TotalEnergies está, aos poucos, a tornar-se “dona de tudo isto”

ECONOMIA
  • Depois de comprar a BP, agora está atenta na joint venture Petromoc-Sasol     
  • A multinacional tem privilegiado compra de empresas em processo de desinvestimento no País

A francesa Total existe no país há vários anos, no entanto, de simples gasolineira, viu a sua posição crescer significativamente no mercado em 2019, quando comprou a participação da americana Anadarko no negócio de gás de Rovuma na área 1, colocando-se como líder do projecto Mozambique LNG, e agora prossegue numa busca implacável pelo controlo de combustíveis, em todas as cadeias, em Moçambique. Depois da compra de investimentos da British Petroleum (BP), o que aumentou a cota da multinacional francesa no negócio de retalho, a gigante francesa tenta uma aquisição da joint venture Petromoc-Sasol, e mais recentemente tornou-se importador de combustíveis nos próximos três meses do ano em curso. Isso coloca a TotalEnergies em posição para controlo total de todos combustíveis em Moçambique. A Anadarko, BP e Sasol estão num processo de reduzir ou desinvestir em Moçambique. O percurso da Total vislumbra a ambição de um país que está no meio das fortes relações entre Moçambique e Ruanda, uma amizade que coloca o controlo da maior riqueza do País na mão de franceses, a segurança na mão de ruandeses e Moçambique apenas com a terra e seus políticos vulneráveis a acordos debaixo da mesa.

Nelson Mucandze

Com a crise energética na Europa, precipitada pelas sanções à Rússia, o maior fornecedor de petróleo e gás naquele continente reduziu as opções dos europeus e a África emerge como fonte possível de abastecimento.

Mas é bem antes da guerra da Rússia e Ucrânia que o “domínio” francês vem acelerando sua penetração em toda cadeia de Oil & Gas e combustíveis a retalho em Moçambique. É que a TotalEnergies conseguiu em menos de três anos controlar e liderar todas as cadeias de produção (?), importação, comercialização e assumir um papel determinante no combate ao terrorismo que atenta contra a exploração da ambiciosa riqueza do país, o Projecto de Gás Natural Liquefeito de Moçambique.

Este percurso coincide com a saída, da área, dos players que vinham operando há décadas no mercado nacional, mas que por alguma razão optaram por desinvestir na área energética.

O desinvestimento acelerado da americana Anadarko, que decidiu vender seus activos à francesa TotalEnrgies na África, concretamente em Moçambique, Argélia, Gana e África do Sul, a um custo 8,8 bilhões de dólares, marcou o reposicionamento do novo player de combustíveis no país.

Dos 8,8 bilhões de dólares para compra de activos nos quatro países africanos, 3,9 bilhões foram para aquisição da participação de 26,5 por cento detida pela Anadarko no projecto Mozambique LNG, um investimento que superou, de longe, os activos nos outros três países.

A americana Anadarko vendeu na totalidade sua participação à francesa Total, criada em 1924, com o nome de Companhia Francesa de Petróleos (CFP), com participação mista privada e do Estado francês. O negócio foi efectivado em finais de 2019, em meio a relatos de insurgência em Cabo Delgado, e o Estado moçambicano facturou em mais valia 880 milhões de dólares.

Na altura, a perspectiva da TotalEnergies, que ambiciona se tornar um dos “principais activos petrolíferos” no país, era de que com aquisição de activos do LNG teria um fluxo de caixa livre positivo a partir de 2020, a um preço do Brent (uma classificação de petróleo cru) inferior a 50 $/b e gerar mais de 1 bilhão de dólares/ano de fluxo de caixa livre a partir de 2025 após o início de Moçambique LNG.

São projeções feitas em meio a insurgência confirmada em Cabo Delgado, que só veio a ser ameaça séria ao projecto em Março de 2021, com o ataque à vila sede de Palma, a menos de 25 quilómetros de Afungi, anulando da agenda a previsão do arranque de produção em 2024/25.

TotalEnergies, o segundo maior interveniente de GNL do mundo, “é qualificada de forma única para garantir que o Projecto Mozambique LNG ajude a responder à crescente procura mundial de fontes de energia sustentável, confiável ​​e limpa”, lê-se no documento que anunciava a aquisição.

Na semana passada, o embaixador cessante da União Europeia em Moçambique defendeu que o gás natural de Cabo Delgado está entre as alternativas no plano da Europa de diversificar fontes de energia face às limitações provocadas pela invasão russa da Ucrânia, o que serve de estímulo para a francesa acelerar sua presença num mercado que está cada vez mais sozinha.

“O gás de Moçambique, com a presença de grandes companhias multinacionais europeias, tem agora um valor ainda mais importante e estratégico”, declarou Sánchez-Benedito Gaspar, durante a despedida do país.

Moçambique dispõe de reservas comprovadas de mais de 180 triliões de pés cúbicos, segundo dados do Ministério dos Recursos Minerais e Energia.

Um passo a mais fora do LNG

Coincide que ao mesmo tempo que lidera o projecto de Mozambique LNG, um investimento de 23 mil milhões de dólares, decidiu expandir a sua abrangência no mercado de combustíveis ao comprar a rede de retalho, negócio grossista de combustíveis e activos logísticos da British Petroleum(BP) PLC em Moçambique, elevando a sua cota no mercado de 11,48 % para 19,5%, dando a esta multinacional uma posição de líder no mercado deste segmento.

Foi um negócio que decorreu longe de olhos curiosos que permitiu à francesa Total passar a ser proprietária da estratégica Samcol, antiga joint venture 50-50 entre ela e a BP, que geria as terminais oceânicas em Maputo, Beira e Nacala. A confirmação do negócio fechado em 2020 veio a ser feita em 2022, com omissão do que terá sido em mais valias que o Governo confirmou ter encaixado.

