Reforma de Xerife no Sistema Bancário pariu frustração

DESTAQUE ECONOMIA SOCIEDADE
  • Plataforma da Euronet deixa moçambicanos com os nervos à flor da pele
  • Constantes falhas de sistema inquietam sobremaneira os comerciantes que por vezes entram em rota de colisão com os clientes
  • “Xerife” Zandamela atira culpa aos bancos que não querem migrar para o novo sistema

Em Novembro de 2023, todos os bancos comerciais e instituições de moeda electrónica foram totalmente integrados na rede única nacional e a funcionar exclusivamente na nova plataforma da SIMO Rede, fornecida pela empresa norte-americana Euronet. As falhas do actual sistema têm sido contínuas nos ATMs, POSs e nas plataformas onlines, o que cria preocupação nos usuários destas plataformas, que não têm onde recorrer para ao menos ter a informação do que está a acontecer realmente. A arrogância na relação com os clientes está nos dois lados: não há nenhuma comunicação oficial, nem do Banco de Moçambique e muito menos dos bancos comerciais. O Governador do Banco de Moçambique, Rogério Zandamela, longe de reconhecer que a sua inovação pariu decepção, veste-se da sua fama de “arrogante” para justificar que o problema são os bancos comerciais que demoraram migrar para o novo sistema da Euronet.

Duarte Sitoe

As 15 horas deste domingo (31), Jorge foi abastecer sua viatura numa das bombas ao longo da circular de Maputo. Quando tentou fazer o pagamento, o POS não reconheceu o PIN. Ele não estava errado. O problema estava mesmo no sistema. Pediu de imediato que o seu primo lhe enviasse 1700 para fazer o pagamento. O dinheiro foi enviado às 15:30 do M-Pesa para o E-mola, no entanto, não foi refletido no destinatário. Vermelho e pálido, preso nas bombas de combustível e já atrasado no seu compromisso, estava enfurecido com o primo que, passado uma hora, não tinha conseguido enviar dinheiro, longe dele imaginar que o valor foi enviado às 15:30.

Quando recebeu o comprovativo da transferência, pediu para o primo ligar para a linha do cliente, e a informação que teve foi de que há problemas na SIMO Rede, que limita as transferências do M-Pesa para o E-mola. “Só pode aguardar pela resolução desses problemas”, disse o agente que atendeu, clarificando “que não são da responsabilidade da Vodacom. Por isso não temos como intervir e nem fazer estorno do valor”. O valor viria entrar depois das 20 horas. O jovem conseguiu se livrar das bombas de combustíveis, mas não seguiu com o seu compromisso.

Este é o dia a dia dos moçambicanos, sejam eles comuns ou comerciantes. Remontam bem antes, mas agravam-se em Dezembro de 2023, quando com pompa e circunstância o Banco de Moçambique lançou oficialmente a nova plataforma da solução de pagamentos electrónicos, fornecida pela norte-americana Euronet, na Rede Única Nacional de Pagamentos Electrónicos, gerida pela Sociedade Interbancária de Moçambique (SIMO).

Volvidos quatro meses, a inovação do Banco Central só pariu decepção devido a constantes falhas de sistemas nas ATMs e POSs. Há relatos de casos em que os utentes não conseguem levantar o dinheiro depois da transação, sendo que o mesmo é debitado.

A título de exemplo, Edgar Martins fez-se a uma das ATMs da capital moçambicana, Maputo, na esperança de levantar dinheiro, mas, debalde, não chegou de ver a máquina a “cuspir” o mesmo, e para o seu espanto o valor que pretendia levantar foi debitado da conta.

Martins contou que o facto aconteceu nos meados de Fevereiro, mas até hoje o valor não foi restituído. “Sempre ouvi colegas a reclamarem do novo sistema, mas nunca havia enfrentado constrangimentos. Infelizmente, em Fevereiro, tentei levantar dinheiro para pagar as minhas contas, mas o azar bateu-me à porta. Levantei cinco mil meticais, porém o dinheiro não saiu e recebi notificações que o mesmo foi debitado.

Achava que tal como acontecia no antigo sistema o valor seria restituído em questão de horas depois e nada disso aconteceu. Foi ao banco na esperança de recuperar o montante. “Preenchi um documento e até hoje o dinheiro ainda não foi restituído. Este novo sistema só trouxe problemas, trouxeram uma plataforma que já mostrou que é ineficiente. Mesmo com os seus problemas o anterior era muito melhor que este”, apontou.

Para Carlos Américo, o anterior sistema é melhor em relação ao actual. Américo tirou essa conclusão depois de ter enfrentado constrangimentos para levantar e enviar dinheiro da carteira móvel para o banco e vice-versa.

