Por fim caiu o ego e o orgulho e abrem-se caminhos para a paz

DESTAQUE POLÍTICA
  • Chapo e VM apertam a mão depois de cerca de 400 mortos e milhares de feridos
  • Chapo e Venâncio fintaram sectores radicais. Alguns venancistas sentem-se traídos
  • “O Governo deve mostrar honestidade no diálogo com uma intervenção policial mais humana” -TVM

O que parecia uma miragem e um ponto inalcançável tornou-se uma realidade. Depois de muito tempo desavindos em meio a um turbilhão de acontecimentos causados por manifestações que se saldaram em perto de 400 mortes, desaparecidos e milhares de feridos, o Presidente da República, Daniel Chapo, e o ex-candidato presidencial, Venâncio Mondlane, líder dos protestos que paralisaram o País, desmancharam o seu ego e o orgulho e acederam a um convite formulado por algumas personalidades da praça para um encontro em que mais do que darem a mão, estabeleceram os termos para uma linha de diálogo político rumo à pacificação de Moçambique

Evidências

Perto de 400 pessoas, pelo menos segundo registos que a Plataforma DECIDE diz ter conseguido captar e verificar é o número de almas de pessoas cujas almas foram arrancada de forma violenta durante as manifestações que, grosso modo, resultaram em confrontações violentas entre as Forças de Defesa e Segurança e os protestantes.

Para além dos óbitos registados em confrontos em que a Polícia da República de Moçambique, grosso modo, usou meios desproporcionais na sua tentativa de controlar as manifestações inicialmente convocadas por Venâncio Mondlane e que depois entraram praticamente em piloto automático, houve registo de dezenas de casos de execuções sumárias à calada da noite, bem como desaparecidos que até hoje as famílias não encontraram os corpos para serem sepultados, havendo relatos de que possam ter sido sepultados em valas comuns clandestinas.

E porque a dado momento as populações enfurecidas decidiram fazer justiça com as próprias mãos emboscando e linchando agentes da Polícia, o saldo de mortos nas fileiras da PRM, em resultado das manifestações, é considerável. A estes também se juntam alguns líderes comunitários que foram perseguidos e linchados acusados de serem informantes dos denominados “esquadrões da morte”.

Para além daqueles cujas vidas foram arrancadas pela violência das manifestações, há centenas de casos de moçambicanos que ficaram feridos, alguns dos quais estão mutilados, com a cara desfigurada, a viverem com balas ou outro tipo de situações. Mas há também dezenas de desaparecidos que não se sabe se foram executados ou encontram-se encarcerados em algum sítio.

Desde o início, vozes da sociedade apelavam para um diálogo entre Daniel Chapo e Venâncio Mondlane, desde que ambos eram apenas candidatos à espera da validação dos resultados, antes mesmo do número de mortes atingir a fasquia de uma centena.

Entretanto, tanto Daniel Chapo, assim como Venâncio Mondlane não se mostraram flexíveis a ponto de conseguirem salvar centenas de vidas que acabaram sendo perdidas, numa situação em que um simples aperto de mão e uma curta sentada podiam ter evitado mais derramamento de sangue, até de crianças inocentes.

Um encontro feito às escondidas dos sectores radicais

Este Domingo, por volta das 21 horas, depois de uma maratona de intentonas para conseguir juntar Daniel Chapo e Venâncio Mondlane à mesma mesa, os dois reuniram-se numa das salas do Centro de Conferências Joaquim Chissano.

A iniciativa foi liderada por algumas personalidades de reconhecido mérito no País, como são os casos do Bastonário da Ordem dos Advogados de Moçambique, Carlos Martins, e o académico Severino Ngoenha, que fizeram os corredores para que finalmente as partes se sentassem à mesma mesa.

Evidências sabe que o encontro vinha sendo preparado há muito tempo, mas havia resistência da parte de alguns sectores radicais da Frelimo e nalgum momento Venâncio Mondlane era visto como sendo instável, o que acabou demandando mais tempo.

