- Epicentro da violência militante islamista deslocou-se do Médio Oriente para África
No seu mais recente relatório intitulado “Perseguidos e Esquecidos?”, a Fundação Pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre (AIS) coloca Moçambique entre os 18 países onde a perseguição aos cristãos ganhou contornos alarmantes desde Junho de 2022. A agremiação sediada em Lisboa, Portugal, refere que a pobreza e, sobretudo, a exclusão social estão por detrás do terrorismo e extremismo violento na província de Cabo Delgado, o que de certa forma contribuiu para o agravamento da perseguição contra cristãos. Relativamente a outros países, a Fundação AIS observa que “o epicentro da violência militante islamista deslocou-se do Médio Oriente para África”, culminando com a “intensificação da perseguição dos cristãos como inimigos do Estado e/ou da comunidade local”.
Duarte Sitoe
A Fundação Pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre aponta que a Constituição reconhece a igualdade de todos os cidadãos perante a lei e a sua igualdade de direitos, sem discriminação por motivos religiosos (artigo 35.º), e proíbe qualquer discriminação, perseguição, preconceito ou privação de direitos, benefícios ou isenções de deveres “com base na sua fé ou convicção ou prática religiosa” (artigo 54.º, n.º 2), contudo, anota com preocupação o surgimento de movimentos suprematistas religiosos que põem em causa os direitos de crentes cristãos.
A AIS diz que a descoberta dos enormes jazigos de gás natural contribui para este cenário, pois, empurrou a população para a pobreza enquanto as multinacionais acumulam milhões de dólares, o que de certa forma aumentou a frustração dos jovens acabando por se filiar ao Estado Islâmico.
“Foi este contexto social, económico e político de extrema pobreza, corrupção e frustração entre os jovens que permitiu que os pregadores islâmicos radicalizados, muitas vezes treinados no estrangeiro, expandissem as suas mensagens de ódio e recrutassem jovens em Moçambique. Jihadistas estrangeiros e gangues locais cometeram o seu primeiro ataque em Cabo Delgado em Outubro de 2017, quando 30 terroristas do ‘Ahl Al Sunna Wa-Al Jamâa’ (ASWJ), também conhecido como ‘Ansar al-Sunna’ ou ‘al-Shabaab’ (não relacionado com o grupo terrorista somali com o mesmo nome), invadiram uma esquadra da polícia na cidade estratégica de Mocímboa da Praia, matando dois agentes. O ASWJ terá jurado fidelidade ao autoproclamado Estado Islâmico já em Abril de 2018 e foi reconhecido por este como filiado em Agosto de 2019 sob o nome de ‘Província Centro-Africana do Estado Islâmico’ (ISCAP) – um grupo combinado da ASWJ em Moçambique e da ADF na República Democrática do Congo (RDC). O autoproclamado Estado Islâmico começou a referir-se ao IS-Moçambique (IS-Moz ou ISM) separadamente da ISCAP-DRC em Maio de 2022”, defende aquela organização não governamental.
A Fundação Pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre entende que diante deste quadro, a liberdade religiosa em Moçambique está ameaçada pela insegurança permanente.
“Apesar da reduzida capacidade do IS-Moçambique para efectuar grandes ataques, continua operacional e prossegue os seus ataques mortais, proclamando o seu objectivo de estabelecer um califado. A liberdade religiosa está gravemente ameaçada devido à insegurança permanente, sendo os Cristãos e os Muçulmanos visados. O Governo, apoiado pela assistência militar de 24 países e com o apoio de tropas mercenárias estrangeiras, tem enormes dificuldades em eliminar os grupos terroristas jihadistas e garantir a segurança dos seus residentes, em particular na província de Cabo Delgado. O risco de extensão do IS-Moçambique aos países vizinhos, nomeadamente à Tanzânia, é também motivo de preocupação”, refere a AIS para depois colocar Moçambique na lista dos 18 países onde a perseguição aos cristãos ganhou contornos alarmantes desde Junho de 2022.
Para além de Moçambique constam do rol dos países onde se intensificou a perseguição religiosa a Nicarágua, Burkina Faso, Nigéria, Iraque, Irão, Paquistão, Índia, China, Sudão, Eritreia, Mianmar, Síria, Egito, Turquia, Arábia Saudita e Coreia do Norte.
O relatório da Fundação AIS refere ainda que em Moçambique os ataques terroristas na província de Cabo Delgado estão detrás do aumento da violência contra os cristãos e muçulmanos.
“Os incidentes violentos registados em 2022 – assassinatos, raptos, pilhagens e destruição de propriedade – aumentaram 29%. Estes ataques foram significativos, uma vez que a violência foi principalmente dirigida contra civis (cristãos e muçulmanos), representando 66% de todos os eventos violentos, mais do que em qualquer outra região do continente. 54 Até à data, mais de um milhão de pessoas estão deslocadas internamente”.
A Fundação Pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre (AIS) observa que “o epicentro da violência militante islamista deslocou-se do Médio Oriente para África”, o que de certa forma culminou na “intensificação da perseguição dos cristãos como inimigos do Estado e/ou da comunidade local”.
Aliás, a Fundação AIS aponta que nestas regiões “os intervenientes estatais e não estatais utilizaram cada vez mais como arma a legislação existente e nova legislação que criminaliza atos considerados desrespeitosos para com a religião do Estado como forma de oprimir os cristãos e outros grupos religiosos minoritário.

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