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- Delegações não recebem sequer um tostão, enquanto líder chafurda em luxos
- Delegações sem fundos enquanto presidente paga renda milionária em Maputo
- Momade não aceita ocupar o gabinete que era de Dhlakama, que se encontra na sede nacional do partido e a cair aos pedaços
- Enquanto Ossufo Momade continua a viver a francesa, Forquilha tem estatuto congelado
- De Janeiro a esta parte, aluguer custou cerca de 2,2 milhões de meticais
O presidente da Renamo, Ossufo Momade, continua a pagar cerca de 200 mil meticais mensais pelo arrendamento de um escritório luxuoso localizado na mesma avenida da sede nacional do partido, em Maputo. O imóvel, anteriormente financiado com fundos do Estatuto Especial do Líder do Segundo Partido com assento parlamentar, mantém-se como espaço de trabalho pessoal do dirigente, apesar de o benefício já não estar em vigor. Fontes internas denunciam que, enquanto Momade preserva o mesmo padrão de vida de quando ainda recebia apoio estatal, as delegações provinciais e distritais da Renamo enfrentam penúria, sem recursos para despesas básicas nem meios para desenvolver as suas actividades políticas.
Evidências
A Avenida Ahmed Sekou Touré, uma das artérias mais cosmopolitas de Maputo, é palco de um contraste silencioso, que sintetiza a crise de identidade que atravessa a Renamo. A poucas centenas de metros de distância, separados por uma curta caminhada, coexistem dois universos antagónicos de uma mesma ninhada.
De um lado, a sede histórica do partido, um edifício que respira a memória de Afonso Dhlakama, com o seu mobiliário envelhecido, paredes descascadas e um ar de abandono que espelha o desalento de muitos militantes. Do outro lado, num moderno edifício de vidro e betão, situa-se o escritório privado de Ossufo Momade, um espaço climatizado, luxuosamente mobilado e cujo arrendamento mensal ronda os 200.000 meticais – um custo suportado pelos cofres do partido.
Esta dicotomia física é mais do que uma mera questão logística; é o sintoma visível de uma fractura profunda no seio do maior partido da oposição de Moçambique. Enquanto a liderança se enclausura num oásis de conforto, as estruturas locais da Renamo, espalhadas do Rovuma ao Maputo, definham por falta de recursos, minando a capacidade de acção política e a própria razão de ser de um partido que se reclama representante dos desfavorecidos.
Ossufo Momade nunca se sentiu confortável no gabinete que foi, durante décadas, o centro de operações de Afonso Dhlakama. A sua relutância em ocupar aquele espaço, carregado de simbologia e história, foi interpretada por muitos antigos combatentes como uma rejeição do legado e do estilo de liderança mais de sacrifícios do que benefícios do fundador do partido.
“Dhlakama não precisava de luxo. O seu poder vinha do povo, não de uma cadeira cara”, recorda, com amargura, um veterano da guerrilha que acompanhou a trajectória do partido desde a sua fundação.
Por força do Estatuto Especial de Líder do Segundo Partido com assento parlamentar, Momade tinha direito a um Gabinete de Trabalho, apetrechado e com pessoal de apoio, tudo às expensas de fundos do Estado. E porque o Estado não tinha uma casa para alocar, a opção encontrada foi arrendar.
Porém, após as eleições de 2024, em que a Renamo perdeu copiosamente e foi empurrada para uma inédita terceira posição, Momade deixou de ser beneficiário desse estatuto, que, pelo menos no papel, transitou para Albino Forquilha, líder do PODEMOS.
Apesar de ter perdido o estatuto, a direção da Renamo optou por manter o escritório, continuando a arcar com os custos do arrendamento cuja factura mensal está estimada em cerca de 200.000 meticais mensais.
Ossufo Momade, para além do escritório oneroso, mantém o mesmo padrão de vida e as mesmas condições de conforto de quando ainda se beneficiava do referido estatuto especial, o que, inclusive, alimenta, no seio dos seus colegionários, sobretudo ex-guerrilheiros, rumores de que pode estar ainda a receber dinheiro da Frelimo fruto de um acordo secreto e prejudicial aos interesses do partido.
Sedes distritais e provinciais sem dinheiro para o seu funcionamento
Um membro sénior da Comissão Política, que falou sob anonimato, confirma a situação e lamenta o facto de o seu líder estar a esbanjar luxo na miséria, uma vez que o partido debate-se com problemas sérios para financiar as suas actividades e despesas de funcionamento das sedes das delegações provinciais e distritais.
Evidências ouviu alguns membros da perdiz ao nível de base que confirmaram que as delegações provinciais e distritais da Renamo já faz muito tempo que não recebem quaisquer fundos para o seu funcionamento, enfrentando dificuldades para custear despesas básicas e desenvolver actividades políticas no terreno.
