Afonso Almeida Brandão
Nos dois últimos anos (sem que nada o fizesse prever) tem-se assistido a um retrocesso concreto de um fenómeno que tinha vindo a aumentar consistentemente até então e que era consensualmente aceite como uma verdade absoluta: a Globalização, isto é, a livre circulação de pessoas, de bens e serviços e a expansão do comércio internacional.
O que era para nós impensável há alguns anos afigura-se agora como muito provável e já não apenas como uma mera hipótese: o declínio do conceito de Globalização, ou a sua conversão em algo mais adaptado, sendo uma síntese do momento presente com a tese e antítese personificadas por um Mundo Rural e cosmopolita, respectivamente, a que aqui chamarei, por falta de melhor termo, de “continentalização”.
A “continentalização”, como eu a defino aqui, caracteriza-se sobretudo por uma proeminência e prevalência das trocas comerciais, privilegiando os transportes terrestres entre os vários países/regiões existente nos diversos continentes e uma cooperação económica política inter-regional sólida, mas também um maior fortalecimento dos países próximos entre si, com o foco na auto-subsistência da qual a UE se encontra num estágio avançado e até mesmo privilegiado face a outras geografias que serão obrigadas a adquirir posições semelhantes e a fazer este caminho, dado que o mundo pós-pandémico será bastante diferente do que aquele que deixámos em 2019 e onde o local onde os produtos e serviços eram produzidos não era relevante.
Deixo aqui um resumo de algumas tendências que contribuirão, no médio e longo prazo, e que irão acelerar, em menor ou maior grau, este resultado e a que deveremos estar atentos.
1) — O compromisso político e a promessa mais ou menos consensual e assumida de reindustrialização do tecido empresarial da Europa e EUA e a redução da externalização de produtos e serviços de países como a China e outros mercados de origem, de mão-de-obra barata.
2) — A tensão entre as relações, até agora mais ou menos amistosas, dos EUA e Rússia, reavivando a memória daqueles que viveram com a ameaça constante da bomba nuclear “pairando sobre as suas cabeças” na guerra fria e, não menos importante, a tensão ainda presente da guerra comercial entre China e EUA na era Trump, que têm oposto fornecedores e clientes.
3) — O olhar agudizado com suspeição para outros povos, sobretudo pela questão dos refugiados, que naturalmente coloca grandes entraves à salutar cooperação internacional.
4) — “A corrida” a novas tecnologias emergentes, disruptivas da terceira plataforma digital por parte dos governos, como o são a Inteligência Artificial e a Robótica, que acentuam as suas diferenças e as colocam num clima de competição cerrada que enforma a já complexa rede e o xadrez internacional existente, do qual a já referida diplomacia conturbada a que se assiste entre os diferentes blocos é apenas um sintoma.
5) — A noção de sustentabilidade e de preservação da natureza, que são hoje palavras de ordem de uma perspectiva estrutural e continuada no tempo, que contribuirá (pelo menos enquanto não houverem fontes alternativas de energia) à redução da massificação da aviação, dado que este discurso é inconciliável com o momento de extracção de recursos existente imediatamente antes da Pandemia e a agenda da sustentabilidade.
6) — O Covid 19 e todos os constrangimentos que este vírus criou à mobilidade e ao desenvolvimento económico dos países, mas, ainda mais pernicioso, a consciência que as pessoas adquiriram que os seus efeitos brutais só foram possíveis devido ao Mundo estar numa fase avançada de Globalização e, se tal não fosse, a disseminação deste vírus seria mais facilmente contida.
7) — A Guerra na Ucrânia, que já contribuiu para pôr em “stand by” projectos geoestratégicos, tais como o “Belt and Road”, impulsionado e promovido pela China, obrigando, assim, a reconfigurar estratégias das potências mundiais e repensando, assim, a forma como a maioria dos países e culturas se relacionam entre si, quer a um nível de comércio, quer a um nível de trocas simbólicas e culturais, e inaugurando uma nova desconfiança, assim como evidenciando e vincando as assimetrias.
8) — E, por último, mas não menos importante e de uma forma caricata e até diria anedótica (se as suas consequências não fossem trágicas, no curto médio prazo), o encalhamento do navio cargueiro “Evergreen” num porto comercial por excelência, o Canal do Suez, e que colocou pressão sobre as cadeias de distribuição a nível Mundial.
Todos estes fenómenos citados precipitam, mas também são o prenúncio deste desfecho que está em marcha.
Nesta breve contextualização percebe-se que os Continentes têm de ser auto-suficientes entre si devido a todos estes constrangimentos, não necessitando de trocas comerciais tão distantes, mas antes expandindo o seu Mercado Interno, já não entendido como países mas sim como regiões, e observando dentro da suas zonas limítrofes quais as áreas mais preparadas e com melhores recursos para determinadas actividades, numa mudança de paradigma da gestão dos territórios tra(du)zida por uma maior consciencialização da nossa ligação enquanto espécie ao meio envolvente e, portanto, a um respeito pela natureza, mas, também e em concreto, a uma forma mais autónoma e acima de tudo soberana de gerir recursos, sem comprometer a qualidade de vida de todos aqueles que dependem deles.
A impossibilidade de mobilidade e, sobretudo, ideologias a que se tem ao longo destes 36 meses assistido e as dificuldades que neste tempo têm surgido com argumentos dignos de “Hollywood” têm precipitado decisões, que levariam a tomar décadas, em meras semanas de intervalo e, sobretudo, apontam claramente para que tudo isso seja o que irá marcar, estou certo, a teoria e a prática da diplomacia económica e do comércio internacional nos próximos anos. Algumas delas já se assumem e desenham claramente, ainda que as suas linhas para muitos ainda sejam difusas e de difícil interpretação, sobretudo aqueles excessivamente arraigados a um mundo antigo e que tinha outras premissas na sua concepção e mundividência, não reconhecendo que este já não existe mais.
Estejamos, pois, muito atentos e comecemos a agir em conformidade, para que o amanhã que já é hoje não chegue e nos apanhe de sobressalto e mal preparados para a mudança, que cedo ou tarde nos chegará e romperá com estrondo a nossa confortável e por vezes arrogante forma de conceber e olhar o Mundo.

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