“Estou surpreendido pela positiva, até então, por alguns nomes que têm surgido no seio da RENAMO”

DESTAQUE POLÍTICA
  • Escolhas dos cabeças-de-lista surpreendem o director do IESE
  • “Comiche foi um autêntico desastre. Não sei se foi por causa da idade ou interferências”
  • “A cidade está uma desgraça, e manter Comiche seria a pior coisa que a FRELIMO iria fazer”

Os principais partidos do país já escolheram os nomes dos cabeças-de-lista para as eleições de 11 de Outubro próximo e o director do Instituto de Estudos Sociais e Económicos (IESE), Sérgio Chichava, mostrou-se agradavelmente surpreso pela ousadia da RENAMO ao indicar rostos politicamente bem projectados e fortes, mas também destaca o facto de o partido Frelimo ter também feito o seu TPC, ao ouvir o clamor do povo e abdicar de alguns edis considerados autênticos desastres, como é o caso de Eneas Comiche, que no seu entender pode ter sucumbido a idade ou interferências dentro do seu próprio partido. Olhando para os duelos eletrizantes entre os candidatos da Frelimo e da oposição, sobretudo nas maiores cidades do país, Chichava não acredita que a Frelimo possa conseguir recuperar as cidades das mãos da oposição.

Renato Cau

Sérgio Chichava é um dos cientistas políticos mais atentos à evolução. Acredita que, embora a FRELIMO tenha declarado que quer recuperar as cidades das mãos da oposição, a Cidade da Beira poderá ser um dos pontos em que provavelmente verá a vitória lhe escorregar das mãos, pois os dois partidos da oposição têm fortes candidatos à cidade capital da zona centro.

“A pessoa que foi indicada pela FRELIMO não me parece ter capacidade, carisma suficiente e capital político pessoal para ombrear com Geraldo Carvalho da RENAMO, que não é um candidato qualquer; é um candidato muito forte, mas penso que o MDM vai reter se apostarem no actual edil, daí que penso que há condições para manter a cidade da Beira”, disse.

Manter Manuel de Araújo como cabeça-de-lista para Quelimane foi, para si, uma escolha inteligente e acertada por parte da RENAMO, visto que “mano Manuel” é bastante popular e tem todas as chances de ganhar as eleições, mesmo com a ocorrência de algum tipo de fraude, e diz haver muita probabilidade da RENAMO ficar com a cidade de Quelimane e Nampula.

Para Chichava, a FRELIMO mostrou que aprendeu a lição, visto que “passaram a escutar a voz do povo, pelo menos nas principais cidades moçambicanas. Falo de Maputo e Matola. Comiche foi um autêntico desastre. Não sei se foi por causa da idade ou pelas interferências que os edis sofrem, mas a cidade está uma desgraça, e manter Comiche seria a pior coisa que a FRELIMO iria fazer, não só por causa da idade avançada, mas também porque não fez absolutamente nada”.

Lamenta que para além de Eneas Comiche não ter feito diferença alguma na gestão municipal em Maputo, tenha perdido todo respeito que as pessoas tinham por ele, e vê como um grande erro o facto de aceitar voltar a ser edil, pois queimou todo o prestígio que ele tinha.

E para sarar as feridas e trazer a esperança, a RENAMO trouxe Venâncio Mondlane, “que penso que vai ser difícil bater, mas pode ser batido porque a FRELIMO pode se arriscar a perder a capital do país, pois mesmo se a FRELIMO ganhar todas autarquias e perder em Maputo significa ter perdido as eleições, e acredito que o partido vai fazer de tudo para ganhar. No nosso país nós sabemos como são as eleições”.

No entender do director do IESE, as VI eleições autárquicas prometem ser as mais disputadas de sempre, isto porque a FRELIMO está em crise por conta do desempenho dos seus edis na cidade de Maputo e Matola, e pode ser punida pelo eleitorado. Mas, tudo indica que a FRELIMO conseguiu ler a situação e está a fazer mudança das peças do xadrez, e como resposta colocou Razaque Manhique como seu homem-forte para “bater de frente” com Venâncio Mondlane da RENAMO.

Quanto a Matola, Chichava diz que “desde a morte de Carlos Tembe nunca houve um bom edil. Tem sido desastres atrás de desastres”. E como forma de renovar a imagem do partido, pelo menos em Maputo, trouxe Júlio Paruque, que aparenta ser um indivíduo livre de polémicas, não parece incompetente. Em termos de imagem e frescura, Chichava pensa que é um bom candidato.

No seu entender, se o actual edil da Matola, Calisto Cossa, ainda tivesse apoio do seu partido, talvez, com certeza, permanecesse na candidatura. Mas, como “ele apercebeu-se que já não tinha apoio algum do partido, provavelmente foi aconselhado a renunciar, até porque ele já não serve. Foi a melhor coisa que ele fez; foi a melhor decisão para ele e para Matola também, sem esquecer que os apoiantes da Frelimo na Matola estão agastados. Não estão a ver nada”, disse.

Vai mais além ao referir que “mesmo nas eleições passadas sabemos como é que foi…não há muita coisa a dizer, estamos a perder tempo com Calisto”.

Não vê razões para que Eneas Comiche e Calisto Cossa não fizessem o mínimo pelos seus municípios durante os anos em que estiveram no seu comando, por mais que tivesse sofrido interferência política.

Segundo o nosso entrevistado, “se eles não fizeram o trabalho não foi por interferência política; podiam ter feito o mínimo.” E questiona “qual é o problema em fazer estradas bem asfaltadas, em ter um sistema eficiente de recolha de lixo, ter balneários públicos, ter mercados formais e informais organizados e organizar os passeios, ter estradas iluminadas, sistema de parqueamento que funciona, em ter uma polícia municipal que não está para extorquir e sim para trabalhar?”

Outro candidato forte é o reencaminhado do partido no poder, é o já bem conhecido actual administrador do distrito de Marracuene, Shafee Sidat, que foi igualmente indicado à cabeça-de-lista pelo recém-criado Município de Marracuene. Chichava não tem dúvidas que Sidat é a pessoa que colocou Marracuene onde está hoje, embora ele esteja a ser combatido a nível do partido, tal como foi com o Dr. Felipe Gagnaux nas I eleições autárquicas, supostamente “por ser branco”, quando representava o movimento Juntos Pela Cidade (JPC). E remata dizendo que se ele for o candidato vai ganhar folgadamente, pois, na sua opinião, não tem adversário à altura, embora tenha sido sabotado.

Quando questionado sobre a possível formação da coligação entre o Movimento Democrático de Moçambique (MDM) e a RENAMO, Sérgio Chichava foi categórico ao afirmar que a RENAMO é que está menos interessada porque ainda acredita que é melhor que o MDM e que sozinha vai fazer bons resultados. Não o admira o avanço desta proposta porque historicamente “outros partidos da oposição sempre quiseram coligar-se a RENAMO para poderem fazer alguma coisa significante”.

Como tal, espera que com as eleições que se avizinham tragam um fortalecimento quanto à participação e competitividade, e constituirá um grande ganho para a nossa democracia se “tivermos eleições transparentes em que as pessoas poderão escolher livremente os seus dirigentes”. E é igualmente uma oportunidade para que a Comissão Nacional de Eleições (CNE) seja imparcial na qualidade de árbitro no processo de eleições que se avizinham.

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