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- Lula cumpre promessa a Daniel Chapo e regressa a Maputo
- Caminho comum que vai da segurança alimentar à defesa da democracia
- Lula apelou aos jovens para não desistirem de lutar
O avião presidencial brasileiro aterrou na pista do Aeroporto Internacional de Maputo, este domingo, trazendo a bordo mais do que um chefe de Estado. Trazia a materialização de uma promessa antiga, o reencontro de dois povos irmãos separados pelo oceano, mas unidos por histórias entrelaçadas. Quando Luiz Inácio Lula da Silva desceu as escadas do avião, sendo recebido pela Ministra dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, Maria dos Santos Lucas, em representação do seu homólogo Daniel Francisco Chapo, não era apenas um presidente que regressava a Moçambique após quase duas décadas, era o reatar de um diálogo que nunca deveria ter sido interrompido.
Evidências
Esta segunda-feira, Maputo acordou com ameaça de chuva miúda e com o ar diferente. Um misto de expectativa e nostalgia pairou sobre a capital moçambicana enquanto os dois líderes se preparavam para escrever um novo capítulo numa relação que completa 50 anos. O timing não poderia ser mais simbólico: 2025 marca o Jubileu de Ouro da Independência de Moçambique e celebra meio século de relações diplomáticas com o Brasil.
“Tenho um carinho muito grande por este país, e fiz questão de visitá-lo em todos os meus três mandatos como presidente”, confessou Lula, visivelmente emocionado ao regressar a Maputo, em resposta a um convite formulado por Daniel Chapo há duas semanas, durante a COP30. A afirmação, mais do que um mero protocolo diplomático, revelava a profundidade de uma ligação pessoal que agora se transforma em ponte entre duas nações.
No centro deste reencontro histórico estão nove acordos concretos que prometem redefinir a cooperação bilateral. Esses instrumentos, longe de serem meros documentos protocolares, representam uma abordagem pragmática e orientada a resultados.
Entre os mais significativos está o Ajuste Complementar para capacitar o Instituto de Aviação Civil de Moçambique, um sector vital para a conectividade e desenvolvimento económico do País. Paralelamente, a expansão do Centro Agro-Forestal de Mabalane, na Província de Gaza, que simboliza o compromisso com a segurança alimentar e o desenvolvimento rural. O reforço da Assistência Jurídica; o Programa de Desenvolvimento Integrado de Moçambique e um Memorando sobre Formação Diplomática são os outros instrumentos jurídicos assinados, com todos eles destinados a fortalecer instituições e sectores prioritários.
O Presidente da República, Daniel Chapo, que recebeu o seu homólogo na manhã desta segunda-feira, no seu gabinete de trabalho para as habituais honras militares, não escondeu o seu entusiasmo com o novo rumo da parceria:
“Decidimos concentrar-nos nas seguintes áreas: agricultura, transporte e logística, recursos minerais e energia, infra-estruturas, saúde e, principalmente, a exploração do gás”, frisou Chapo, desenhando um mapa claro das prioridades nacionais, onde a experiência brasileira pode fazer a diferença.
Quase 500 vagas para formação de moçambicanos no Brasil
O anúncio de 80 vagas para formação de formadores em ciências agrárias e 400 vagas em cursos técnicos para moçambicanos em 2026 representa a tradução prática dos acordos em oportunidades reais para cidadãos moçambicanos. Essa iniciativa, desenvolvida em parceria com a EMBRAPA, demonstra o entendimento brasileiro de que a verdadeira cooperação começa pela capacitação das pessoas.
“Ninguém melhor do que o Brasil para contribuir com a segurança alimentar de Moçambique. Com tecnologia adequada, é possível ampliar a produtividade da savana africana sem comprometer o meio ambiente”, afirmou Lula, destacando a sinergia natural entre as experiências agrícolas dos dois países.
No sector da saúde, a colaboração entre a Fundação Oswaldo Cruz, o Instituto Nacional de Saúde de Moçambique e a Agência Brasileira de Cooperação promete revolucionar áreas como o ensino, pesquisa e desenvolvimento tecnológico em saúde pública, uma herança da bem-sucedida cooperação sanitária que já existe entre as duas nações.
Para além dos números e dos acordos sectoriais, os dois estadistas destacaram o relançamento da cooperação entre os dois países, que partilham mais do que meros laços históricos e linguísticos.
“Moçambique e o Brasil partilham muito mais do que a Língua Portuguesa. Somos nações ligadas por trajectórias históricas que, apesar de marcadas por capítulos difíceis, floresceram em culturas vibrantes, em identidades resilientes e num profundo sentido de solidariedade humana”, disse Chapo.