“É um assunto que gera um mal-estar. Esse valor é debitado mensalmente das nossas contas, enquanto as delegações não têm dinheiro para o seu funcionamento. É moralmente insustentável”, disse.
Fazendo as contas, desde Janeiro de 2024, o partido já desembolsou aproximadamente 2,2 milhões de meticais apenas para manter o escritório privado do seu líder. Um valor que, nas palavras de um dirigente distrital de Sofala, “daria para reabilitar cinco sedes distritais e financiar campanhas de mobilização em todas as províncias do Centro”.
A discrepância entre o estilo de vida do líder, o luxo exacerbado do seu escritório e as condições das bases tem adensado ainda mais o descontentamento interno, num momento em que o partido tenta recompor-se após as tensões internas e preparar-se para os próximos desafios políticos.
Momade não aceita ocupar o Gabinete que era de Dhlakama
A sede central da Renamo na Avenida Ahmed Sekou Touré é hoje uma metáfora do estado do partido. O gabinete outrora ocupado por Dhlakama permanece quase como um museu em ruínas. As cadeiras estão gastas, as secretárias mostram sinais visíveis de deterioração e o ar no interior é pesado, carregado de um silêncio que fala mais alto que qualquer discurso.
“É doloroso vir aqui”, confessa um deputado da bancada parlamentar da Renamo. “Sinto que estamos a trair a memória daqueles que morreram por este partido. Dhlakama nunca permitiria que esta sede estivesse nestas condições enquanto se gastavam milhões num escritório privado”.
Este abandono não é apenas simbólico; tem consequências práticas directas. Várias fontes internas relataram ao Jornal Evidências que as delegações provinciais e distritais estão praticamente paralisadas por falta de fundos.
“Não recebemos nenhum apoio financeiro da estrutura nacional há meses”, queixa-se um coordenador distrital em Manica. “Como é que se faz oposição sem recursos? Estamos a ser estrangulados financeiramente pela nossa própria liderança”.
Albino Forquilha continua com estatuto congelado
Enquanto Ossufo Momade parece beneficiar-se de regalias a que já não tem direito, o legítimo detentor do Estatuto Especial de Líder do Segundo Partido com assento parlamentar, Albino Forquilha do PODEMOS, que, à boleia da popularidade de Venâncio Mondlane, conseguiu o feito inédito não só de entrar no parlamento, como também de desbancar a Renamo, ainda não viu materializarem-se os seus direitos, quase um ano após o início da nova legislatura.
De acordo com a Lei n.º 7/2019, Forquilha teria direito a um pacote de benefícios que inclui um subsídio mensal chorudo, viatura oficial, casa protocolar, gabinete com despesas cobertas, assistência medicamentosa para si e a sua família, direito a viajar em primeira classe, com acompanhantes e segurança pessoal permanente.
Recentemente, Albino Forquilha confirmou que ainda não se está a beneficiar do estatuto, lembrando, no entanto, que os direitos deviam ter sido imediatamente aplicados, logo que a nova Assembleia da República tomou posse.
“Quer dizer, considera-se que eu tomei posse no dia em que também a Assembleia da República tomou posse. Portanto, nas semanas seguintes devia-se implementar a lei. Devia ser de lei, não é um pedido. Houve algumas justificações que o Estado deu, e fui verificar que não é só o meu caso. Há outros quadros que também ainda não receberam os seus benefícios. Portanto, confirmo, ainda não comecei a receber isso, mas acredito que vai ser breve, porque o processo estou a acompanhar”, afirmou.
A não activação destes direitos, além de violar a lei, levanta suspeitas de manobras políticas para manter a influência de Ossufo Momade, já que membros do seu partido suspeitam que o Governo continue a pagá-lo clandestinamente.
Para além da questão do escritório, pesa sobre Ossufo Momade a acusação de manter a posse sobre a casa protocolar no bairro de Sommerschield, destinada ao líder do segundo maior partido, cargo que já não ocupa. Apesar de viver numa residência particular em Marracuene, consta que Momade nunca desocupou oficialmente a casa estatal, levantando sérias questões legais e éticas.
O estatuto, criado à imagem de Afonso Dhlakama como forma de o coartar, mas nunca aceitou, prevê a utilização desses bens somente durante o exercício das funções.
“Momade tornou-se aquilo que sempre criticámos”, diz um membro histórico do partido. “Vive numa bolha, rodeado de luxo, enquanto o partido definha. Estamos a perder militantes todos os dias, desiludidos com esta deriva”.
Outro dirigente provincial é ainda mais directo: “Se Dhlakama levantasse a cabeça, não acreditaria no que está a ver. A Renamo está a ser destruída por dentro, por aqueles que deviam defendê-la”.



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