Recordando Jacques Brel

OPINIÃO

Afonso Almeida Brandão

Haverá sempre um som de piano nos nossos ouvidos quando, claramente ou em surdina, pronunciarmos o nome de Jacques Brel, vitimado por um cancro no pulmão esquerdo. Quem não se recorda do seu perfil, um cigarro ao canto da boca, um olhar encantado-desencantado sobre o Mundo…? O som de piano acima referido prende-se, obviamente, com o poema-canção “No me quitte pás”, uma das mais belas composições contemporâneas sobre o Amor que flui, se vai e se perde no Tempo… Poema deslocado nos dias de hoje? Não: o Passado pode fazer parte do Presente. Só assim é que o Homem é total — e se projecta no Futuro acompanhado do sentimento que o diferencia dos outros seres (animais e coisas) da Realidade e Existência em que estamos inseridos.

Quando Jacques Brel morreu no dia 9 de Outubro de 1978, quase aos 50 anos de idade, deixava à sensibilidade humana um conselho sem preço. Qual? O de que, entre o dia e a noite, devemos sempre guardar dentro de nós o espaço de uma tarde. Termos uma tarde dentro de nós é termos a possibilidade de podermos contemplar tudo quanto fomos, tudo quanto passou por nós, tudo quanto nos exaltou e também quanto nos mergulhou na dor mais funda. Daí, pois, “Ne me quitte pás” — seja esse apelo dirigido a uma mulher, a uma pedra, a uma flor, a uma cadeira de baloiço diante de uma janela aberta sobre o Horizonte…

No espaço desse tempo em retorno, no salão grande que essa tarde é, desenrola toda uma “Valse à mille temps”, dança que ultrapassa o enlevo de dois amantes, e se consubstancia em mil e um pormenores, nos casos muitos da Vida: uma oferta (“Les Bombons”), um lamento (“Le Plât pays qui est le mien”), uma cidade contra o Céu (“Sur les toits de Paris”), um acto de camaradagem (“Jef”), uma crítica social (“Les Flammandes”), um nome de mulher (“Madeleine”), etc., etc…

Tendo em mente essa tarde, esse salão grande de tudo e de nada, somos induzidos a ver em Brel, não unicamente um compositor e cançonetista, mas um alto Poeta do quotidiano. Aliás, em edição francesa, todas as composições de Jaques se encontram reunidas num volume crítico, que não só o situa nas sociedades belga e francesa, como lhe acentua as particularidades e inovações da sua poética. Belga de nascimento, Paris foi, por assim dizer, a sua pátria de adopção — e quando a doença o atacou, retirou-se, sem deixar de compor, para as Ilhas Marquesas, onde se encontra sepultado. Aí sepultado…?

Digamos que se encontra sepultado dentro de todos nós, nessa tarde que ele nos ensinou a possuir no íntimo, e da qual, muitas vezes, se elevam as sílabas, tecla a tecla, de “Ne me quitte pás”. Verdade, verdade, nunca o deixaremos cair no olvido — e isso porque Brel cantou as coisas que são de todos nós, que são pontos de referência essenciais, o chão, enfim, pelo qual nos vamos. E «c´est tout» — como nos disse peremptório num dos seus poemas.

Jaques Brel morreu há 43 anos. Evocá-lo hoje, agora e aqui, foi recordar um pouco a sua pessoa, as suas canções, os espectáculos que deu, a saudade que nos deixou, um Artista Maior que marcou a minha Geração.

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