- Reconstrução de Cabo Delgado continua uma incógnita
- Travessia em coluna escoltada (antes Macomia-Awasse) foi estendida para 150 Km depois de novos ataques
- Chai, o berço do primeiro tiro, mais para um quartel do que uma aldeia
- Administrador de Quissanga continua refugiado em Macomia, mas deslocados arriscam o retorno
A reconstrução de Cabo Delgado continua uma incógnita. Fora aos discursos oficiais, no terreno, a movimentação de reconstrução está mais voltada para Palma. Aldeias outrora povoadas permanecem completamente vazias sem sinais de vida civil, acolhendo apenas posições militares das Forças de Defesa e Segurança (FDS). O retrato de horror é palpável de Macomia a Awasse, onde a travessia ao longo da estrada N380 é condicionada a escolta de coluna militar, num troço de perto de 100 km. Os ataques de Meluco, semana passada, obrigaram a extensão da cobertura da escolta, neste troço em mais de 50 km, até Quissanga. Nos distritos de Macomia e Mocímboa da Praia, há uma tendência de retoma que iniciou em finais do ano passado, mas a incerteza é visível, com as tropas nacionais e estrangeiras completamente em alerta, nas sedes dos distritos flagelados pelo terrorismo. Longe das vilas onde as comunidades convivem com os militares, relatos de focos de ataques são contínuos e criam novas ameaças.
Nelson Mucandze, em Cabo Delgado
Numa aventura inédita, ou quase não reportada, pelo menos desde que a situação de insegurança se intensificou no Norte de Cabo Delgado, a nossa reportagem fez recentemente o troço Pemba – Mocímboa da Praia e vice-versa. Uma viagem descrita como segura até Macomia. São 400 km que precisaram de oito horas para serem percorridos. A viagem foi por meio de transporte público, pelo menos de Macomia até Mocímboa da Praia.
Dada a insegurança, para esse troço não há em Pemba agentes de rent a car (aluguer de viaturas) que aceitem disponibilizar suas viaturas. A equipa do Evidências decidiu a conta e risco próprio percorrer por terra e nas mesmas condições em que é transportado o povo, fazer um percurso sinuoso, cheio de paragens, revezamento de escoltas e com as matas ainda a cheirarem a pólvora.
A viagem de oito horas começa ainda cedo. A previsão de viagem é de oito horas – informamo-nos ainda na bilheteira do transporte que nos levaria a experimentar a incerteza e o extremo da fronteira entre o medo e a coragem. Pelo meio, tivemos longos 100 km percorridos numa média de 100 km por hora, numa escolta militar que minimiza o risco do infortúnio encontro com os terroristas a meio do percurso.
Há dois meses, apoiando-se no seu discurso triunfalista, o Governo teria suspendido escolta, mas não tardou para que os terroristas atacassem e queimassem viaturas, o que veio forçar a introdução da coluna, num único troço que garante a ligação dos distritos de Norte de Cabo Delgado com o resto do País. É uma coluna caracterizada por poucas viaturas particulares, destacando-se movimentação de camiões de grande porte, carregados de diversos materiais na sua maioria de construção, com destino a Palma.
Já a quantidade dos carros para transporte de passageiros não cobre os dedos de uma mão, destacando-se dois autocarros da Nagi, um vindo de Nampula com destino a Palma e outro de Pemba com destino a Mueda. O resto são dois e no máximo três transportadores semicolectivos que mesmo conscientes de riscos, prevalecem com vontade de garantir um dia de trabalho.
Geralmente os autocarros da Nagi trocam de passageiros quando chegam em Awasse, os que vão a Mueda entram num outro e os que vão a Mocímboa da Praia/Palma vice-versa e depois cada machimbombo segue a sua viagem. A enchente que mostra a procura de transporte para zonas de risco é de arrepiar, mas infelizmente a maioria dos transportadores de passageiros só aceitam seguir de Pemba até Macomia, onde está posicionada a tropa de Africa do Sul, com suas máquinas de guerra posicionadas no centro da vila.
Os 100 km de escolta por uma zona militarizada a cada metro
De Macomia até o cruzamento de Awasse, em Mocímboa da Praia, um troço de mais de 100 km, a travessia foi sempre feita em coluna, desde finais de Dezembro, sob escolta de um aparato policial e militar. Ao longo desse percurso da estrada nacional N380, são notórias barricadas improvisadas de postos de controlo, pneus, tambores e chapas de carros destruídos.