Alguns sectores dizem que o encontro só saiu depois da mudança de postura de Venâncio Mondlane, que passou a ser mais receptivo, sobretudo depois da pressão do judiciário sobre si e seus próximos, uma cartada supostamente do partido Frelimo, que não engoliu a seco a sua qualquerização dentro e fora do País, bem como a destruição de suas sedes.

Depois de sua audiência de mais de nove horas e notificação do seu mandatário no mesmo dia, seguida da detenção da sua mandatária financeira, dias depois, Venâncio Mondlane espreitou a profundidade do poço que estava a ser preparado pelos sectores radicais da Frelimo, através de um expediente jurídico, para enterrar a si e ao seu grupo, incluindo a possibilidade de aniquilação das suas chances de concorrer em 2029.

Alguns observadores em Maputo dizem que Venâncio Mondlane é, por isso, o maior beneficiário desta “sentada” e associam o sorriso rasgado de Venâncio Mondlane, de orelha a orelha, como sendo uma sensação de alívio, depois de duas semanas intensas em que viu a justiça cercar-lhe de todos os lados. Igualmente, associa-se ao facto de finalmente deixar de se sentir marginalizado, depois de meses em que Daniel Chapo insistiu num modelo de diálogo que não o tinha em pauta como actor principal e/ou determinante.

Ciente de todo tipo de risco, incluindo de sabotagem, o encontro entre Daniel Chapo e Venâncio Mondlane foi rodeado de algum secretismo e feito sem o conhecimento dos radicais dos dois lados, que foram encontrados de surpresa.

Daniel Chapo, com mais autonomia e legitimidade depois de ter sido eleito presidente da Frelimo, terá escondido o facto até da Comissão Política, enquanto Venâncio Mondlane somente havia partilhado informação com um grupo restrito. Ambos fintaram os sectores radicais que podiam minar a boa fé do encontro.

Apoiantes de VM cobram satisfações sobre secretismo do encontro

Enquanto Daniel Chapo gere a zanga e múrmuros nos corredores do seu partido, Venâncio Mondlane teve uma tarefa mais árdua esta segunda-feira, ou seja, gerir a frustração de seus apoiantes que se sentiram traídos por este não os ter informado que se iria reunir com Daniel Chapo.

A “birra”, começou como de costume, pelas redes sociais, com vários dos seus apoiantes o interpelando em comentários e posts com questionamento sobre a razão de não ter sequer “despedido” antes do encontro. Os mais ousados chegaram a dizer abertamente que se sentiam traídos, enquanto alguns preferiram enveredar pelo alerta dos perigos de dialogar com Frelimo.

Aqui até Dhlakama foi trazido à colação para alertar sobre os inúmeros acordos que assinou com o Governo da Frelimo e, em jeito de conspiração, alguns alertaram para o risco de ter o mesmo fim que o líder da Renamo, que segundo essa corrente de opinião morreu depois de apertos de mão com Filipe Nyusi, em encontros similares na serra da Gorongosa.

Depois de passar quase todo dia a partilhar na sua conta do Facebook, reportagens e opiniões com que captavam uma apreciação positiva sobre o encontro, Venâncio Mondlane sentiu-se na necessidade de vir a terreiro, já no fim do dia, à hora do telejornal, colocar os pontos nos ís.

Com um tom alterado e sem recorrer a epítetos depreciativos como “Mata-Reza, Girafa ou Andaime” para se referir a Daniel Chapo, Mondlane descreveu o encontro como tendo decorrido num ambiente de serenidade e respeito mútuo e defendeu o diálogo como a única via para a resolução dos conflitos. Segundo ele, a violência apenas aprofundou as divisões no país e trouxe sofrimento para a população, sendo necessário um novo caminho baseado na reconciliação.

“Sou a favor do diálogo. Vou participar de outros encontros, se os termos de referência que sempre defendi forem respeitados. Sempre quis o diálogo, e isso não significa abandonar a causa”, afirmou Mondlane, enfatizando que sua luta por justiça continua, mas agora por meios pacíficos.

