Renamo a procura de uma nova identidade

OPINIÃO

Luca Bussotti

Um longevo e poderoso político italiano da Primeira República, Giulio Andreotti, defendia que “o poder consome…quem não o tem”. Parece que é isso que está ocorrendo nas fileiras da Renamo, o maior partido de oposição de Moçambique que, depois da morte do seu histórico líder, Afonso Dhlakama, nunca mais encontrou formas aceitáveis de confronto interno e democrático.

É de poucos dias o pronunciamento de boa parte da ala militar, liderada pelo antigo Chefe de Estado maior desta formação política, Timosse Maquine, exigindo as demissões do presidente Ossufo Momade. Anteriormente, depois da morte de Dhlakama, assistimos a formação da Junta militar chefiada por Mariano Nhongo, ao afastamento de membros do partido ligados ao antigo líder, finalmente a boatos que querem personagens de relevo, tais como o edil de Quelimane, Manuel de Araújo, próximo a saída desta formação política.

Apesar das desmentidas, o que parece certo é uma situação interna preocupante e pouco controlada; ademais, o activismo que esta formação política deveria demonstrar, principalmente depois da morte de Azagaia, com novos movimentos críticos com o sistema de poder da Frelimo, não está se manifestando, de forma bastante surpreendente.

As razões – ou parte delas – remetem ao tipo de partido que a Renamo é, aliás que foi ao longo de quase toda a sua história, ou seja, do momento em que Dhlakama substituiu André Matsangaisse, morto em combate. A Renamo nunca foi, propriamente, um partido político, pelo menos na acepção mais clássica do termo. Seus níveis de democracia sempre foram extremamente fracos, a liderança de Dhlakama nunca contestada e, quando o antigo líder entrevia o risco de uma competição interna, a saída foi a expulsão dos possíveis competidores. Foi assim com Raúl Domingos em 2000, e foi assim com Daviz Simango em 2008.

Entretanto, Dhlakama era o que se costuma dizer um líder carismático, e grande parte do partido identificava-se com ele. O facto de ele ter perdido a vida no mato, lá na Gorongosa, ainda a combater contra o eterno inimigo da Frelimo representa o último elemento dque chancelou a sua “santidade política “, dentro assim como fora da Renamo.

Como sempre acontece com organizações construídas com base no carisma do seu líder, a sucessão apresentou-se de imediato problemática. O carisma, dizia Weber, não se transmite, e de facto nenhum dos membros (pelo menos da velha geração) tinha o carisma de Dhlakama. Consequentemente, o partido iniciou a dividir-se, corroído por disputas internas, mas sem garantir mecanismos democráticos adequados.

Com efeito, o carisma de Dhlakama substituiu, em larga medida, a colegialidade de um qualquer partido “normal” graças ao seu carisma. Porém, Ossufo Momade não tem esta característica. Por isso é que ele devia ter mudado a natureza da Renamo, tornando este partido uma formação política baseada no diálogo e até no conflito interno, ao invés de uma organização liderada por uma figura carismática, que já não existe.

A transição mais difícil da Renamo não é a entre um partido militarizado para um partido que actua apenas dentro do palco democrático. Esta transição, em larga medida, já foi feita. O mais difícil será reposicionar toda a organização de um partido de base carismática para um mais moderno, com seus organismos estatutários a funcionar regularmente, celebrando congressos periódicos e considerando também a possibilidade de remover o seu líder mediante mecanismos internos democráticos.

Este é o outro ponto crítico levantado pelos oficiais da Renamo há poucos dias: se a maioria dos inscritos acha que Momade não tem capacidade para guiar o partido, ele deve ser desafiado por outro candidato num congresso regularmente convocado, ou, por outra, deixar o cargo de forma espontânea.

A transição de Momade para outra liderança, se este for o caso, representa também um momento ímpar para medir a maturidade política deste partido. E, ao mesmo tempo, um teste para verificar se a Renamo poderá constituir uma alternativa válida a Frelimo nas próximas eleições: um partido sem democracia interna dificilmente poderá governar um país que também se pretende democrático, tolerante e respeitoso das leis e da Constituição.

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