- O efeito da falta de divisas no mercado
- “O problema está a agravar-se e não recebemos qualquer apoio dos bancos para as transacções cambiais”, lê-se na carta da companhia que o Jornal teve acesso
- Sector Privado critica a postura do Xerife e pede um sinal para animar o mercado.
Na semana passada, depois que o Evidências denunciou o caos precipitado pela falta de divisas, a Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA) confrontou a postura do Banco de Moçambique, cujas políticas têm asfixiado a economia, sugerindo medidas que julga necessárias para o alívio da situação de liquidez do mercado, que passam pela mudança da postura do Banco de Moçambique. Apelos à margem, o facto é que as empresas têm perdido dinheiro e negócios devido às dificuldades relacionadas com a falta de divisas, principalmente as estrangeiras e aquelas que operam na aviação ou trabalham com importações. Na semana passada, a Ethiopian Airlines, em carta de pedido de ajuda enviada à AVITUM, que agrega os agentes de viagens e operadores turísticos de Moçambique, ameaçou suspender os voos para Moçambique em consequência das dificuldades de repatriamento de fundos provenientes da venda dos bilhetes.
Evidências
As empresas estão a somar prejuízos de milhões em consequência da falta de divisas no mercado. Entre as causas, constam as medidas do governador do Banco Central, Rogério Zandamela, que tem se mostrado insensível às queixas do sector privado, que apresentou na semana passada propostas de medidas de curto e longo prazo para aliviar o mercado.
Fora dos singulares, com compromissos pontuais de tratar assuntos de saúde, propinas, etc, estão as empresas de aviação e importadores a somar prejuízos. Na semana passada, em carta de pedido de ajuda, a Ethiopian Airlines escreveu à AVITUM a informar que, nos últimos 5 meses, tem enfrentado um desafio significativo no repatriamento do dinheiro da venda de bilhetes. “O problema está a agravar-se e não recebemos qualquer apoio dos bancos para as transacções cambiais. O mesmo tornou-se um problema de gestão, e estamos a ser forçados a tomar medidas sérias, incluindo a potencial suspensão dos voos para Moçambique, o que poderá ter um impacto grave na economia local”, lê-se no documento.
Adiante, aquela companhia, que não está só na lista dos que se queixam, solicitou o apoio “para abordar a questão com a parte interessada, a fim de encontrar uma solução imediata”.
Este cenário é consequência das medidas do governador do Banco de Moçambique, Rogério Zandamela, que se gaba de ter reservas para cinco meses, no entanto, a economia queixa-se de não ter moeda estrangeira no presente. Na conferência da empresa havida semana passada (02), a CTA apontou as medidas que influenciaram para este cenário asfixiante às empresas, apontando à taxa de reservas obrigatórias, que foi aumentada de 11,50% para 39,5%. Esta decisão, segundo a confederação, restringiu ainda mais a liquidez em moeda externa. Este é um dos níveis mais altos de reservas obrigatórias no mundo, o que resulta em bancos comerciais acumulando liquidez em divisas, mas retendo-as, ao invés de colocá-las no mercado.
O segundo ponto foi a decisão do Banco de Moçambique de reduzir para 0% o seu apoio ao mercado cambial para a importação de combustíveis. A CTA entende que, enquanto essa medida pode ser justificada com base no princípio de mercado livre, ela tem sobrecarregado os bancos comerciais, que agora precisam adquirir mais divisas dos seus clientes para cobrir as necessidades de importação de combustíveis. Isso levou a um aumento das conversões líquidas de divisas e agravou a escassez no mercado.
Mas não se limitou nas queixas. O Sector Privado apresentou um conjunto de propostas para aliviar a situação no curto prazo, incluindo a redução da taxa de reservas obrigatórias e a utilização das Reservas Internacionais Líquidas (RILs), que actualmente cobrem 4,9 meses de importações, bem acima do benchmark do FMI de 2,8 meses. Para o efeito, sugere que o Banco de Moçambique poderia usar parte dessas reservas para injectar liquidez no mercado de divisas, restaurando a confiança dos bancos comerciais e permitindo um fluxo livre de moeda estrangeira.
Por fim, o comunicado expressa a necessidade de reavaliar os contratos com os Grandes Projectos, que, segundo a CTA, têm limitado o impacto positivo das suas exportações sobre a economia nacional. Embora as receitas desses projectos sejam consideráveis, grande parte delas não flui para o mercado interno, uma situação que a confederação classifica como desfavorável para o desenvolvimento económico sustentável de Moçambique. “Esse rápido crescimento da procura de divisas por parte dos bancos comerciais não foi acompanhado com o aumento das exportações, onde excluindo os GPs, as exportações cobrem cerca de 25% das necessidades de importações”, lê-se no comunicado da agremiação.
A CTA reiterou que o seu objectivo não é confrontar o banco central, mas sim engajar-se num diálogo construtivo para resolver os problemas que afectam o ambiente de negócios e o crescimento económico do país. A organização enfatizou que o empresariado nacional está “sufocado” pela falta de divisas e que é urgente uma mudança na postura do Banco de Moçambique para evitar impactos negativos no crescimento económico, que tem uma meta projectada de 5,5% para 2024.

Facebook Comments