Essas palavras ecoaram nos corredores do Palácio da Ponta Vermelha, onde os dois líderes partilharam não apenas visões de governação, mas também histórias pessoais de superação. Lula, visivelmente comovido, respondeu dizendo que os dois países estão a relançar “um relacionamento bilateral que precisam de elevar à sua mais alta prioridade”.
“Esta visita é especial, pois ocorre no marco da celebração dos 50 anos de independência de Moçambique”, afirmou, lembrando que o Brasil foi um dos primeiros países a reconhecer a independência em 1975.
Disse ainda que o Brasil “reencontrou Moçambique”, após períodos de afastamento, e que agora pretende consolidar essa relação.
O Chefe do Estado, por seu turno, agradeceu igualmente o apoio do Brasil face ao terrorismo e reafirmou a prioridade nacional da paz e estabilidade.
“Continuaremos a fazer tudo para que a paz, a segurança e a estabilidade voltem a reinar em todo o país”, disse, sublinhando que os 50 anos de cooperação representam “a renovação do espírito de irmandade entre os nossos dois povos”.
O apelo à democracia num mundo de convulsões
Num dos momentos mais poderosos da visita, Lula dirigiu-se a Chapo com uma mensagem que transcendia as fronteiras bilaterais: Hasteou a bandeira da democracia e desafiou Daniel Chapo a lutar por ela.
“Você vai ter que brigar com o mundo inteiro para garantir que o regime democrático prevaleça na Humanidade”, apelou, perante uma plateia de dignitários e jornalistas, transformando o momento num compromisso partilhado.
Como que a sublinhar a urgência desse chamamento, o Presidente brasileiro repetiu como um mantra de esperança: “Nós queremos liberdade, liberdade, liberdade, tolerância, tolerância, harmonia e harmonia, porque só assim a gente vai atender aos interesses do nosso povo e a democracia vai vencer”.
“O Presidente Chapo tem diante de si a tarefa de conduzir este belíssimo país pelo caminho da paz, investindo no fortalecimento da democracia moçambicana”, afirmou.
“A fome não é falta de comida, é falta de justiça. É o resultado de decisões políticas equivocadas”
Um dos momentos mais simólicos da visita de Lula a Moçambique foi a outorga do título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Pedagógica de Maputo em ciência política, desenvolvimento e cooperação internacional.
Trata-se de uma distinção que celebra não apenas a trajectória do líder brasileiro, mas também o seu compromisso consistente com a educação como pilar do desenvolvimento. Após a distinção, Lula fez valer a sua veia crítica, de sindicalista e de proximidade com as massas para, num discurso emocionado, clamar por justiça.
Aliás, diga-se em abono da verdade, o presidente brasileiro transformou a cerimónia académica num manifesto pela justiça social, desafiando as novas gerações a não desistirem da política e da luta por um mundo mais igualitário
Num momento que transcendia a mera formalidade académica, o Presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva olhou para os milhares de jovens presentes no auditório da Universidade Pedagógica de Maputo e lançou um desafio que ecoaria muito além das paredes da instituição.
“Quando vocês acharem que todo mundo é corrupto, ainda assim, pelo amor de Deus, não desistam, porque o político decente está dentro de vocês e não dentro dos outros”, desafiou.
Lula desmontou meticulosamente um dos maiores paradoxos do nosso tempo: “O mundo produz alimento suficiente para dois tantos de gente que tem no mundo comer e qual é a explicação de ter 700 milhões de pessoas passando fome? Isso não é a falta de vergonha na cara de quem governa o mundo?”
A sua análise foi além da crítica superficial para apontar as raízes estruturais do problema: “A fome não é falta de comida, é falta de justiça. É o resultado de decisões políticas equivocadas, de desigualdades históricas, de sistemas económicos que concentram renda e oportunidade”.
Essas palavras, proferidas perante o Presidente moçambicano Daniel Chapo e uma plateia que incluía académicos, líderes governamentais e representantes da sociedade civil, representavam não apenas um diagnóstico, mas um chamamento à acção.
“Não podemos aceitar que o povo pobre seja tratado como se fosse indivíduo, nós não somos indivíduos, queremos ser tratados com respeito”, afirmou, elevando a voz num tom que misturava indignação e esperança.
O Director da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, Bernardino Feliciano, justificou a outorga do título reconhecendo “a liderança política contemporânea de Lula da Silva, através do seu impacto académico, ético e civilizacional”.
A cerimónia marcou o culminar de uma visita de dois dias que teve como pano de fundo a celebração dos 50 anos de relações diplomáticas entre Brasil e Moçambique e o Jubileu de Ouro da independência moçambicana.



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