Ciência, política e media

OPINIÃO

Luca Bussotti

 

O fio que liga ciência, política e media é muito subtil, por vezes até invisível. Os cientistas, ainda mais os sociais, produzem trabalhos com a finalidade de contribuir para o progresso do conhecimento, com níveis de frustração média bastante elevados. Com efeito, seus trabalhos não merecem a atenção do grande público, limitando-se a circular entre os meios académicos restritos, elitistas, sem grande difusão junto àquela opinião pública que deveria ser a primeira beneficiária desta produção intelectual. Na antiguidade, pensadores como Aristóteles defendiam a necessidade de os cientistas desenharem as políticas que depois deveriam ser aplicadas na prática para resolver os problemas das pessoas. Seu mestre Platão tinha sido ainda mais explícito, imaginando a Cidade ideal como aquela governada directamente por reis-filósofos. Nenhum dos dois teve muita sorte… assim como não tiveram outros pensadores políticos que se seguiram aos dois clássicos gregos, tais como Dante e Maquiavel, ou outros derrotados da política activa, que se meteram a escrever textos de teoria política por frustração.

Foi esta rejeição histórica da política em relação à ciência que criou as condições para que se formasse um pensamento político sólido, até uma verdadeira ciência da política. Mas o relacionamento complicado entre estas duas dimensões continuou na modernidade, com momentos de colaboração muito estreita – por exemplo Keynes com Roosevelt, Sen com Tony Blair e outros prevalecentes de mútua ignorância –. Dificilmente os parlamentos dos vários países vêem uma presença significativa de académicos. No parlamento inglês, por exemplo, apenas 0,15% dos deputados tem um doutoramento completado, e em Moçambique – embora não tendo dados oficiais – a percentagem deve ser também muito baixa. A subdivisão entre quem observa (cientistas) e quem faz (políticos) é bastante nítida em todo o mundo.

Entretanto, existem momentos em que os cientistas entram no debate público, muitas vezes solicitados pela media, tradicional ou digital, inclusive redes sociais. E fazem isso de forma continuada – por exemplo, abrindo canais no Youtube ou no Facebook, de maneiras a ter um relacionamento directo com o próprio público – ou episódica, quando mesmo a grande imprensa se apercebe de que um certo facto ou fenómeno social merece destaque, mas a política não tem elementos de leitura suficientes, e então é preciso recorrer à ciência.

Esta última situação ocorreu em muitos países europeus aquando do início da guerra russo-ucraniana: foram descobertos cientistas da geopolítica – alguns muito experientes, outros completamente improvisados – que deviam iluminar uma opinião pública desnorteada, tomando o monopólio de talk-shows em programas televisivos transmitidos em horários nobres; e também em Moçambique, depois dos primeiros ataques terroristas em Cabo Delgado, e hoje em Nampula, começou a se procurar expertos da matéria.

Estes dois grandes eventos tornaram claro que sem um conhecimento profundo dos processos históricos e sociais que levaram a certas inesperadas consequências, a solução daqueles problemas resulta também dificílima. Quando o ministro da Defesa de Moçambique notou, já faz duas semanas a propósito do terrorismo, o que se vive no Norte de Moçambique; quando a comunicação social moçambicana também costuma fazer ao chamar os cientistas sociais para melhor entender fenómenos complexos e que precisam de estudo e de pesquisa. E quando, ainda, foi feito com um texto, por sinal da minha autoria e da autoria da Professora Laura Nhaueleque, sobre os processos de marginalização do povo Makhuwa na construção da identidade nacional moçambicana. Um texto que tinha saído em Janeiro deste ano, na revista “Comunicação e Sociedade” da Universidade de Minho, e que passou despercebido fora dos meios académicos, mas que foi retomado – e que virou popular nas redes sociais – depois das infelizes palavras do General Nihia a propósito da “falsidade” do povo Makhuwa. Na verdade, o General Nihia, assim como o General Chipande um tempo atrás, abriu o vaso de Pandora da questão étnica em Moçambique, de que a academia nacional sempre teve receio em falar, a partir da linha política da primeira Frelimo, que baniu a reflexão em volta deste assunto considerado como um verdadeiro tabu. A ciência política ocidental aderiu, em larga medida, a este modelo interpretativo (salvo investigadores como Michel Cahen e, em parte, Carlos Serra), estranho à tradição de categorias políticas baseadas na dicotomia direita/esquerda, inaplicáveis à política africana. Foi assim que o tema ficou negligenciado e escondido, até o seu parcial descobrimento pelos factos representados pelo terrorismo de tipo étnico e religioso no Norte do país, e pelas palavras do General Nihia que, malgré lui, provavelmente despoletou uma das questões centrais das relações sociais e históricas de Moçambique

O texto acima mencionado em volta da marginalização histórica do povo Makhuwa representa apenas um pequeno ensaio de uma história dos povos moçambicanos (não só dos Emakhuwa) e das suas complexas relações com o processo de unidade nacional na época pós-colonial. Um processo que foi classificado de forma demasiado rápida como unitário e nacionalista, mas que não cancelou as identidades de povos que convivem, usando as palavras do autor moçambicano Afonso Dambile, num espaço geográfico comum, sem, entretanto, partilhar valores, hábitos, tradições, além de línguas e culturas. A expectativa, agora, é que, por um lado, a política abra mais espaço para reflexões sobre este e outros aspectos sensíveis da história e da sociedade moçambicanas, favoreça a sua produção e difusão, evitando censuras; e que, por outro lado, a comunicação social esteja mais atenta a quanto os cientistas sociais vêm produzindo sobre Moçambique nos vários cantos do mundo, de forma a conseguirem uma informação mais abalizada e sólida, e menos episódica, principalmente com relação a fenómenos complexos e ainda não perfeitamente compreendidos, como os que estamos a viver neste difícil momento histórico.

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