Durante a reunião, de acordo  com o que foi partilhado pelo ex-candidato, os dois estabeleceram que a violência deve ser interrompida por ambas as partes, tanto pelos apoiadores de Mondlane quanto pelas forças governamentais. Também concordaram que as famílias que perderam entes queridos nos confrontos devem receber assistência social e psicológica, além de tratamento médico gratuito para os feridos, independentemente do seu envolvimento nos conflitos.

Além disso, os hospitais públicos e centros de saúde deverão garantir atendimento prioritário às vítimas dos confrontos, incluindo suporte psicológico para lidar com os traumas deixados pelo período de instabilidade.

Outro ponto acordado foi a libertação dos manifestantes presos, pois, segundo Chapo, mantê-los detidos poderia prejudicar a imagem do governo. A decisão levanta questões sobre a possibilidade de amnistia para crimes cometidos durante os protestos e sobre a criação de um comité para monitorar a aplicação dessa medida.

Além de reconhecer os danos causados pela repressão policial, Chapo comprometeu-se a garantir que forças de segurança como a Polícia da República de Moçambique (PRM), a Unidade de Intervenção Rápida (UIR), o Serviço Nacional de Investigação Criminal (SERNIC) e o Serviço de Informação e Segurança do Estado (SISE) reduzam as suas acções violentas contra os cidadãos. O presidente também garantiu que as forças de segurança passarão por um processo de reavaliação dos seus métodos operacionais, com o objectivo de evitar abusos e garantir que as respostas a protestos ocorram dentro dos limites da lei.

Mondlane, por sua vez, assumiu a responsabilidade de apelar aos seus seguidores para que também interrompam actos de violência contra membros da FRELIMO, agentes de segurança e qualquer outro grupo contrário às suas ideias. Ele reforçou que a oposição deve se organizar politicamente e actuar dentro dos marcos democráticos para promover mudanças estruturais no país.

O ex-candidato garantiu que este foi apenas o primeiro de muitos encontros e que o seu compromisso com a luta por justiça e democracia permanece inabalável.

“Hoje é o primeiro dia em que devemos nos controlar, pois há um compromisso mútuo para cessar o derramamento de sangue. Estou feliz com esse consenso”, declarou.

“Ter-se-iam evitado muitas mortes se (o encontro) tivesse ocorrido antes” – TVM

Para o conceituado jornalista e analista, Tomás Viera Mário, o encontro entre o Chefe de Estado e o ex-candidato presidencial peca por ser tardio, uma vez que se tivesse acontecido antes ter-se-ia evitado o derramamento de sangue.

“Todo diálogo é importante desde que seja genuíno, isto é, guiado por finalidades honestas. Se for genuíno  e honesto é bem-vindo, primeiro porque o Venâncio Mondlane é um actor político moçambicano  incontornável, independentemente dele liderar ou não um partido político, portanto vejo esse encontro político como natural e aliás,  muito tardio, porque, provavelmente, ter-se-iam evitado muitas mortes se tivesse ocorrido antes”, declarou.

Depois da primeira aproximação entre Chapo e Mondlane, Tomás Viera Mário espera que a Polícia da República de Moçambique (PRM) – muitas vezes criticada devido à sua postura violenta para conter as manifestações – seja mais humana e menos violenta contra os manifestantes.

“Espero que este encontro alargue o campo de diálogo iniciado no  dia 08,  entre o Governo e os partidos da oposição, mas que, sobretudo, devolva alguma normalidade ao País, de modo a voltar a ser governável. Neste momento não é governável e que o Governo mostre a sua honestidade no diálogo, através de uma intervenção policial mais humana e menos violenta contra os manifestantes. Um dos sinais que eu espero que mostre a utilidade desse diálogo é que o Governo nos  traga uma polícia mais humana”, sublinhou.

Relativamente aos próximos passos depois do pontapé de saída, Tomas Vieira Mário não se quis colocar na pele de futurologista, porém referiu: ”penso que este diálogo vai continuar, não importa  o formato, mas é muito  provável que possa ser integrado naqueles termos de referência já aprovados, mas obviamente com um espaço próprio para o Venâncio, já que ele não é líder de  nenhum partido político, que é o critério desse diálogo”.

Promo������o

Facebook Comments