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O Banco Português de Investimento (BPI) admitiu publicamente que está disponível para vender a sua participação no Banco Comercial e de Investimentos (BCI), em Moçambique, e continuar a reduzir a sua exposição ao continente africano, por considerar que os mercados de Angola e Moçambique “não são estratégicos” para o grupo.
A posição foi assumida pelo CEO do BPI, João Pedro Oliveira e Costa, citado pelo Jornal Económico, durante a apresentação dos resultados anuais do banco, numa conferência de imprensa em que deixou claro que a venda das participações está no radar da administração.
“As participações em Angola e em Moçambique não são estratégicas”, afirmou o banqueiro, acrescentando: “Estou disponível para vender, porque não são participações estratégicas”.
No caso de Moçambique, o BPI detém 35,7% do capital do BCI, sendo o outro principal accionista a Caixa Geral de Depósitos (CGD). Oliveira e Costa sublinhou que qualquer decisão será tomada em coordenação com a CGD.
“Respeito muito o meu parceiro accionista de Caixa Geral de Depósitos e, por isso, também não tomarei nenhuma atitude nem faremos nada que não seja, obviamente, sem informação prévia à Caixa”, afirmou.
O CEO foi ainda mais directo ao classificar o mercado moçambicano como fora do foco estratégico do grupo.
“O mercado angolano não é estratégico para o BPI, tal e qual como o mercado moçambicano não é estratégico para o BPI, não são os nossos mercados de foco e, por isso, iremos prosseguir o nosso movimento de redução, com calma”, revelou.
Depois de, em Dezembro de 2023, o Banco de Moçambique ter aplicado uma multa superior a 134 milhões de meticais ao BCI e a 12 gestores, por irregularidades em operações de crédito e protecção de clientes; embora os administradores ligados ao BPI tenham sido ilibados, o episódio deixou marcas na relação institucional.
“A situação em Moçambique tem vindo a evoluir nos últimos anos, e não tem sido a melhor, infelizmente, apesar de ter aqui algumas perspectivas positivas, também não posso ficar indiferente a um conjunto de acções que as próprias autoridades foram tendo em relação ao banco e em relação aos membros do Conselho de Administração”, afirmou.
O CEO acrescentou que, não sendo uma posição estratégica, a venda está permanentemente em avaliação.
“Não sendo uma posição estratégica, que não é, a venda é algo que eu diria que está sempre no nosso radar de ponderação do que fazer”, disse, sublinhando ainda: “Confesso que não é uma situação que eu gostaria de ver prolongar-se no tempo. O problema é que o país está numa situação bastante desafiante”.
Segundo ele, o BCI teve um contributo negativo de cerca de 20 milhões de euros para os resultados do BPI, em consequência da deterioração do rating soberano de Moçambique.
A directora financeira do BPI, Susana Trigo Cabral, explicou que, em 2025, o downgrade da dívida pública moçambicana para “selective default” obrigou o BCI a reforçar provisões.
“O BCI teve de registar uma imparidade na conta de resultados, via provisões para a sua carteira de dívida pública, ou seja, para a carteira de OTs e BTs de Moçambique”, explicou.
Segundo a CFO, esse reforço extraordinário de imparidades teve um impacto negativo de 35 milhões de euros nos resultados de 2025. Além disso, o próprio BPI teve de reavaliar a sua participação no BCI.
“No BPI também tivemos de fazer uma avaliação da participação do BCI, por causa da descida de rating, e aqui foram 7 milhões de euros”, acrescentou.
Oliveira e Costa sublinhou, ainda, que a influência do BPI no BCI é limitada, uma vez que se trata de uma participação minoritária.
“São participações históricas, mas minoritárias e, por isso, a nossa intervenção é relativamente reduzida”, afirmou, recordando que, no caso do BCI, “a Caixa Geral de Depósitos, que na prática comanda o banco com os seus 75%”.
O presidente do BPI deixou claro que o banco já não conta com África como pilar estratégico para o seu crescimento futuro.
“O presidente do banco sublinhou que já não conta com a contribuição dos resultados em África para o desenvolvimento do BPI”, uma vez que os ganhos do BCI e do BFA são distribuídos ao accionista CaixaBank.
No caso moçambicano, a consolidação é feita por equity method, o que torna o impacto ainda mais sensível a choques macroeconómicos, como a queda do rating soberano.
As declarações do CEO confirmam, assim, que Moçambique está formalmente no radar do BPI para um eventual desinvestimento, num contexto marcado por instabilidade macroeconómica, pressão regulatória e impacto negativo nos resultados do grupo.
“A venda é algo que está sempre no nosso radar”, reiterou Oliveira e Costa, deixando claro que o futuro da participação no BCI dependerá da evolução do contexto económico e institucional do país, bem como do alinhamento com a Caixa Geral de Depósitos.



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