Sector de turismo com uma taxa de ocupação de apenas 5% devido às manifestações

ECONOMIA
  • Yassin Amuji diz que mediatização do caos retraiu turistas e reduziu receitas
  • “Temos que aceitar que as coisas não estão boas”- Yassin Amuji

Moçambique vive, desde Outubro passado, à escala nacional, momentos caracterizados por manifestações violentas que culminaram com mortes de dezenas de pessoas, feridos, desaparecidos, para além da destruição de bens públicos e privados, saques e vandalismo, o que, de certa forma, impactou negativamente diversos sectores de produção e serviços, sobretudo para área de turismo. De acordo com o presidente da Associação de Turismo em Vilankulo, Yassin Amuji, o sector não só sofreu drasticamente por causa das manifestações propriamente ditas, mas sim pela forma como as manifestações foram mediatizadas, sobretudo na imprensa internacional que “vendeu” uma ideia de guerra no país, exagerando deste modo a realidade sobre os protestos contra os resultados eleitorais de 09 de Outubro de 2024

Elísio Nuvunga

Moçambique consta da lista dos destinos favoritos de muitos estrangeiros para as festividades do Natal e do Ano Novo, bem como para férias, dadas as suas belíssimas ofertas para o turismo não só de praia e sol, como também de safari. No entanto, desde o ano passado, o sector tem estado a experimentar impactos negativos das manifestações, que começaram com objectivo de protestar os resultados anunciados pela Comissão Nacional de Eleições e, posteriormente, validados pelo Conselho Constitucional e depois evoluíram para contestação da má governação e elevado custo de vida.

De acordo com Yassin Amuji, presidente da Associação de Turismo em Vilankulo, as manifestações colocaram o sector do turismo em uma situação complexa no que respeita as metas e os níveis de produção.

“Eu tenho estado a acompanhar os fluxos de entrada e das reservas dos turistas e temos que aceitar que as coisas não estão boas. Estamos com taxas de ocupação muito abaixo daquilo que são as taxas médias, estamos a falar de uma taxa de ocupação na ordem de 5% simplesmente. Na província de Inhambane por exemplo, em particular Vilanculos, já andávamos com média de 65-70%, então estar a 5% é estar abaixo daquilo que são as expectativas”, lamentou.

Para além de estimativas não alcançadas, Amuji fez saber que quando o turismo flui normalmente, o sector contribui significativamente para os cofres do Estado, mas em 2024 o crescimento anual reduziu drasticamente.

“Em 2023, os operadores turísticos de Vilankulo, contribuíram para os cofres de Estado com 260 milhões de meticais só em impostos. A expectativa era de que em 2024 conseguíssemos chegar aos 320 milhões de meticais só em impostos, tendo em conta o crescimento habitual de 30% ao ano que vínhamos tendo desde 2019 com a excepção dos anos da Covid-19”, referiu, acrescentando a contribuição fiscal de 2024 parou nos 225 milhões de meticais, para além do não crescimento habitual em 30%.

Reduzir serviços, demitir colaboradores e reduzir salários entre as medidas de austeridade

Actualmente, segundo o nosso entrevistado que tem uma larga experiência no sector, os hotéis tendem a reduzir os seus serviços, para além de demitir alguns colaborares, redução da tabela salarial para fazer face a esta crise, mas assegura que “nunca será abaixo de salários mínimos”.

E se a situação não mudar de direcção, os operadores turísticos e empresários antevêem um cenário caótico, pois só tem capacidade para resistir “até ao mês de Março, o que significa que se neste mês não se começar a receber reservas para os meses de Abril, Maio e Junho, os hotéis vão começar a encerrar portas”.

O presidente da Associação de Turismo em Vilankulo não tem dúvidas de que um provável encerramento massivo de estabelecimento hoteleiros e de restauração pode aumentar ainda mais as “taxas de pobreza e desemprego”, bem como ter um efeito negativo em cadeia para os prestadores de serviços em hotéis, os agricultores que vendem seus produtos aos hotéis, os pescadores e os outros envolvidos na cadeia de turismo.

