Rafael e Leonardo: Dois exemplos de persistência e realização em meio a adversidade

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Rafael Bata e Leonardo Jorge tinham tudo para mergulhar no mar das lamentações por serem deficientes visuais, contudo são exemplo de superação para muitos devido a sua persistência e vontade de vencer. Apesar da deficiência, a dupla superou obstáculos e conseguiu alcançar feitos notáveis que deixam qualquer mortal de queixo caído. Nesta edição, o Evidênciais traz uma parte da história de vida dos dois jovens que são inspiração nas suas respectivas zonas. 

Edmilson Mate e Teresa Simango

Rafael Bata e Leonardo Jorge, dois jovens com personalidades diferentes, sonhos distintos e algo em comum, a deficiência visual, um problema que além de limitar a visão física, limita a realização de sonhos e que infelizmente tem afectado vários jovens moçambicanos. No entanto, Rafael Bata e Leornardo Jorge são um exemplo de resiliência, ambos provaram ao mundo que é possível realizar seus sonhos mesmo tendo deficiência visual.

Leonardo Daniel Jorge, de 30 anos de idade, natural da Beira, província de Sofala, órfão de pai e filho de mãe doméstica e único filho homem no meio de 04 irmãos, abriu as portas para equipa do Jornal Evidências em seu escritório na cidade de Maputo, para contar a sua história de persistência ao mundo.

Apesar da sua limitação visual que foi provocada pelo sarampo, Leonardo Daniel não mediu esforços para alcançar os seus objectivos e migrou para o Brasil, através de uma bolsa de estudos, em busca de realizar o sonho de se tornar um cientista político e um administrador público para ajudar a contribuir para o bem-estar da sua família e do país.

“Perdi a visão entre os 03 a 04 anos de idade por causa do sarampo, em 2001 perdemos o pilar da nossa família, o nosso pai, e a minha mãe conseguiu a oportunidade de me matricular numa escola especial, e por sinal a primeira no país que recebia pessoas com deficiência visual, o Instituto de Deficientes Visuais da Beira, onde fiz o nível primário no regime de internato e fiquei lá até a 5ª classe. Com o objectivo de integrar os alunos nas suas famílias para poder ter uma integração social e estimular o desenvolvimento das habilidades e mobilidade da 6ª e 7ª classe passei a residir em casa com a família”, contou a fonte.

“Cheguei a me sentir excluído e fui em busca de outras oportunidades”

Jorge enfrentou várias dificuldades ao longo da sua formação, mas nunca desistiu de alcançar os seus objectivos, visto que teve que migrar para o Brasil para terminar a licenciatura em administração pública.

“Na adolescência, porque já fazia parte do parlamento infantil, decidi concorrer para o curso de ciência política na UEM, para a licenciatura, morando na residência universitária, o que me estimulou a sair da UEM foi a questão acessibilidade atitudinal, que é ligada a forma de tratamento, a forma como os docentes tratavam as coisas, como eles trabalhavam comigo, cheguei a me sentir excluído e fui em busca de outras oportunidade, foi neste sentido que quando me apareceu a oportunidade de ir ao Brasil não pensei duas vezes, e como também já procurava oportunidade de uma bolsa para estudar fora do país me candidatei à bolsa em 2017, fui aprovado para o curso de Administração Pública na Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB)”.

Quando tudo parecia estar devidamente alinhado, mais uma dificuldade vinha com a oportunidade. “Como o Brasil não financiava o custo de viagem, só assumiam ajuda depois que o estudante chegasse ao país, tive que ir atrás de um financiamento para a passagem e visto, tive apoio de amigos e o instituto de bolsas de estudo que pagaram a passagem de ida e volta”.

Leonardo Daniel Jorge, que actualmente é membro da Associação Moçambicana dos Deficientes Visuais e faz parte da Plataforma de Adolescentes e Jovens cujo objectivo é participar na vida do país, concluiu a licenciatura, mas ainda almejava fazer o mestrado em administração pública e, mais uma vez, ganhou uma bolsa para estudar na Universidade Federal de Minas Gerais.

