- É a última tirada do “Pinóquio” ou desta vez fala a verdade?
- Milhares de crianças terminaram o ano lectivo sem os manuais de distribuição gratuita
- Professores celebram mais um dia num tom de lamentações e frustrações
Milhares de crianças em todo o país estão a terminar o ano lectivo sem o livro. Apesar de não conseguir explicar por que razão, pela primeira vez desde a independência, o livro escolar não foi distribuído, o Governo promete que para o próximo lectivo poderá ser produzido em Moçambique. A informação foi avançada pelo primeiro-ministro e cumulativamente ministro da Economia e Finanças, Adriano Maleiane, que falava à margem das celebrações do dia do professor, que se assinalou no dia 12 do mês em curso, e explicou que esta poderá ser uma forma de evitar os constrangimentos vividos este ano e melhorar a qualidade na produção.
Duarte Sitoe e Elísio Nuvunga
Pela primeira vez na história, desde a independência nacional, milhares de crianças terminaram o ano lectivo sem livros, algo que nunca havia acontecido, mesmo no tempo da guerra civil. Segundo alguns professores, que semana finda celebraram o seu dia, este facto condicionou sobremaneira o processo de ensino e aprendizagem.
Falando à margem do dia dos professores, o primeiro-ministro e, ao mesmo tempo, ministro da Economia e Finanças, Adriano Maleiane, cujas palavras costumam não levar nenhum tom de seriedade, referiu que o país está, neste momento, num processo de transição, ou seja, “a produção do livro vai deixar de ser feita no exterior e passará a ser feita aqui, e porque o processo não é linear, foi registrado o atraso”.
Maleiane, conhecido por muitas vezes mentir sem remorsos apenas para fintar a imprensa e a sociedade, prometendo coisas que muitas vezes o governo tem dificuldades de comprir, garantiu, igualmente, que tudo está a ser feito para melhorar a produção do livro escolar, e a solução passa por produzir o livro internamente, o que pode acontecer a partir do próximo ano.
“Já temos capacidade para produção, já temos as impressoras com capacidade para produzir, porque é muito livro, a gente não foi sempre para fora por questões de gosto, é que realmente com a capacidade instalada ainda não tínhamos como produzir tanto livro”, explicou.
Se por um lado, o primeiro-ministro levantou o facto de o livro ter sido, por muito tempo, produzido com apoio externo, por isso, falou da necessidade de ser o país a produzir com seus fundos, sem depender de parceiros. Por outro, referiu que a ideia não é recusar o apoio que possa vir, mas é preciso garantir que 100 por cento do orçamento para a produção do livro escolar seja do Estado. Isso, no entender do Governante, vai garantir qualidade dos próprios manuais.
Tratava-se do dia do professor, mas a classe docente aproveitou a oportunidade para manifestar o seu desagrado perante o actual estágio do Sistema Nacional de Ensino. O secretário-geral da Organização Nacional dos Professores (ONP) referiu que os professores sonham com melhores condições de trabalho e melhores salários.
“Esta profissionalização que a política do professor apregoa deve ser implementada, mas também já estão a passar cinco anos desde que a ONP se transformou de Organização para Sindicato, mas o governo ainda não reconheceu esse sindicalização, embora exista a lei, e ainda não temos nenhuma explicação, mesmo com o diálogo permanente que temos tido”, lamentou.
Professores expõem lamentações e frustrações na celebração do seu dia
O dia era para ser de celebração, mas acabou sendo marcado por um mar de lamentações e frustrações. Muitos profissionais da educação expressaram seu descontentamento devido à falta de pagamento de horas extras, o que, no seu entender, reflecte uma desvalorização do seu esforço e comprometimento. Além disso, as condições inadequadas das salas de aula, que muitas vezes não oferecem um ambiente propício ao aprendizado, bem como a falta de livro escolar e material didático, foram outros pontos levantados.
“Nós não somos valorizados. Temos falta de tudo. Não temos livros, as salas estão superlotadas e nada mudou faz tempo”, lamentou José Micas, professor há sensivelmente 10 anos.
Para a professora Nazira, da Escola Primária Completa 03 de Fevereiro, a situação da educação tende cada vez mais a se agudizar.
“O nosso sistema parece um bicho de sete cabeças, porque não é possível reclamarmos sempre dos mesmos problemas. Ora é problema de pagamentos de horas extras que não querem nos pagar, a educação em si já não é de qualidade e isso prejudica as crianças”, disse indignada.
Apesar das lamentações e das dificuldades enfrentadas, os professores garantiram que continuarão com suas actividades e mesmo diante da falta de reconhecimento vão continuar a se adaptar (como sempre) para não prejudicar os alunos.
Vale lembrar que inúmeras vezes a classe interrompeu suas actividades na tentativa de negociar com o governo tendo em vista a resolução de problemas que assolam os professores, que, dentre vários, se destaca o não pagamento de horas extraordinárias.
MINEDH reconhece os problemas
Relativamente às reclamações levantadas pelos professores, o Executivo, através do vice-ministro da Educação e Desenvolvimento Humano, Manuel Bazo, reconheceu que parte dos problemas, como as horas extras, só pode ser resolvido com a redução do rácio aluno-professor, que, neste momento, a média é de 65 alunos por professor.
“Esta situação resolve-se gradual e progressivamente, isto implica a construção de mais salas de aulas, formação e admissão de mais professores, e o incremento da quantidade de material escolar”, destacou.
Prosseguindo, Manuel Bazo garantiu que o pagamento das horas extras em dívida ainda está em curso e garante que todas as dívidas serão pagas, mas não avançou prazos, o que faz depreender que muito provavelmente esta batata-quente poderá ser herdada pelo novo governo.

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