Alexandre Chiure
Caríssimo amigo
Espero que estejas a gozar de boa saúde e que a tua tensão esteja controlada, apesar de os incidentes provocados por alguns dos nossos em comum, amigos mal comportados, nas eleições internas, que tiveste que gerir terem te deixado agitado.
É verdade que é difícil de evitar ficar stressado com tantos problemas que se levantam no quotidiano, mas tens que te cuidar. A tua idade é delicada. Aos 62 anos, recomenda-se muita calma e nada de nervosismo. Tu sabes que uma pessoa da tua faixa etária (62 anos) vive praticamente de comprimidos e para os técnicos de estatísticas, estás no fim da estrada. Afinal, a esperança de vida é de 60,2 anos.
Espero que não te irrites comigo. Relaxas. Essa não é minha intenção. Mas, como amigo, não podia ficar calado ou deixar de exprimir preocupação por tudo que aconteceu nas eleições internas. Meu kota, desculpa qualquer coisa, mas ficaste irreconhecível neste processo. Custou-me acreditar que se tratava da mesma Frelimo que eu conheço. A Frelimo de Mondlane, Samora, Chissano e Guebuza.
A minha primeira preocupação é que já não respeitas as vontades das bases. Os candidatos são escolhidos a nível central e impostos a alguns círculos eleitorais. É o que se viu em relação a cabeças-de-lista para as Assembleias Provinciais. Desde as coisas são feitas desta forma? Pelo menos eu não te conheço assim. Estás a assustar-me.
Será que tens ideia da gravidade disso? Não parece. E ainda dizes que és democrata. Assim ninguém mais vai acreditar em ti, no teu papo e com muita razão. Isso não é democracia, mas antidemocracia.
Primeiro, reconduziste os governadores. Frustraste as expectativas de alguns militantes que pretendiam concorrer para o posto. Depois resolveste premiar lambe-botas, ao colocar seus nomes em posições confortáveis nas listas de candidatos a deputados em círculos eleitorais como Zambézia e Nampula a que não pertencem.
O que é que se pode esperar de um deputado que não conhece sequer o circulo eleitoral que lhe elegeu? Que expectativa se pode ter de alguém que não tem o domínio dos problemas nele existentes?
Por falar dos governadores, o senhor, kota Frelimo, insistiu com a eleição de Pio Matos. Será que não percebeu que já não goza de popularidade naquela província por conta de cenas de corrupção e nepotismo em benefício dos seus filhos? Até os cegos já notaram esse aspecto.
Tens muita coragem meu kota ou é aquela tua arrogância desmedida? Bom, tu é que sabes o que estás a fazer. Mas rendi contigo. Não esperava que depois de chumbar na primeira votação ias insistir com ele até ao ponto de demitir o Secretariado Provincial inteiro para garantir que Pio Matos continue no poder. É muita areia nos olhos. Se fosse eu teria muito cuidado com isso. É verdade que ele passou. É candidato, mas ficou claro que os membros do Comité Provincial da Zambézia votaram do jeito que o fizeram por coacção.
Obedeceram às ordens superiores. Renderam-se às ameaças e intimidação, mas o problema não está resolvido. Imposições destas são perigosas. Podem levar-te a perder eleições na Zambézia ou, pelo menos, votos. Não tens medo disso? Cuidado com o voto de castigo, meu kota!
Alguns dos episódios da novela sobre as eleições internas na Frelimo são preocupantes. Outras, uma grande vergonha. Nem dá para acreditar que a história se passou contigo. Cenas de corrupção, fraude eleitoral, nepotismo, etc. etc. Uma autêntica promiscuidade já mais vista. Quer dizer, fizeram tudo menos privilegiar a competência e a meritocracia na escolha de candidatos a deputados da AR.
Quando de um momento de festa, as eleições internas transformaram-se num acto de vingança, sendo que Caifadine Manasse e Manuel Rodrigues foram algumas das vítimas na Zambézia e Nampula respectivamente, é preocupante.
Quando alguns primeiros secretários provinciais integram seus filhos, afilhados, madrinhas e amantes nas listas de candidatos a deputados, é uma vergonha e desprestigiante. Tirou brilho e a credibilidade ao processo.
Quando um primeiro secretário manda manipular os resultados para favorecer seu filho (o caso de Gaza em que Ivan Matavele teve 12 votos a mais num esquema fraudulento), não sei o que dizer. O episódio tira-me do chão.
Querido amigo Frelimo. Como é que permites que coisas destas aconteçam contigo? Não ficaste bem na fotografia. Tenhas cuidado com a forma como resolves os problemas. Retiraste Agostinho Vuma das listas de Gaza e este não teve a oportunidade sequer de se defender das acusações que recaem sobre ele. Violaste os estatutos, não achas? Pois é. Ele tem o direito de ser ouvido.
Além de Gaza, houve reclamações um pouco por todo lado, a exemplo da cidade de Maputo, Tete e noutros círculos eleitorais e o tratamento que deste a estes e outros casos foi desigual, apesar de que, em termos de gravidade, alguns eram similares.
Anulaste o processo da Zambézia. Convocaste novas eleições. Não fizeste o mesmo quanto, por exemplo, à província de Gaza onde o processo foi infestado de irregularidades, segundo alguns militantes, nomeadamente a alegação de que houve compra de consciência, fraude e nepotismo. Fica, no meio de tudo isto, a ideia de que há filhos e enteados.
Sabes o que é que as pessoas dizem a teu respeito? Estão a falar muita coisa. Queres saber? Não vais ficar nervoso? Prometes? Está bem. Dizem que a oposição tem razão quando te acusa de fraude, pois, mesmo entre camaradas, não conseguem evita-la. É vergonhoso.
Caro amigo kota Frelimo. Não entendi aquela de deputados que já fizeram três a quatro mandatos. Fixaram os salários. Não falam durante as sessões da Assembleia da República apesar de experientes e, ainda assim, lutaram para manter-se na casa do povo.
Eduardo Mulémbwè é um deles. Ana Rita Sithole, a outra, e muito mais. Será que era preciso morrerem na praia? Tinham que ser rejeitado na urna para afastarem-se do parlamento? Não podiam, eles próprios, retirarem-se voluntariamente da vida política activa, dedicar-se a outras coisas e dar lugar a sangue novo na AR?
A máxima é de Eneias Comiche. Cessou há pouco no cargo de edil de Maputo. O mandato não lhe correu bem. A idade não lhe ajudou. Tem agora mais de 80 anos. Está a arrastar-se. O que é que vai fazer na AR como deputado? Desculpa, mas isso é demais. É imperdoável.
Amigo, por hoje é tudo. Sempre que possível voltarei ao teu contacto. Boa sorte nas eleições de 9 de Outubro. Parece que, desta vez, serão renhidas. Olha, não te esqueças de cumprir com a medicação. A tensão mata. Abraço do teu velho amigo.

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