Por uma maior participação económica da mulher – algumas lições para os homens

OPINIÃO

Por: Edgar Barroso

Por que é extremamente importante empoderar economicamente as mulheres, especialmente em países como o nosso? Em que aspecto isso pode ajudar as próprias mulheres e o próprio país, no seu todo? E como nós, homens, na condição privilegiada de homem que somos, devemos enriquecer as fileiras das mulheres e contribuir para que esta causa da sua inclusão económica se reforce nos debates que vamos travando sobre os assuntos de interesse nacional na esfera pública moçambicana?

Estas são questões muito pertinentes quando se quer ter as mulheres a participar devidamente na economia de Moçambique. Sobretudo por causa do impacto estrutural de preconceitos profundamente enraizados na nossa sociedade, tais como a percepção generalizada, segundo a qual o “trabalho natural” das mulheres é o de ser dona-de-casa e de cuidar dos filhos, enquanto o “trabalho natural” dos homens é o de sustentar financeira e materialmente o lar. Muitas vezes, quase ninguém fala que essa “divisão natural do trabalho” entre as mulheres e os homens é apenas mais uma construção social que pode ser refeita e com benefícios evidentes para ambas as partes.

Não deve ser novidade para ninguém que, historicamente, as mulheres têm sido discriminadas no acesso a oportunidades, recursos ou trabalho. O que pouca gente sabe é que a igualdade entre os homens e as mulheres é um direito humano fundamental. Em Moçambique, a própria Constituição da República reconhece e reforça esse direito. No entanto, o que ainda se vê no país é uma divisão desproporcional, em que a participação económica das mulheres ainda é insignificante. Este facto tem implicações sérias quando se fala, por exemplo, do combate à pobreza como sendo um dos maiores desafios para o desenvolvimento do país. Por causa da sua posição desvantajosa no acesso a recursos financeiros ou a oportunidades laborais, as mulheres são as mais afectadas pela pobreza; ter mais mulheres na pobreza é, consequentemente, um entrave para o desenvolvimento de Moçambique. Mulheres sem dinheiro ou sem trabalho têm muito menos poder de compra e, por conseguinte, menos acesso a cuidados de saúde, à alimentação de qualidade ou a oportunidades de educação. Esse cenário fica muito mais sombrio quando essas mesmas mulheres sem fontes de rendimento têm a seu cargo crianças (homens e mulheres). Ter mulheres pobres e em situação de vulnerabilidade como as supracitadas implica ter, consequentemente, crianças (homens e mulheres) pobres e em situação de igual ou pior vulnerabilidade.

As mulheres precisam de estar devidamente incluídas e a participar activamente na economia do país, se quisermos colocar o país em outros patamares de desenvolvimento. Para tal, elas deverão ter como principais aliados os homens. Estes devem perceber que mulheres com estabilidade financeira são uma mais-valia para que a responsabilidade masculina como provedor do lar seja partilhada e mais relaxada, por exemplo. Ter cada vez mais homens que compreendem a importância de se garantir a igualdade de oportunidades e de direitos para todos sem discriminação do género – e a advogar por uma maior inclusão e participação económica da mulher – é extremamente importante e decisivo.

É preciso não só colocar mais homens a lutarem contra a marginalização ou contra a subordinação económica da mulher, como também incentivá-las a conquistar o seu devido espaço na economia do lar e, numa escala maior, na economia do próprio país. Um dos melhores instrumentos para aí se chegar é a educação. Ter mulheres massivamente formadas e devidamente informadas sobre a importância que elas têm na economia do lar e do país é fundamental. Para tal, é necessário que se abram espaços para que as mulheres ocupem o seu merecido lugar; primeiro, na escola e, depois, no trabalho ou em actividades financeiramente rentáveis. Ter mulheres que se vejam valorizadas e incentivadas a participar activamente nesses espaços é um importante passo para que o seu contributo aumente a força laboral disponível e acelere os esforços de desenvolvimento do país.

Outro elemento determinante que as mulheres precisam para assumir uma posição de liderança nos processos que influenciam positivamente a sua inclusão e participação económica é a sua devida representação nos órgãos políticos de tomada de decisão a todos os níveis. Não pode haver participação económica da mulher sem participação política da mulher. Dito por outras palavras, é imperioso que haja cada vez mais mulheres em cargos de tomada de decisão – no governo, no sector privado, nas organizações não-governamentais, no parlamento ou nos órgãos de administração da justiça, por exemplo – que, também com perspectivas femininas, determinem sobre o que é mais importante para que as mulheres atinjam a liberdade ou autonomia financeira. Só assim é que os seus legítimos interesses e necessidades poderão ser devidamente abordados e salvaguardados, sem a indesejada intervenção ou interferência masculina de sempre.

Para terminar, creio que, nesses esforços para uma maior inclusão e participação económica da mulher, a principal lição para os homens como eu é a de reconhecer a sua condição privilegiada, estrutural e individualmente, e começarem a ser os aliados naturais que as mulheres precisam. Se a nível estrutural as coisas nem sempre poderão depender de nós – como, por exemplo, garantir um maior acesso das mulheres a iniciativas e/ou oportunidades de financiamento ou de inserção profissional –, a nível individual, o apoio pode começar mesmo em casa: com a esposa ou namorada, com a mãe ou as irmãs, com as filhas ou sobrinhas… Podemos sempre estimular o seu espírito criativo e empreendedor, apoiando financeira e materialmente a sua formação e/ou os seus projectos de geração de riqueza. Só mudando mentalidades retrógradas e lutando contra estereótipos discriminatórios é que podemos, como homens, assumir um papel de vanguarda nos processos de emancipação económica da mulher. Só assim é que os ganhos desse desiderato serão imensuráveis para a nossa economia doméstica e, em escala, para a economia do país.

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