Não foram só as manifestações, a mediatização também espantou clientes

Para o empresário, não foram somente as manifestações que influenciaram na depreciação do turismo nacional. Há, por parte, a imagem vendida pela imprensa, sobretudo internacional, cuja cobertura projectou, segundo Amuji, um cenário de um Moçambique em estado de guerra.

“Nós vendemos a imagem de um país destruído. Nós vendemos a imagem de um país em guerra. Desde Outubro que a comunicação social, principalmente internacional como Aljazera, CNN, foram vendendo uma imagem de um Moçambique destruído. Em algum momento, essas cadeias televisivas enviaram os seus melhores repórteres de cenários de guerra para Moçambique e vieram transmitir essa ideia de que Moçambique estava praticamente em guerra (…). De certa forma esta venda de um país destruído acabou contribuindo para que muitos países proibissem os seus cidadãos de viajar para Moçambique, como é o caso de Estados Unidos de América, Inglaterra, Espanha, Portugal, entre outros”, desabafou.

Amuji disse ainda que retracção imediata do sector deveu-se ao facto de o turismo no País depender muito de estrangeiros. Só para se ter uma ideia, só em Vilankulo, o turismo estrangeiro (Europa América, Ásia) contribui com cerca de 30-33%, enquanto a região da SADC (África do Sul, Zimbabwe…) contribui aproximadamente em 40% e a remanescente dos 100% (30) é de turismo doméstico.

Em meio à nova onda de bloqueio de estradas, Amuji defende diálogo urgente

Até aos últimos dias, o turismo tem sofrido retrocesso devido às manifestações que, embora tímidas, os seus impactos ainda se fazem sentir: “acabamos tendo dificuldades no turismo doméstico por conta dos constantes bloqueios que estão a acontecer na estrada nacional número (EN1), principalmente no trouxo Maputo-Massinga, o trouxo em que mais flui o tráfego para o Centro e Norte do país”.

E para que o turismo volte a fluir como antigamente, segundo Amuji, há uma necessidade de “resgatar” a confiança dos turistas na diáspora, isto é, projectar uma boa imagem do país. Igualmente, defende a necessidade das manifestações acontecerem pacificamente, sem destruição, vandalismo e saques.

“Temos que encontrar melhores formas de reivindicar e tentarmos melhorar a imagem do país, compensar imagem negativa vendida do país com uma imagem positiva do país para mostrar que realmente estamos em condições de receber turistas”, destacou.

Para além de resgatar o nome e a imagem do país, o presidente da Associação de Turismo de Vilankulo apontou para o tão almejado diálogo por muitos empresários e o público em geral para o fim das manifestações e, consequentemente, o fluxo da economia.

“O diálogo traz estabilidade e estabilidade vai trazer sempre de volta o crescimento e o desenvolvimento. Não é possível desenvolver sem termos paz”, disse Amuji, acrescentando que Moçambique “tem uma responsabilidade na região”, dai que os envolvidos na pacificação do país devem tomar em conta este papel que o país desempenha no exterior (parcerias).

Mais de oito mil reservas foram canceladas em Dezembro

Os meses de Dezembro e Janeiro têm sido de pico de procura pelos serviços hoteleiros no país, contudo, o final de ano de 2024 foi atípico nos dois principais destinos turísticos do país, Maputo e Inhambane.

Estima-se que até 31 de Dezembro, mais de oito mil reservas tenham sido canceladas em estâncias turísticas só nas duas províncias, resultando em prejuízos de cerca de 200 milhões de meticais, só no período da quadra festiva, em que o país quase parou e assistiu a um nível de destruição de bens públicos e privados, durante a chamada fase Turbo V8.

O impacto foi particularmente severo em Maputo, onde, segundo Lugero Gemo, director provincial da Cultura e Turismo, as estâncias de alojamento registaram uma avalanche de cancelamentos que comprometeram o movimento esperado até ao final de Dezembro.

Em Inhambane, uma das principais regiões turísticas do País, o cenário não foi diferente. Segundo Emídio Nhantumbo, director provincial de Turismo, várias reservas foram canceladas devido à insegurança e dificuldades de mobilidade no mês de Dezembro.

Refira-se que, nas últimas semanas, o país voltou a registar perturbações, incluindo nova onda de saque e vandalizações, curiosamente, tendo como epicentro as províncias de Gaza e Inhambane.

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