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- Mudam-se os tempos e mudam-se as vontades
- Suspeita-se que novo lobby esteja por detrás mudança de frota
Após anos de domínio da Mahindra por cerca de 10 anos, sob forte influência de interesses próximos ao ex-Presidente da República, Filipe Nyusi, a Polícia da República de Moçambique (PRM) parece estar a regressar para modelos clássicos como o Toyota Land Cruiser Série 70, popularmente conhecido como “HZ” e os ligeiros da Hyundai, marcas que marcaram presença na corporação durante os consulados de Joaquim Chissano e Armando Guebuza.
Evidências
A Polícia da República de Moçambique (PRM) prepara-se para renovar a sua frota automóvel num movimento que sinaliza mais do que uma simples opção logística, pois representa uma alteração no equilíbrio de forças entre os grupos de interesse que, há décadas, disputam os lucrativos contratos de fornecimento de viaturas ao Estado moçambicano.
A decisão de substituir os modelos Mahindra, considerados mais acessíveis, pelos clássicos Toyota Land Cruiser Série 70, popularmente conhecidos como “HZ”, vendidos a um preço mais alto, marca o fim de um ciclo de domínio da marca indiana, cuja penetração no aparelho de segurança do Estado, e não só, esteve associada a alegadas operações de lobby junto do anterior Presidente da República, Filipe Nyusi.
Na semana passada, a mudança de ciclo saiu do papel e tomou conta das estradas que ligam o porto da Matola aos quartéis da PRM na capital. Colunas de viaturas de reboque foram avistadas transportando dezenas de unidades novas, já ostentando as cores e a caracterização oficial da corporação. As imagens, que circularam rapidamente nas redes sociais e em grupos de aplicações de mensagens, mostram um fluxo contínuo de viaturas Toyota Land Cruiser “HZ” todas com a insígnia da PRM visível nas portas dianteiras.
A operação, segundo as mesmas fontes, foi conduzida com discrição, mas a dimensão do carregamento tornou impossível passar despercebida. Até ao momento, a PRM não se pronunciou publicamente sobre esta aquisição de meios operativos.
O regresso dos Toyota HZ à frota policial não é apenas uma escolha técnica baseada na reconhecida durabilidade e robustez do modelo para o trabalho em território acidentado. É, acima de tudo, a expressão visível de uma reconfiguração nas redes de influência e lobby que controlam o fornecimento de bens e serviços ao Estado, um negócio que movimenta centenas de milhões de meticais anualmente e que constitui um dos pilares da economia política moçambicana.
Quando comparadas com os modelos Mahindra utilizados pela PRM, os HZ, conhecidos pela sua extraordinária durabilidade em terrenos africanos, exibem preços unitários substancialmente mais elevados. Dados recentes em Moçambique apontam para valores médios que rondam entre os MZN 3,3 milhões e mais de MZN 6,4 milhões, dependendo do ano, estado e especificação.
Em comparação, estimativas de mercado para veículos da Mahindra sugerem preços unitários inferiores, reflectindo menor custo inicial, porém com custos operacionais e de manutenção potencialmente mais elevados.
Entretanto, a entrada e permanência da Mahindra na frota da PRM durante o consulado de Filipe Nyusi não foi mero acaso e nem obedeceu a critérios técnicos. Fontes com conhecimento do processo de aquisições públicas indicam que a marca indiana beneficiou-se de um contexto alavancado por intermediários locais com acesso privilegiado às esferas de decisão.
Entrada de novas vontades?
Com a transição presidencial e a ascensão de Daniel Chapo ao poder, assiste-se a uma recomposição das alianças económicas que sustentam o aparelho de Estado. A decisão de reintroduzir o Toyota Land Cruiser “HZ” como viatura oficial da PRM é interpretada por analistas como o triunfo de um novo lobby, desta feita associado à histórica presença da marca nipónica no país e aos interesses que sempre gravitaram em torno da sua distribuição.
O sector de fornecimento de viaturas em Moçambique, especialmente para as forças de defesa e segurança, é historicamente marcado pela convergência entre interesses de elites políticas do partido Frelimo e grandes grupos empresariais. Embora o fornecimento oficial seja actualmente gerido pela CFAO Mobility (Toyota Moçambique) que em 2021 se tornou o distribuidor exclusivo da marca no país, artigos jornalísticos e relatórios de transparência apontam para mecanismos de lobby e ligações políticas que persistem no sector.
A estrutura de fornecimento da Toyota em Moçambique passou por uma mudança radical em 2021, quando o grupo francês CFAO Mobility (detido pela japonesa Toyota Tsusho) adquiriu os activos de distribuição da Toyota e Hino que pertenciam ao histórico Grupo Entreposto. Esta aquisição, embora formalmente um negócio entre multinacionais, não eliminou a necessidade de articulação com os actores locais que dominam a intermediação com o Estado.
O Grupo Entreposto, através da Companhia de Moçambique, S.A., foi o principal fornecedor da PRM durante décadas, antes de ser preterido pela Mahindra. Presente no mercado moçambicano há mais de 40 anos, o grupo sempre esteve ligado à elite económica portuguesa e moçambicana de “velha guarda”, com ramificações que penetravam profundamente nos círculos de poder .
Após a venda da marca Toyota à CFAO em 2021, o grupo reinventou-se, mantendo-se relevante no fornecimento de viaturas de outras marcas (como a Isuzu) e na prestação de assistência técnica às frotas estatais já existentes.
O regresso da Hyundai
Antes do regresso dos Toyota HZ, a PRM tinha dado sinais de ruptura com a Mahindra, quando, no ano passado, adquiriu viaturas ligeiras da marca Hyundai, que foram bastante populares e usadas durante o consulado de Armando Guebuza.
A Hyundai, tal como a Toyota, possui uma longa história de fornecimento ao Estado moçambicano, e o seu regresso à frota policial pode ser interpretado como uma tentativa de diversificar fornecedores, mas também como a reactivação de antigas redes de influência que permaneceram adormecidas durante o ciclo Nyusi.
Durante a era Guebuza, os modelos Hyundai circulavam profusamente nas fileiras da PRM, e o seu fornecimento estava associado a intermediários locais com ligações comprovadas ao poder político da época.
O reaparecimento da marca sul-coreana nos contratos actuais sugere que os lobbies não são mutuamente exclusivos e que, num contexto de mudança de ciclo político, várias forças procuram reposicionar-se para garantir uma fatia do negócio.



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