É logo na saída da vila sede de Macomia que funciona a primeira barricada improvisada pelas forças locais. O resto são posições das Forças de Defesa e Segurança, uns fixos e outros em constantes movimentações nos blindados bem equipados. Não é aconselhável a travessia sem escolta, por isso os que perdem a escolta pernoitam em Macomia e seguem no dia seguinte.
A coluna em escolta está limitada a uma viagem por dia em cada sentido, embora decorram os dois sentidos em simultâneo. Geralmente inicia as 9horas, em Awasse, no sentido Norte a Sul, e as 12 horas em Macomia, no sentido oposto. Do meio, foi possível visualizar umas vinte viaturas na frente.
A escola precisa garantir a segurança da Nagi, por isso que a coluna não avança antes que estes cheguem. “A ordem é seguir quando Nagi chegar, temos de proteger os autocarros”, comenta um dos polícias destacados na escolta ao ser abordado pelo jornalista. O mesmo agente deixa claro que não são permitidas fotografias, principalmente nas posições militares.
Explica que esta é uma ordem de cima, veio directamente do comando. Fica nítida a visão do Governo: ele cria meios para as vítimas de guerra (na sua maioria deslocados) que queiram voltar às suas zonas de origem. No caso de distrito de Palma, fala-se até de incentivos financeiros, numa estratégia que visa povoar Palma para ornar os apelos à TotalEnergies, com argumentos de que o distrito já está reconstruído.
Em Macomia e Mocímboa da Praia, não existem esses incentivos e em Quissanga o administrador nem sequer tem coragem de voltar. Vários relatos de ataques são ouvidos em Meluco, Muidumbe, Quissanga, como bem se documentou semana passada. Nem a fortalecida Mueda escapa desses focos de ataques, embora seja nas aldeias periféricas. No último sábado, ouviram-se relatos de raptos na aldeia de Chapa, cerca de 25 km da vila sede.
Chai, o berço da luta em escombros
Chai, um dos quatro postos administrativos de Macomia, é o berço da Luta de Libertação Nacional, o local do polémico primeiro tiro, um símbolo da nossa moçambicanidade que neste momento se encontra em escombros. Foi em Chai que se fez ouvir o fragor do primeiro tiro a 25 de Setembro de 1964, data que marca o início da guerra contra o colonialismo português, segundo a história oficial muitas vezes contestada.
Passados exactos 59 anos, hoje o posto administrativo está em escombros, abandonado, sem sinais da vida civil, servindo apenas de posição militar. É o rasto nítido da macabra força terrorista, um inimigo invisível, sem alma e sem rosto, e nem o patriotismo de respeitar a vida de inocentes e nem o berço da história.
De longe, ao longo da estrada N380 são visíveis as trincheiras protegidas por barreiras de sacos de areia, em pronto alerta contra os terroristas, enquanto segue a coluna escoltada por polícias e militares. Estes lugares sem sinais de vida, servindo de posições de resistência, não parecem interessar aos terroristas. Agora apostam em emboscadas esporádicas a viaturas civis como bem se viu na terça e quarta-feira no distrito de Meluco. Eles sempre fugiram do confronto, limitando-se em emboscadas, não só a civis, mas também as Forças de Defesa e Segurança.
O mesmo rasto de abandono e destruição está na aldeia V Congresso, nome que remota igualmente um momento histórico. Cenário que se repete em Litamanda, Miangalewa, Muala, Nantandola, Chitolo, entre outras cuja vida civil mostra-se cada vez mais distante, pois poucos se arriscam a voltar, apesar das péssimas condições nos Centros de Acolhimento, segundo viu a nossa reportagem em Metuge, o distrito que alberga duas dezenas de centros, que dependem de saco de arroz (50 kg), 10kg feijão, óleo 4L entregues pelo Programa Mundial de Alimentação (PMA) a cada dois meses. Até Junho de 2022, a mesma quantidade era entregue a cada 30 dias, mas por limitações de fundos, o PMA teve de esticar os meses sem mexer na quantidade.
A estrada N380 é a única que dá acesso aos distritos de Macomia, Nangade, Ancuabe, Meluco, Muindumbe, Mueda, Mocímboa da Praia e Palma. Ou seja, toda zona ao noroeste de Cabo Delgado.