Além da Samcol, a transacção abrangeu uma rede de 26 postos de abastecimento de combustíveis e uma carteira de clientes empresariais. A Samcol foi criada pelas duas empresas, a Total e BP, para gerir a recensão dos combustíveis.

Neste momento, a BP em Moçambique ficou apenas com aviação. Há quem especule que o negócio de aviação, o menos lucrativo de todos os investimentos da BP, serve apenas para manter a sua licença em Moçambique.

À luz do contracto entre as partes, os trabalhadores foram também para o novo dono dos investimentos da BP, com garantia de apenas um ano de trabalho, e findo este período, a sua continuidade dependeria da boa vontade da Total.

O Evidências apurou que a intenção da BP de sair de Moçambique não era recente, apenas agudizou-se depois que o gigantesco de gás encabeçou o projecto do norte de Moçambique.

“A TotalEnergies reforça a sua posição como o principal retalhista de produtos petrolíferos no país”, afirmou a empresa, depois que foi consumada a compra, em comunicado partilhado em fevereiro desde ano.

Petromoc-Sasol na mira da Total?

Ainda no segmento de combustíveis a retalho, consta que a TotalEnergies já manifestou interesse na aquisição da joint venture Petromoc-Sasol. A manifestação coincide com o processo em curso de desinvestimento da Sasol que decidiu recentemente vender parte das suas participações em Moçambique.

A Sasol está num processo de desinvestimento em Moçambique e não só no mercado de retalho. Em Junho passado, anunciou a conclusão da venda de 30%, dos 50% que detém no oleoduto de gás natural entre Moçambique e a África do Sul.

É uma ligação de 865 quilómetros que passa para a subsidiária da CEF SOC Limited (CEF), juntamente com a Companhia Moçambicana de Gasoduto (CMG), subsidiária da Empresa Nacional de Hidrocarbonetos, EP (ENH), anunciaram que exerceram seus direitos de preferência para adquirir a participação de 30% no pipeline da ROMPCO (Republicof Mozambique Pipeline Investiment Co.)

Os governos da África do Sul e de Moçambique detêm cada um 25% da Rompco através de empresas estatais.

Uma ambição ameaçada pela insurgência?

Enquanto regista-se desinvestimento de outras multinacionais, a Total prospera, apesar do terrorismo que ameaça o terreno do maior investimento da empresa. A insurgência em Moçambique começou em 2017, bem antes de a Total ser um dos players em Cabo Delgado, até aquele momento, o discurso triunfalista das autoridades nacionais era suficiente para confortar a empresa.

No entanto, em Março de 2021, quando os ataques ocorreram perto das suas instalações, em Afungi, distrito de Palma, a empresa suspendeu as actividades, afirmando que só voltaria com garantias de segurança. No terreno, os terroristas faziam frente às Forças de Defesa e Segurança (FDS), mas nem com isso as autoridades moçambicanas mostravam qualquer abertura para aceitar ajuda estrangeira, embora os terroristas ocupassem territórios.

Mas a saída da Total pressionou o Governo a admitir intervenção externa, depois de muitos meses de clara negação. As primeiras botas estrangeiras vieram do Ruanda, um país que tem fortes relações com a França e que passou a ser um parceiro estratégico de Moçambique para restabelecimento de autoridade de Estado em alguns distritos que se encontravam sob domínio dos terroristas.

Embora nem a França e muito menos o Ruanda aceitem, várias agências de inteligência globais acreditam que a intervenção ruandesa é às expensas dos franceses.

Os primeiros dias da presença dos militares ruandeses, que de mil passaram para dois mil, foram de “muitas vitórias”, com regulares comunicados a anunciarem sucesso da missão, mas passado um ano, que se completou no dia 9 de Julho em curso, as incursões terroristas voltaram a ganhar novos focos, o que deve ter pesado para prorrogação da missão de Ruanda, que agora não tem previsão do fim.

As forças regionais que também se encontram no terreno viram seu protagonismo abafado pelas campanhas mediáticas que destacavam o empenho inquestionável dos militares ruandeses.

As autoridades dos três países já anunciaram que a “generosidade” de Ruanda para ajudar no combate a insurgência está enraizada em acordos bilaterais entre Maputo e Kigali, negando assim uma guerra por procuração da França, um discurso que não é absorvido pela sociedade crítica, que não acredita em almoços grátis.

Com total controlo de toda a cadeia

Do líder do LNG, negócio a retalho para agora importador de combustíveis nos próximos três meses. No passado dia 18 do mês em curso, a Importadora Moçambicana de Petróleos (IMOPETRO) anunciou que a partir de Agosto, a Totsa, subsidiária da empresa francesa TotalEnergies, passa a importar os combustíveis em substituição da Independent Petroleum Group(IPG), do Kuwait, cujo contrato vigorou de Janeiro a Junho do ano em curso e não conseguiu renovar.

Aos olhos da IMOPETRO, a Totsa destacou-se no último concurso, com referência de IMOPETRO/CACL/01/2022, ao propor menor preço para fornecimento de 575 000 Toneladas Métricas (TM) de produtos petrolíferos refinados para os portos de Maputo, Beira, Nacala e Pemba.

De acordo com os resultados do último concurso, a média do prémio (conjunto de frete marítimo, seguro, entre outros aspectos), para a importação das cinco propostas feitas pelas empresas concorrentes é de 180,30 USD por Tonelada Métrica (TM), contra uma média de 44.93 USD porTM do último concurso realizado em finais de 2021 e ganho pela referida IPG em que sete empresas apresentaram propostas.

O facto curioso desse percurso é que não se questiona as implicações de ter uma única companhia estrangeira com o poder de influenciar nas questões de segurança, a dominar a produção, venda e importação de energia.

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