem ficar muito tempo internados porque devem ir vender, sem dinheiro pra comprar alguns fármacos ou alguma outra recomendação médica que requer alguns valores), a falta de alguns fármacos e de material médico cirúrgico no sistema nacional de saúde e algumas crenças/mitos que influem negativamente na adesão do paciente ao tratamento, como sendo os principais obstáculos que os médicos enfrentam para oferecer tratamento adequado aos pacientes.
Indo mais longe, Leonardo Munjovo aponta que é preciso acelerar a formação de médicos especialistas e talvez transferir os especialistas das zonas urbanas para suburbanas e rurais, uma vez que a distribuição é desproporcional.
De referir que, segundo especialistas, o alto custo dos tratamentos é uma das questões mais angustiantes para os doentes crónicos em Moçambique, uma vez que o grosso dos exames e procedimentos essenciais simplesmente não estão disponíveis no país.

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