É um retrato que ilustra instabilidade contínua e não existe qualquer ordem oficial para que as comunidades deslocadas retomem às suas zonas de origem. Quem o faz é por risco e conta própria. O que existe é imposição para que os funcionários de Estado voltem aos seus postos de trabalho, no caso de Mocímboa da Praia.
Quissanga, inteiramente controlado pelas FDS, é único distrito que até o governo distrital ainda não voltou. Mas mesmo assim, os deslocados arriscam as suas vidas para voltar por falta de melhores condições nos centros de acolhimento.
Já em Nangade, estão os militares de Tanzânia e Lesotho. As respeitadas forças militares de Botswana estão em Mueda e em Muidumbe. Mueda é um distrito estável, com um dos maiores quartéis do Norte de Moçambique, há quem diz que qualquer ameaça pode colocar Pemba em alerta vermelho. As tropas militares da África do Sul estão em Macomia, um distrito bem povoado na vila sede, mas em ruínas um pouco mais a norte, como pode se ver nos postos administrativos e aldeias aqui arrolados.
Ruandeses são as tropas mais privilegiadas, actuando em distritos chaves como Palma e Mocímboa da Praia. Em Mocímboa da Praia tem controlo exclusivo do porto e do aeródromo. Eles estão também em Ancuabe, uma posição que semana passada foi reforçada depois de ataques de Meluco, além de ter recebido a visita do Ministro de Defesa, Cristóvão Chume.

De longe, ao longo da estrada N380 são visíveis as trincheiras protegidas por barreiras de sacos de areia, em pronto alerta contra os terroristas, enquanto segue a coluna escoltada por polícias e militares. Estes lugares sem sinais de vida, servindo de posições de resistência, não parecem interessar aos terroristas. Agora apostam em emboscadas esporádicas a viaturas civis como bem se viu na terça e quarta-feira no distrito de Meluco. Eles sempre fugiram do confronto, limitando-se em emboscadas, não só a civis, mas também as Forças de Defesa e Segurança.
O mesmo rasto de abandono e destruição está na aldeia V Congresso, nome que remota igualmente um momento histórico. Cenário que se repete em Litamanda, Miangalewa, Muala, Nantandola, Chitolo, entre outras cuja vida civil mostra-se cada vez mais distante, pois poucos se arriscam a voltar, apesar das péssimas condições nos Centros de Acolhimento, segundo viu a nossa reportagem em Metuge, o distrito que alberga duas dezenas de centros, que dependem de saco de arroz (50 kg), 10kg feijão, óleo 4L entregues pelo Programa Mundial de Alimentação (PMA) a cada dois meses. Até Junho de 2022, a mesma quantidade era entregue a cada 30 dias, mas por limitações de fundos, o PMA teve de esticar os meses sem mexer na quantidade.

A estrada N380 é a única que dá acesso aos distritos de Macomia, Nangade, Ancuabe, Meluco, Muindumbe, Mueda, Mocímboa da Praia e Palma. Ou seja, toda zona ao noroeste de Cabo Delgado.
É um retrato que ilustra instabilidade contínua e não existe qualquer ordem oficial para que as comunidades deslocadas retomem às suas zonas de origem. Quem o faz é por risco e conta própria. O que existe é imposição para que os funcionários de Estado voltem aos seus postos de trabalho, no caso de Mocímboa da Praia.
Quissanga, inteiramente controlado pelas FDS, é único distrito que até o governo distrital ainda não voltou. Mas mesmo assim, os deslocados arriscam as suas vidas para voltar por falta de melhores condições nos centros de acolhimento.
Já em Nangade, estão os militares de Tanzânia e Lesotho. As respeitadas forças militares de Botswana estão em Mueda e em Muidumbe. Mueda é um distrito estável, com um dos maiores quartéis do Norte de Moçambique, há quem diz que qualquer ameaça pode colocar Pemba em alerta vermelho. As tropas militares da África do Sul estão em Macomia, um distrito bem povoado na vila sede, mas em ruínas um pouco mais a norte, como pode se ver nos postos administrativos e aldeias aqui arrolados.
Ruandeses são as tropas mais privilegiadas, actuando em distritos chaves como Palma e Mocímboa da Praia. Em Mocímboa da Praia tem controlo exclusivo do porto e do aeródromo. Eles estão também em Ancuabe, uma posição que semana passada foi reforçada depois de ataques de Meluco, além de ter recebido a visita do Ministro de Defesa, Cristóvão Chume.

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