Edmilson Mate
As eleições gerais de 9 de Outubro de 2024 foram, para mim e para muitos moçambicanos, uma oportunidade de exercer um direito cívico em um país que se autoproclama democrático. Alguns de nós tiveram esta oportunidade pela primeira vez. No entanto, a realidade a que assistimos hoje nos remete a um país autocrático. Moçambique está cada vez mais à beira do abismo social, económico e político. A vida perdeu o seu valor perante o governo e a UIR, e já morreram milhares de moçambicanos devido ao conflito eleitoral. A pergunta que fica é: Até quando o sangue terá que “jorrar” para a paz social?
Recentemente, no dia 15 de Março, o corpo de Leão de Deus Nhachengo foi encontrado sem vida em Ravene, no distrito de Jangamo, província de Inhambane. O jovem havia sido raptado no dia anterior em Chissibuca, no distrito de Zavala, também em Inhambane. O seu corpo apresentava marcas de balas disparadas por uma arma de fogo. Este é o terceiro assassinato em apenas uma semana, todos os assassinatos apresentavam características similares.
Há algo em comum entre as vítimas: todas são apoiantes de Venâncio Mondlane, ex-candidato presidencial e principal opositor do regime do partido Frelimo, que governa o país desde a independência. De acordo com informações disponíveis; desde Outubro de 2024 mais de 100 pessoas ligadas a VM7 foram assassinadas em todo o país. Isso levanta sérias suspeitas de que estes crimes estão a ser cometidos por esquadrões da morte, numa clara manifestação de perseguição política e intolerância por parte do governo.
Será que continuaremos a ver sangue a ser derramado, em vez de nos sentarmos à mesa como moçambicanos, com o mesmo cordão umbilical, para dialogar e encontrar soluções pacíficas? Se uma pessoa não concorda com o regime, é isso motivo para ser morta? Devemos ser capazes de discutir as nossas divergências como adultos, sem recorrer à violência. O país precisa de um ambiente onde o diálogo e a paz prevaleçam, em vez de utilizar as instituições de justiça como ferramenta para esmagar a oposição. O governo corre o risco de tentar resolver a situação por meio de coacção, usando a força ou decisões judiciais arbitrárias. Pode até conseguir que os cidadãos fiquem em silêncio, mas esse silêncio será momentâneo.
A solução forçada é sempre de curto ou médio prazo. Nos corações dos oprimidos, sentimentos de revolta se acumulam, até que, eventualmente, esses sentimentos se transformam em um turbilhão de descontentamento, com consequências ainda mais graves do que as que já estamos a viver.
Não sou “Venancista” nem “Frelimista”. Sou apenas um jovem com um sentido patriótico profundo, que deseja ver o seu país e o seu povo viverem de forma segura, digna e próspera. Moçambique merece mais do que este ciclo de violência e desespero. Merece paz, diálogo e uma verdadeira democracia, onde a vida e os direitos de todos os cidadãos sejam respeitados, independentemente da sua cor partidária ou ideologia política.
O que mais precisa de acontecer para que, finalmente, entendamos que a paz social não se constrói com sangue, mas, sim, com a construção de pontes de diálogo e não de muros entre nós?

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