“Sou administrador público e cientista político, hoje sou tido como espelho na minha comunidade e, por sinal, um dos poucos que conseguiu concluir o mestrado”, conclui Jorge, sublinhando que “o maior desafio enfrentado durante este processo foi a falta de material didático e questão atitudinal que transformei em oportunidade, hoje considero a minha licenciatura e o meu mestrado as minhas maiores conquistas”.

Prosseguindo, a fonte mostrou-se pouco interessado em enriquecer tanto que tal, mas bem mais modesto do que ser rico, poder ser autossuficiente, até porque “nem pretendo ser governante, mas quero ajudar o povo a resolver o problema que tem, dentro daquilo que são as minhas atribuições, competências e capacidades”.

Dirigindo-se para a sociedade de forma geral, Leonardo Daniel Jorge, abordando sobre a inclusão, alerta para que esta “não seja pensada ou tratada quando conveniente, deve ser uma coisa que esteja dentro de nós, temos que pensar em políticas mais inclusivas sempre em todos os sectores em todas áreas em todos os momentos e grupos sociais que existem”.

Actualmente, o membro da Associação Moçambicana dos Deficientes Visuais tem como sonho conseguir realizar a publicação do seu livro que em parte se compõe pela sua dissertação de mestrado.

Por seu lado, Rafael Bata, natural de Maputo, teve uma infância normal como todas as crianças. Jogou futebol, tocou guitarra, mas foi no segundo ano do ensino secundário que o pior aconteceu, foi recrutado para tropa para cumprir serviço militar obrigatório.

“Quando estava a estudar recebia críticas, e quando graduei as pessoas vieram me aplaudir”

Na verdade, o problema para este nosso entrevistado não foi ter que cumprir o Serviço Militar Obrigatório, mas sim o facto de a família ter ficado sem nenhuma informação sobre o seu paradeiro.

“A minha família procurou-me por tudo que era canto e chegou a achar que estivesse morto, mais tarde quando chego à província de gaza encontrei com um conhecido e encaminhei uma carta para a família explicando o que havia acontecido, estava na tropa e era altura da guerra civil e perdi a visão na zona de Macanze, em Chibuto, em 1995”, conta com algum pesar na alma.

O momento em que Rafael perdeu a visão foi quando ele próprio começou a se enxergar de forma diferente e acima de tudo diminuído as suas capacidades físicas.

“Depois disso, fui ao centro dos mutilados de guerra, na Matola, e mais tarde levaram-me a Beira para estudar o braille no Instituto Nacional dos deficientes visuais”, relata Rafael, admitindo que mesmo o momento de ir para Beira não deixou de ser difícil, uma vez que para a família tal significava mais um distanciamento, “o meu pai não queria, os homens prometeram chamboco e meu pai acabou cedendo”.

Na verdade, a ida a Beira acabou se revelando uma oportunidade sem igual. “Foi muito bom ter ido, porque o meu pai morreu e agora eu estaria a sofrer, fiz uma formação como telefonista”, admite Rafael, elucidando mais que em 1998 regressaria a Maputo e por influência de amigos acabou distribuindo documentos de candidatura a qualquer tipo de oportunidade que encaixava no seu perfil profissional.

O insucesso como telefonista acabou empurrando Rafael para a música, onde conseguiu ganhar o prémio de melhor voz no Ngoma da Rádio Moçambique.

“Como sabia tocar um pouco a guitarra, depois de ter ficado cego continuei a praticar, mesmo contra a vontade dos meus pais. Graças à minha teimosia em não parar de tocar, consegui gravar na Rádio Moçambique, fiz videoclipe, e até cheguei a ganhar o prémio de melhor voz em 2005”, desmistifica Rafael a trilha de um caminho tortuoso e no começo incerto.

“Quando ganhei o prémio de melhor voz no Ngoma Moçambique tive uma bolsa de estudo para fazer o curso de jornalismo”, mas, conta Rafael, “quando estava a estudar as pessoas perguntavam o motivo de estar a estudar, recebia críticas, e quando graduei as pessoas vieram me aplaudir”.

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