Pressão do Ruanda pode ser estratégia para legitimar desvio de receitas do gás para custear suas tropas

DESTAQUE POLÍTICA
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  • Alertam académicos moçambicanos

 Académicos defendem que o governo nunca tratou a crise do terrorismo com transparência ou responsabilidade, e que o ultimato ruandês evidencia esta falha. Além disso, alertam que a ameaça pode ser uma estratégia para forçar o Estado a financiar a operação, enquanto receitas do gás passariam a sustentar directamente a força militar estrangeira. Para estes, a ausência de clareza sobre os termos da parceria bilateral que abriu as portas para as RDF e a falta de um plano robusto para a reforma das Forças de Defesa e Segurança (FDS) deixaram o País numa posição de “indigência” política, onde a protecção de recursos estratégicos e de populações parece estar totalmente tercerizada.

Elísio Nuvunga e Luisa Muhambe

Para o sociólogo Elísio Macamo, a ameaça do Ruanda expõe uma realidade desconfortável de que  a soberania nacional foi delegada a interesses externos e Moçambique tornou-se um espectador passivo do seu próprio destino. Na sua visão, este episódio não é apenas um impasse financeiro, mas um sintoma grave da forma como o País tem gerido a sua soberania e a crise no norte.

“O Ruanda ameaçou a União Europeia, não o governo de Moçambique. Nós, os donos do país e beneficiários do apoio ruandês, não fazemos parte da conversa. Até hoje ninguém sabe – e duvido que os próprios membros do governo saibam, em que circunstâncias o Ruanda nos acudiu, porquê, a que preço e com que prazos”, disse.

Macamo critica a triangulação diplomática que exclui Maputo da decisão. Mais grave ainda, o secretismo que rodeia os acordos bilaterais entre Maputo e Kigali impediu que a sociedade moçambicana, e até o próprio parlamento, compreendesse os termos desta parceria.

“A segurança em Cabo Delgado tornou-se um assunto privado entre UE, Ruanda e TotalEnergies. O secretismo em torno dos acordos bilaterais impediu que a sociedade e o parlamento compreendessem os termos desta parceria”, refere, antes de questionar a narrativa de “solidariedade africana” evocada por Kigali desde a primeira hora.

“O Ruanda enfrenta os seus próprios desafios no Congo. Por que se sacrifica por nós? E o mais grave: nem o governo anterior nem o actual apresentaram um plano claro de reforma das nossas Forças de Defesa e Segurança. Não se sabe o impacto da formação fornecida pela UE.”

Macamo alerta que o problema central de Moçambique não é a falta de recursos, mas a ausência de responsabilização política.

“Nenhum ministro da Defesa, chefe do Estado-Maior ou comandante será responsabilizado se o exército não protege uma aldeia ou uma estrada. Entre resignação e indigência perante o Ruanda não vai uma grande distância”, criticou.

Para o investigador João Feijó, a ameaça ruandesa também funciona como pressão política e vê isso como um acto preparatório para se apoderar dos recursos estratégicos do País.

“Pode ser uma estratégia para obrigar o Estado moçambicano a financiar o Ruanda, usando futuras receitas do gás. Eles estão interessados em visibilidade, acesso a recursos naturais e na melhoria da sua imagem internacional. Não me parece que queiram sair”, projecta.

O investigador denuncia ainda a degradação sistémica da capacidade de defesa moçambicana, resultado de decisões políticas que desinvestiram nas Forças Armadas em favor do Ministério do Interior.

“O exército tornou-se um depósito de empregos para jovens sem vocação, enviados à guerrilha sem meios adequados. A cadeia de comando falha, não há coordenação com tropas no terreno, e negócios de guerra impedem auditoria e profissionalização”, sublinha.

Feijó acrescenta que, mesmo com progressos contra a insurgência, a falta de coordenação, o nepotismo e o fraco escrutínio tornam difícil consolidar a segurança.

“É preciso descentralização administrativa, económica, fiscal e política, garantir mérito na carreira militar e diversificar a economia. Sem isso, Moçambique continuará dependente de forças estrangeiras e incapaz de proteger aldeias, infra-estruturas e recursos estratégicos”, concluiu.

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