Quando a ajuda chega acompanhada de câmaras: Busca por protagonismo transforma drama em palco político

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Em meio às cheias que têm fustigado o País, a dor e a perda têm servido de instrumento de propaganda política, tornando o que devia ser um acto de solidariedade em um show populista que transforma o drama das populações em combustível para a busca de protagonismo político. Em diversos pontos do País, é comum observar figuras públicas e representantes partidários que se deslocam às zonas afectadas com vestuário e capacetes devidamente timbrados, transformando a assistência humanitária numa extensão da campanha eleitoral.

Evidências

Em meio às cheias que têm fustigado o País, a dor e a perda de milhares de famílias vêm sendo instrumentalizadas como propaganda política, convertendo o que deveria ser um gesto genuíno de solidariedade num espectáculo populista. O drama humano acaba, assim, transformado em combustível para a busca de protagonismo político.

Em vários pontos do território nacional, é cada vez mais comum observar figuras públicas e representantes partidários a deslocarem-se às zonas afectadas ostentando vestuário, coletes e capacetes devidamente timbrados, numa encenação que converte a assistência humanitária numa extensão da campanha eleitoral. A ajuda chega, muitas vezes, acompanhada de câmaras, discursos, exaltação de heróis e slogans, esvaziando o seu sentido essencial.

Partidos e movimentos como a ANAMOLA, a FRELIMO, a RENAMO, entre outros, têm sido apontados como actores desta disputa simbólica, transformando as cheias num verdadeiro campo político. Enquanto sectores da oposição, com Venâncio Mondlane à cabeça, denunciam alegadas irregularidades na gestão dos fundos de resiliência e saneamento, apontados como uma das causas estruturais das inundações, o partido no poder tem optado por um discurso de exaltação dos feitos do Presidente da República.

Venâncio Mondlane, uma das vozes mais críticas no actual panorama político moçambicano, tem visitado zonas afectadas pelas cheias e acompanhado de perto as consequências humanitárias do desastre. Nestas deslocações, Mondlane veste-se a rigor com material que exalta as cores do seu partido. As deslocações são transmitidas ao vivo, num esforço tácito de transformar a solidaridade numa busca de protagonismo e reforço de popularidade.

Nos seus discursos tem feito uma forte ênfase em mensagens críticas ao governo e à gestão da crise, apontando para “falhas de governação” e alegada corrupção como causas estruturais dos impactos do desastre. Entretanto, a forma como se posiciona, num momento de crise nacional, é simultaneamente uma mensagem de apoio aos atingidos e uma plataforma para reforçar o seu protagonismo político perante um público mais alargado.

Das “upas” para fotos de Júlio Parruque

Em paralelo, em áreas como Matola, o presidente do Conselho Municipal, Júlio José Parruque, também tem estado nas zonas inundadas, liderando operações de evacuação de famílias e monitorando impactos do aumento das águas. Parruque tem participado directamente de acções de resgate, acompanhado por equipas de comunicação municipal e registos fotográficos que procuram mostrar proximidade com as vítimas e liderança no terreno.

Em várias publicações nas redes sociais e em notas de imprensa, Parruque é retratado como o super-homem. Numa das imagens aparece carregando vítimas ao colo, num esforço que combina resposta técnica com a construção de uma imagem pública de gestor activo durante a crise.

O que aproxima as acções de Mondlane e Parruque, apesar de virem de espectros políticos diferentes, é um claro esforço para documentar e divulgar imagens, visando protagonismo político, o que tem sido alvo de análise crítica por parte de observadores e cidadãos, que o interpretam como aproveitamento da emergência humanitária para afirmação política.

Em Marracuene, políticos despiram cores partidárias para salvarem vidas

Num contexto de crise a agudizar-se, para as populações afectadas, o essencial continua a ser o acesso rápido e eficaz a abrigo, alimentação, água potável e saneamento, bem como soluções estruturais que minimizem o seu sofrimento.

Este aproveitamento político das cheias, focado em “likes” e visibilidade mediática, foi substituído em Marracuene por um trabalho de campo onde os representantes dos principais partidos políticos trabalham em conjunto, despojados de símbolos ou coletes partidários, focando-se exclusivamente no apoio às vítimas.

O cenário no terreno é de extrema gravidade, com os campos agrícolas das zonas baixas totalmente submersos e a previsão de que as águas provenientes das descargas na África do Sul venham a isolar completamente a localidade de Machubo. Perante o avanço das inundações, o município activou três centros de acolhimento que albergam actualmente 423 famílias.

“Criámos três centros, estamos com 423 famílias albergadas, vamos alimentar, nós também temos comida que trouxemos da África do Sul, que foi uma oferta, comidas que aquecem, tipo ração militar, mas uma ração evoluída. Direccionámos os nossos nadadores e salvadores para a Manhiça, porque consta que estão a aparecer corpos e nesse momento estão a atrelar as motas de água para ir deixar na Manhiça também”, revelou o presidente da autarquia de Marracuene, Shafee Sidat, destacando a colaboração da oposição local, sem busca de protagonismo.

Apesar da mobilização institucional, persistem desafios de coesão social entre os próprios munícipes, nomeadamente no que diz respeito à drenagem da água. O edil de Marracuene reportou dificuldades em implementar soluções técnicas devido à resistência de moradores de zonas altas, que se recusam a permitir a passagem de águas provenientes das zonas baixas pelas suas propriedades. Este conflito interno entre a população dificulta a resposta logística num momento em que o nível das águas continua a subir, exigindo uma união de esforços que ultrapasse as divergências de vizinhança e, sobretudo, as barreiras políticas.

“Não há solidariedade entre eles, porque para fazeres drenagem daquelas águas tens de passar de algumas casas, então a população da zona alta diz ‘quem mandou construir na zona baixa, é problema vosso esse, então entre eles não há muita solidariedade, mas estamos a responder a todas as populações,” garantiu Sidat.

O edil de Marracuene reiterou o apelo para que todas as forças politicas esquecam as diferenças ideológicas e se unam na resposta a essa crise, retirando-a da esfera do marketing político e devolvendo-a ao campo da acção humanitária directa.

“Estou a fazer apelos para deixarem campanhas e politiquices porque estão a morrer pessoas, tirem os coletes, larguem as vossas políticas e vão ter com o povo sem coletes,” apelou Shafee Sidat.

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