- Comissão Episcopal diz que,’ sem inclusão social, a paz e coesão serão sempre ameaçadas
- “É fácil aliciar pessoas (jovens) cheias de vida e de sonhos, mas sem perspectivas”
- “… uma minoria endinheirada que se pode permitir todo o tipo de luxo e uma maioria empobrecida…”
- “Se não for bem gerida, a TSU pode levar a convulsões”
Mais uma vez confirmando a sua relevância no panorama político, social e económico nacional, a Conferência Episcopal de Moçambique, a mais alta assembleia dos bispos católicos no país, denuncia que a corrupção, a exclusão social, as injustiças e desigualdades sociais, entre outros males, representam uma ameaça constante à paz e coesão social em Moçambique. Para ilustrar a sua preocupação, os bispos católicos dão como exemplo os jovens que são facilmente aliciados a juntarem-se a grupos terroristas que semeiam dor e luto na nortenha província de Cabo Delgado devido a exclusão que lhes retira a esperança num futuro favorável. Outrossim, alertam que se a questão da Tabela Salarial Única não for gerida de forma justa pode levar a convulsões sociais.
Reginaldo Tchambule
Nos últimos anos, a Conferência Episcopal de Moçambique vem se assumindo como um actor relevante na construção do país, dando contribuições sobre vários aspectos da vida do país.
Na sua última posição, emanada da II Sessão Ordinária da Assembleia Plenária dos Bispos Católicos, a Conferência Episcopal de Moçambique (CEM) analisa o país sem filtros e destaca o estado de penúria em que vive maior parte dos moçambicanos, enquanto um grupo minoritário suga das melhores oportunidades, o que, no seu entender, representa uma ameaça à paz.
“No nosso País, apesar de sermos uma única família, as desigualdades sociais e económicas estão a criar uma brecha profunda. Por um lado, uma minoria endinheirada que se pode permitir todo o tipo de luxo e, por outro, uma maioria empobrecida que nem o básico tem para sobreviver”, anotam os bispos católicos.
No seu entender, sem uma distribuição equitativa e justa de recursos e oportunidades, sem uma real inclusão social, a paz e coesão social serão sempre ameaçadas.
“Nenhuma paz sobrevive a exclusões e a injustiças sociais”, anotam, para depois ajuntar que “ao longo deste ano assistimos com muita preocupação à subida insustentável do custo de vida no Pais, que continua arrastando para a pobreza extrema homens e mulheres já sofridos, que vêm enfrentando um verdadeiro martírio para colocar o pão à mesa”.
Desespero devido a exclusão empurra jovens à criminalidade, incluindo terrorismo
Mostrando particular preocupação com o alastramento do terrorismo, a Conferência Episcopal de Moçambique considera que os jovens se deixam aliciar e juntam-se às várias formas de desvios, incluindo o terrorismo, devido a exclusão social e obstáculos que põem à prova a esperança de um futuro favorável.
“Jovens moçambicanos continuam a engrossar as fileiras dos que semeiam terror. É a juventude moçambicana, o presente e o futuro da nação, que sucumbe nestas incessantes ondas de violência. Como já tivemos ocasião de afirmar, reconhecemos que um dos motivos fortes que movem os nossos jovens a se deixarem aliciar e a juntarem-se às várias formas de desvios assenta na experiência de ausência de esperança num futuro favorável. Para a maioria deles não há oportunidades de se construir uma vida digna”, sublinha.
Este cenário, aponta a CEM, empurra os jovens para o terrorismo e outros desvios, pois “é fácil aliciar pessoas cheias de vida e de sonhos, mas sem perspectivas”.
Por essa razão, a assembleia mais importante da igreja católica entende que sem garantir aos jovens a realização dos seus sonhos, a própria nação verá comprometido o seu sonho de ser protagonista do seu futuro.
Na ocasião, os bispos voltaram a denunciar que a falta de atenção aos numerosos alertas não permitiram um imediato e eficaz combate contra o terrorismo que já dura há mais de cinco anos e continua a alastrar-se em zonas mais alargadas, incluindo já as províncias do Niassa e de Nampula.
“São semeadas destruições e mortes violentas de crianças, mulheres e homens inocentes e pessoas de boa vontade como foi a Irmã Maria de Coppi, assassinada a 6 de Setembro último, no ataque à Missão Católica de Chipene, Diocese de Nacala. A continuação deste desumano sofrimento é inaceitável e frustra o sonho de sermos uma nação de paz, concórdia e independente, justa e solidária. Por isso, devemos juntar todos os esforços para encontrar os caminhos de solução a esta desgraça, não confiando unicamente no uso da força militar”, anota.
A CEM diz serem necessárias políticas corajosas que eliminem o crescente abismo existente entre irmãos, mas critica a aparente falta de justiça e equidade na Tabela Salarial Única.
“A mesma Tabela Salarial Única (TSU), que expressa o desejo de uma maior equidade, se não for bem gerida, pode levar a convulsões sociais e exasperar o sentimento de desigualdade e injustiça”, denuncia.
Numa altura em que o Governo de Filipe Nyusi se auto-proclama campeão do combate à corrupção, os bispos católicos não vêem abrandamento do mal. Antes pelo contrário, entendem que no país instaurou-se uma cultura de corrupção.
“Faz-se descaradamente um uso privado dos recursos do país e do património público, pondo os interesses pessoais ou de grupo acima do bem comum. A corrupção manifesta-se nas constantes propinas (“refrescos”) que se devem pagar aos servidores públicos para receber um serviço que é seu dever oferecer, no desvio de fundos públicos para fins e interesses privados, no nepotismo e clientelismo”, destacam.

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