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Na tarde desta terça-feira, 25 de Novembro, o edifício-sede do BCI, em Maputo, será palco de um lançamento que traz consigo o peso da experiência e o sopro da memória de anos dedicados à investigação. O oficial sénior do Serviço Nacional de Investigação Criminal (SERNIC) e antigo porta-voz da corporação, Elino Jeremias Panguana, estreia-se na literatura com o livro “Crime transfronteiriço entre Moçambique e África do Sul: desafios da cooperação para prevenção e combate à caça furtiva”, obra que nasce de mais de três décadas a ouvir, perseguir e interpretar o eco das fronteiras.
Elísio Nuvunga
Editado pela TPC Editora e apoiado pelo BCI, pelos Serviços Sociais da PRM, pelo Governo da Província de Maputo e pelo Ministério do Interior, o livro chega ao público com prefácio do Prof. Doutor Fernando Francisco Tsucana e um posfácio do antigo Presidente da República, Joaquim Chissano, duas vozes que ajudam a enquadrar a discussão num tempo em que a biodiversidade se tornou o novo palco de sobrevivência.
A caça furtiva, lembra o autor, é uma máquina silenciosa que rende tanto quanto as grandes rotas obscuras do mundo: drogas, armas, pessoas. E, como todas as economias clandestinas, tem os seus próprios mitos. O mais perigoso deles é o corno de rinoceronte, cujo valor pode atingir 600 mil dólares por quilograma, uma promessa que arrasta jovens do sul de Moçambique, sobretudo de Magude a Chokwé, para o ventre arriscado do Kruger National Park, de onde muitos não regressam.
Panguana conhece esses caminhos não por ouvir dizer, mas por os ter percorrido. Foi na Operação Limpopo que viu de perto a fragilidade das fronteiras, a exaustão dos guardas, a esperança cansada das comunidades que passaram a olhar a caça furtiva como uma tábua de salvação económica.
“Não foi fácil, não está a ser fácil”, admite. Mas acredita que o esforço conjunto começou a virar a maré e que há vidas, animais e florestas que hoje ainda existem por causa desses passos silenciosos.
Em entrevista ao Jornal Evidências, o autor que conta com mais de 35 anos de experiência em Serviços de Investigação Criminal, explica que a obra pretende sensibilizar e conscientizar a sociedade, sobretudo as comunidades que vivem nas zonas fronteiriças entre Moçambique e África do Sul, sobre a importância da preservação da biodiversidade.
No terreno, diz ter testemunhado as fragilidades das fronteiras, a pressão sobre as guardas florestais e o envolvimento de comunidades que viam na caça furtiva uma forma de rendimento e até de subsistência.
“Uma parte da comunidade tinha a caça furtiva como a melhoria das suas vidas. Então, chegou um momento em que todos já viam a caça furtiva como meio de sobrevivência, como meio de lucro, como meio de obtenção de valores. Então, encontramos esse entendimento como um desafio para poder consciencializar as comunidades a abandonarem essa prática. Não foi nada fácil e não está sendo fácil, mas quero assumir que a caça furtiva reduziu consideravelmente”, explicou Panguana.
Com 235 páginas, o livro apresenta teorias que sustentam a cooperação bilateral entre Moçambique e a vizinha África do Sul, examina a dinâmica do crime transfronteiriço e propõe medidas para estancar a criminalidade, com destaque para o reforço de meios tecnológicos e logísticos da Guarda Fronteira Moçambicana.
A narrativa lembra também que Moçambique, que antes tratava a caça furtiva com multas, já aplica hoje penas severas como os 27 anos de prisão atribuídos recentemente a um caçador furtivo. Um sinal, diz o autor, de que a justiça está finalmente a acompanhar a gravidade do crime.
Joaquim Chissano escreve, no posfácio, que os animais e plantas dos ecossistemas terrestres “são uma dádiva da natureza” que sustenta as comunidades. E que a sua destruição desorganiza o futuro. Fernando Tsucana acrescenta que o livro chama a atenção para os desafios contemporâneos da cooperação policial na luta contra o tráfico de biodiversidade.
No final, Panguana deixa um apelo que soa mais como advertência poética do que aviso institucional: “Temos de preservar a biodiversidade. Não falamos apenas de rinocerontes. Falamos de leões, zebras, crocodilos, falamos do futuro que ainda podemos salvar.”
O lançamento promete juntar académicos, agentes da conservação, autoridades e leitores num encontro onde se cruzam ciência, experiência e cultura — e onde se discutirá o que ainda pode ser feito para que o silêncio das fronteiras não se transforme no silêncio das matas.



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