“Nos últimos dias é preciso orar e jejuar quando se envia tanto da carteira móvel para o banco, quanto o oposto em todos os bancos comerciais. As mudanças do Banco de Moçambique estão a ter impacto negativo na vida dos moçambicanos. Agora, as transferências interbancárias não reflectem a tempo e hora. Por vezes, levam semanas ou meses para reflectir, enquanto já debitaram o valor transferido”, declarou.

A fonte acredita que o Banco Central pretendia oferecer comodidade e celeridade nas transações bancárias, porém, inutilmente, o novo sistema tem se revelado um autêntico fiasco.

Julieta Chirindza contou ao Evidencias que devido ao problema de sistema foi debitada o valor três vezes, sendo que a máquina (POS) dava sempre erro. A fonte teceu, por outro lado, duras críticas à morosidade que os bancos levam para repor o valor.

“No anterior sistema era obrigatório digitar o PIN nos POSs, mas agora tudo mudou. O novo sistema não garante segurança porque em caso de roubo a pessoa pode usar o cartão. Entrei numa loja para comprar roupa para a minha filha e queria pagar usando o POS. Na primeira tentativa a máquina deu erro. Na segunda idem, porém, o banco debitou o valor duas vezes. Fui ao banco para recuperar o valor, mas, debalde, o mesmo foi restituído depois de dois meses. Eu tive sorte, a minha mãe está a três meses à espera de um valor que lhe foi debitado quando queria levantar”, contou.

“Com a unificação de todas as redes de pagamentos electrónicos e consequente operacionalização plena e exclusiva da Rede Única Nacional de Pagamentos Electrónicos o Banco de Moçambique queria modernizar o sistema bancário. No entanto, esta modernização se revelou desastrosa em diversos aspectos. Pode até trazer resultados positivos no futuro, mas até aqui é uma experiência, diga-se, negativa. O antigo sistema podia até ser arcaico, mas é 10 vezes melhor que este porque funcionava minimamente bem”.

Mas os problemas não se limitam aos valores debitados e não sacados. Nos POS, alguns cartões só reconhecem o PIN na quarta tentativa. Noutros casos, como se viu no fim da tarde da quinta-feira (28) passada, alguns problemas aumentam quando a demanda que geralmente ocorre nos dias em que a procura pelo dinheiro. Alguns POS não funcionavam, as plataformas digitais funcionavam com intermitência e as filas de ATMs eram insuportáveis devido às enchentes. De longe, presumiu-se que a função pública tivesse sido paga naquele dia.

Comerciantes relatam perda de receitas

As recorrentes falhas nas transações via POS afectam sobremaneira os comerciantes. Mamod Ibrahim tem uma loja que se dedica à venda de eletrodomésticos, na baixa da Cidade de Maputo. Em conversa com o Evidências, Ibrahim contou que já foi acusado de burla por clientes devido às constantes falhas do sistema.

“Estes problemas não afectam só os clientes. Nós como comerciantes perdemos dinheiro porque há pessoas que pretendem comprar bens acima de 100 mil meticais e usam o cartão para pagar. Infelizmente, já tivemos casos em que os clientes passaram cartão no POS e o sistema falhou, mas foram debitados o valor”, relata o comerciante.

Adiante, explica que quando isso ocorre, os clientes pensam que foram burlados e criam alvoroço. Nesses casos, para chamar o cliente à razão, “pedimos o mesmo para entrar em contacto com respectivo banco”, disse Ibrahim.

De acordo com o nosso interlocutor, as mudanças são sempre bem-vindas, mas devem facilitar a vida dos utentes. Estranhamente, não é o que está a acontecer com a nova plataforma da solução de pagamentos electrónicos.

Ibrahim afirma que há cada vez mais receios de se usar cartão para pagamentos devido a estes receios.

Banco Central atira culpa para os bancos comerciais

O Evidências tentou ouvir a versão dos bancos comerciais que operam no país sobre os constrangimentos causados pelo novo sistema aos clientes, mas os mesmos se fecharam em copas.

No entanto, naquela que foi a primeira vez a falar das constantes falhas do sistema desde entrada em vigor da nova plataforma da solução de pagamentos electrónicos, fornecida pela norte-americana Euronet, o governador do Banco de Moçambique, Rogério Zandamela, justificou que a culpa é dos bancos comerciais que demoraram migrar para o novo sistema.

“As instituições não se ajustaram a tempo e só recentemente é que estão a abraçar este desafio das novas tecnologias para se adaptarem ao novo sistema, aí está o problema”, atirou Zandamela.

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