Alexandre Chiure
A história de Afiosso Nhaduvuque e de Ester Normubai, que passou, há dias, num canal de televisão, mexeu comigo. Levou-me a reflectir sobre os sonhos de infância e a tendência que há de as pessoas os abandonarem e abraçarem áreas que permitam ter vida fácil.
Os meninos, finalistas da 12ͣ classe na Escola Secundária de Mavila, no pacato distrito de Zavala, ansiavam ser professores, mas, agora, dizem que não querem mais seguir a carreira decepcionados com a actual situação do professor em constante degradação, a exemplo do problema de horas extraordinárias que tende a eternizar-se no sector da educação.
No passado, esta profissão era nobre e atractiva. O professor gozava de muitas simpatias, carinho, respeito e consideração do público. Por isso, muitas crianças dessa época, quando perguntadas sobre o que queriam ser no futuro ao tornarem-se adultos, escolhiam ser professores.
Não quero, aqui, dizer que seja o caso destes miúdos, mas hoje, as coisas mudaram muito. Todo o mundo está preocupado em trabalhar nos sectores onde é possível ganhar dinheiro fácil e tornar-se, em tão pouco tempo, rico ou estável. Os sonhos de infância ficam para atrás.
Uns, sonham em ser polícias, mas com os olhos virados para o Departamento da Polícia de Trânsito, pelos motivos que todos nós conhecemos. A afectação neste ramo policial, depois da formação em Matalane, paga-se e não é barato. Há esquemas para isso dentro da própria polícia. Consta que não é abaixo de quinze mil meticais por agente.
O ponto é que se vive neste sector. Factura-se todos os dias, bastando para isso o agente da PT sair à rua e fingir que está a fazer fiscalização rodoviária. Os operadores de chapa cem e os camionistas transportadores de carvão são as principais fontes de receita por serem os que, geralmente, têm problemas.
Os reis e as rainhas da estrada exploram no máximo as fragilidades e tiram proveito da situação. Fazem vista grossa a infracções a troco de dinheiro. Como é óbvio, a preocupação de agentes é de encher os bolsos e não, propriamente, de punir os infractores ou corrigir irregularidades para o bem da segurança rodoviária. Nas Sextas, sábados e domingos, a facturação é maior. São os dias em que a PT controla o álcool. Os prevaricadores são às dezenas.
Os agentes da P, mesmo a noite, pouco se preocupam em verificar se a iluminação de veículos está em condições ou não, nomeadamente pisca-piscas, mínimos, máximos e presenças. A primeira e a última fez em que a polícia fez esse tipo de fiscalização à minha viatura foi na África do Sul. Cá entre nós parece não importar.
A sua atenção está virada para o teste de álcool, não propriamente para responsabilizar os automobilistas que estejam a conduzir sob efeito desta droga, mas como motivo para extorquir as pessoas. Pedem carta de condução e livrete e logo a seguir convidam o condutor a fazer o teste de álcool. Em caso de resultado positivo, o resto já se sabe. O condutor paga para evitar a apreensão da sua carta e a inibição de conduzir durante um ou dois anos, para além da multa que não é barata.
Ainda na polícia, há os que ambicionam ser guarda-fronteiras. Não é caso para menos. Há, aqui, o negócio chorudo de imigração ilegal. Os imigrantes estrangeiros batem na mesa para entrar no país. Uns, em trânsito para a África do Sul e os outros, em busca de oportunidades no país, entre somalis, congoleses, nigerianos e outros.
Os que sonham em trabalhar na Autoridade Tributária ou nas Alfândegas de Moçambique, querem ser afectos nos postos fronteiriços que é onde há vida. Aqui, alguns dos agentes fazem esquemas obscuros que lesam o Estado em milhões de meticais. Deixam passar mercadorias sem pagar o imposto e ganham por isso.
A importância que cobram ao utente depende do produto em causa. Em alguns casos pode ser metade do que pagaria oficialmente. Por via disso, os agentes possuem mansões, viaturas de alta cilindrada e uma boa qualidade de vida. Essas condições estendem-se aos filhos que não se fartam de fazer ostentação. Respiram fartura e constituem uma referência na sociedade pelos bens que têm. O seu valor está acima da sua real capacidade de compra e ninguém questiona essa riqueza fácil.
Nas instituições públicas, a luta é de trabalhar na UGEA – Unidade de Gestão Executora das Aquisições que lida com concursos públicos. Neste sector ganha-se, também, dinheiro fácil . Os agentes andam folgados. O facto é que o concorrente paga para ganhar o concurso e, depois, para que seja pago o que é de direito, concluído o trabalho. Ou entra no esquema ou nada feito. Infelizmente a vida é assim mesmo.
O sonho dos políticos é tornarem-se deputados da Assembleia da República, atraídos pelo salário chorudo, subsídios e regalias. Não se importam de corromper ou comprar consciência dos votantes para apostarem neles e poderem entrar nas listas de candidatos a parlamentares. Outros investem na magia negra para atingirem os seus objectivos políticos.
Alguns, uma vez dentro da AR, não querem ceder o seu lugar aos outros, ainda que tenham feito três ou quatro mandatos e estejam esgotados como deputados.
Vimos, há pouco, nas eleições internas da Frelimo, figuras emblemáticas como Eduardo Mulembwe, antes presidente e depois, deputado, com cerca de 30 anos na AR, Ana Rita Sithole, Conceita Sortane, Alberto Vaquina e outros a fazerem de tudo para continuarem no parlamento onde não falam e passam despercebidos.
O salário, os subsídios e as regalias são os atractivos. Além do ordenado de 248.637,00 meticais, o parlamentar tem direito a 30 por cento deste valor como subsídio de representação, equivalente a 74.591,10 meticais, perfazendo um total de 323.228,10 meticais. Como se pode ver, os que seguem, hoje, o curso de professorado é por uma questão do emprego e não porque gostam da carreira, tirando um e outro caso. A educação é dos poucos sectores que oferecem vagas anualmente. A ganância e o gosto pela vida fácil sobrepõem-se aos sonhos de infância. Hoje é assim como as coisas são feitas.

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