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Arão Valoi
É curioso como, em pleno século XXI, um partido que acompanhou tantas mudanças históricas continua a tropeçar naquilo que deveria ser a arte mais simples da política: coerência discursiva e conexão com o povo. E, sejamos honestos, a coerência discursiva e ligação com as massas nunca foram exactamente uma marca registada da Frelimo. Ao longo dos anos, prevaleceram mais as lutas internas, a arrogância, o distanciamento em relação ao povo, o nepotismo e, em alguns casos, a corrupção. Foi nesse contexto que o Presidente Daniel Chapo assumiu a liderança, com o firme propósito de transformar promessas em actos e imprimir à governação a disciplina que sempre faltou.
Durante a abertura da reunião dos secretariados das organizações sociais do partido, o Presidente, com seu tom solene, chamou atenção para três desafios quase poéticos, mas de uma urgência que dispensa elogios literários: a transformação geracional, o aumento demográfico e a proliferação do crime organizado. O Presidente entende que a geração que hoje se engaja na vida política, económica e social não quer mais aplausos por textos bem escritos; exige empregos, habitação, educação de qualidade, acesso à saúde, transparência, participação real e oportunidades concretas. Uma geração que olha para a governação com olhos críticos, informados e impacientes. Cresceu com o mundo digital ao alcance das mãos, pronta para comparar palavras com acções, para medir a relevância de quem governa não pelo poder formal, mas pelo efeito concreto das suas decisões.
Nesse mesmo palco, surgem os chamados milicianos digitais, como o meu amigo Dércio Alfazema — e aqui vale uma pausa para reconhecer que Alfazema é, acima de tudo, uma pessoa engajada, com convicções fortes e uma energia invejável para se expressar. No entanto, mesmo os amigos mais próximos percebem que, quando a provocação se torna constante, o efeito pretendido nem sempre se realiza.
Se o objectivo desses militantes digitais é, de facto, ajudar a Frelimo — como frequentemente afirmam — talvez fosse mais produtivo usar esse tempo e essa visibilidade para apresentar propostas concretas para os problemas que realmente angustiam o País. Educação e saúde, por exemplo, encontram-se em estado crónico de fragilidade e, em muitos momentos, em verdadeiro colapso funcional. Jovens continuam à procura de habitação acessível, o desemprego permanece elevado e a mobilidade social parece cada vez mais distante para muitos. São temas que exigem debate sério, ideias inovadoras e contributos consistentes.
Em vez disso, não raras vezes, o debate digital acaba reduzido a ataques constantes ao Presidente do Anamola. E aqui reside uma ironia curiosa: a própria teoria da comunicação sobre os chamados efeitos contrários contesta a ideia de que a mídia possui um poder absoluto de moldar a opinião pública. Pelo contrário, repetir críticas incessantes sobre uma figura política, muitas vezes, produz o efeito inverso: aumenta a sua visibilidade, amplia a sua projecção pública e mantém o seu nome permanentemente na boca das pessoas. Ou seja, aquilo que deveria enfraquecer acaba, inadvertidamente, por fortalecer. Ou seja, é a própria Frelimo que acaba fortalecendo os seus opositores.
Enquanto o Presidente procura desenhar estratégias para reconciliar, incluir e reposicionar o Partido perante uma sociedade em transformação, certas posturas digitais acabam por inflamar debates, acender ressentimentos e desviar a atenção do que realmente importa: participação construtiva, inclusão e fortalecimento do contrato social. A ironia é subtil, mas evidente: a Frelimo tenta renovar-se diante de uma sociedade em mudança, enquanto algumas energias individuais, mesmo bem-intencionadas, podem inadvertidamente reforçar desafios internos.
A transformação geracional exige delicadeza e coordenação; o crescimento populacional exige respostas concretas; o combate ao crime organizado exige estratégia e autoridade. E, ainda assim, o que se vê nas redes nem sempre acompanha esse ritmo. Cada comentário inflamado, mesmo nascido de convicção, pode corroer lentamente a credibilidade de um projecto de renovação que depende da paciência e confiança da juventude.
O Presidente, ao enfatizar a transformação geracional, reconhece que a sociedade mudou. Os jovens de hoje são activos, informados e impacientes. Querem transparência, emprego e participação. Mas observam, às vezes incrédulos, posturas que transformam o espaço público numa arena de confronto permanente, quando a intenção poderia ser a de construir consenso.
Não se trata de censurar opiniões divergentes — isso faz parte da democracia — mas de reflectir sobre o impacto das palavras e sobre a utilidade das intervenções no espaço público. Num momento em que o País enfrenta desafios estruturais profundos, talvez o maior contributo dos militantes digitais fosse canalizar a sua energia para a construção de ideias, propostas e soluções que respondam às preocupações reais da sociedade.
É nesse ponto que a sátira se revela de forma elegante: a Frelimo proclama modernização e inclusão, mas cabe a todos os seus membros, mesmo aos mais críticos, alinhar energia pessoal com esforço colectivo. O contraste não poderia ser mais evidente: de um lado, políticas públicas e compromissos com o povo; do outro, entusiasmo individual que, sem cautela, pode tornar-se um obstáculo.
Com a sua energia e convicção, Alfazema oferece um lembrete valioso: mesmo boas intenções precisam de ser canalizadas de forma estratégica. O entusiasmo não é negativo, mas deve caminhar lado a lado com a visão de futuro do Partido. As palavras têm peso, os gestos têm efeito e, quando se quer transformar gerações, cada acção conta.
Até lá, o partido, os jovens e os analistas mais atentos continuam a reflectir sobre como alinhar convicções pessoais com a construção de um projecto colectivo que respeite gerações, promova diálogo e consolide o contrato social que a sociedade espera.



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