- Eleições agitam igreja anglicana
- Dom C. Matsinhe quer o cargo de Arcebispo duma recém-criada província eclesiástica
- Mas tem 68 anos e leis da igreja só permitem concorrer quem tenha menos de 64 anos
Está instalado um clima de crispação no seio da Igreja Anglicana em Moçambique, devido a uma suposta guerra pelo poder. O actual Bispo da Diocese dos Libombos, Carlos Matsinhe, é acusado, por membros da congregação, de estar disposto a violar a constituição da igreja e leis eclesiásticas (cânones) para concorrer ao cargo de Arcebispo da Província Anglicana de Moçambique e Angola, recentemente criada e que dirige de forma interina. Caso se confirme esta pretensão, Dom Carlos Matsinhe, 68 anos de idade, poderá estar em clara violação do cânone 18 da Constituição da Igreja, que estabelece um limite de 64 anos para concorrer à liderança de uma província eclesiástica.
Evidências
Até 2021, a Igreja Anglicana em Moçambique pertencia a Província da África do Sul (ACSA) enquanto eclesiástica, no entanto, em Setembro de 2021, com o aval da liderança máxima da igreja, Moçambique e Angola, sendo países da lusofonia, constituíram uma nova Província chamada Igreja Anglicana de Moçambique e Angola (IAMA).
A Igreja Anglicana de Moçambique e Angola (IAMA) tornou-se assim a 42ª província eclesiástica da Comunhão Anglicana mundial, tendo adoptado sua constituição e cânones. Formalmente, foi inaugurada em 24 de Setembro de 2021, numa teleconferência que contou com a participação do arcebispo de Canterbury, Justin Welby, e o secretário-geral do Conselho Consultivo Anglicano, Josiah Idowu-Fearon.
Sucede, porém, que de forma interina decidiu-se nomear, na altura, Dom Carlos Matsinhe, como bispo presidente interino, e André Soares, como decano interino da província, enquanto se estabeleciam as bases para o funcionamento efectivo da nova divisão administrativa da igreja.
O tempo foi passando, e volvido um ano, a igreja decidiu organizar eleições para sufragar o primeiro arcebispo efectivo da nova Província, dado que o Dom Carlos Matsinhe, o bispo dos Libombos e simultaneamente presidente da CNE, ocupa actualmente o cargo de forma interina.
Para o espanto de todos, Dom Carlos Matsinhe pretende concorrer para o cargo de arcebispo da província eclesiástica da Igreja Anglicana de Moçambique e Angola, tendo já submetido candidatura para as eleições marcadas para o dia 18 de Novembro em curso.
Contudo, segundo alguns crentes ouvidos pelo Evidências, esta pretensão pode estar inquinada de vícios, pois a igreja tem sua constituição e cânones, que estabelecem no número 18 requisitos dum candidato ao cargo de arcebispo de uma província eclesiástica, dentre os quais ter idade não superior a 64 anos; ter licenciatura, no mínimo; não ter outro emprego ou, em casos de, apresentar carta de renuncia do outro emprego.
No entanto, acontece que chegados a esta fase de entrega de candidaturas para as eleições programadas para o dia 18 de Novembro do ano em curso, o bispo dos Libombos, que tem actualmente 68 anos, não mostra vontade de deixar o cargo à disposição dos mais novos, como consta dos cânones da igreja.
“Ele atingiu uma idade que não lhe permite concorrer, mas ainda concorre, desobedecendo a constituição que lhe colocou como bispo e como arcebispo interino, provocando assim murmúrios e polémicas no seio da igreja”, disse um dos denunciantes.
Para os crentes, não é só a idade que constitui impedimento para Dom Carlos Matsinhe, mas também o facto de ter assumido um cargo público no país, no caso o de presidente da Comissão Nacional de Eleições (CNE).
“A questão crítica que os crentes anglicanos fazem é: será que o tal bispo, que é presidente da CNE, que mesmo conhecendo a constituição da igreja prefere desobedecer, irá gerir as próximas eleições em conformidade com a constituição?”, denunciam.
Refira-se que o líder máximo da Igreja Anglicana, Justin Welby,, encontra-se no país e, dentre várias actividades, participará nas eleições da província eclesiástica IAMA no dia 18, e no dia 20 irá consagrar o primeiro arcebispo efectivo da IAMA, numa cerimónia que contará com a participação das oito dioceses de Moçambique, crentes de Inglaterra, Suécia, Angola, Estados Unidos da América e de países vizinhos.
Para além do trabalho pastoral em Maputo, onde está prevista a inauguração de uma igreja e uma missa para mais de três mil crentes no Pavilhão de Maxaquene, Justin Welby irá escalar a província de Cabo Delgado, onde terá um encontro com a plataforma inter-religiosa, que faz assistência social face à crise humanitária que se regista naquela região. Além disso, irá visitar um centro de acolhimento de deslocados.

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