A face actual do político moçambicano

OPINIÃO

Alexandre Chiure

Deu para perceber, nos processos de eleição dos candidatos a deputados da Assembleia da República e dos cabeças-de-lista para as Assembleias Provinciais que decorreram, há dias, nos diferentes partidos políticos concorrentes nas eleições de 9 de Outubro, que a política moçambicana mudou de paradigma.

Deixamos de ter políticos genuínos e comprometidos com o povo. Aqueles que eram os primeiros nos sacrifícios e os últimos nos benefícios. Que trabalhavam para o bem da maioria sem olhar para o relógio e para o dinheiro. Pessoas que abraçavam causas nacionais sem pré-condições, como acontecia no regime de partido único. Os verdadeiros servidores ao povo moçambicano.

Esse tipo de políticos é uma espécie rara e em via de extinção no país, pois, com os adventos da democracia, surgiu uma nova geração de políticos virada para a satisfação dos seus próprios interesses em detrimento dos das populações.

No geral, os políticos de actualidade pouco se importam se o país está a desenvolver-se ou não. Se as preocupações das populações estão a ser atendidas ou não. Para eles basta ganharem os seus salários chorudos sem fazer nada, conquistarem influências políticas que lhes permitam se posicionarem melhor na sociedade e usufruírem de regalias. O assunto está resolvido. O resto não interessa.

Não se dão tempo de avaliar que Moçambique temos hoje e que Moçambique queremos ter amanhã. Estamos a viver num país sem agenda nacional e tudo depende da vontade de quem está no poder. Uma agenda nacional com objectivos claros, prioridades bem definidas e metas a atingir a curto, médio e longo prazo no desenvolvimento do país. É por isso que é difícil de saber para que direcção estamos a caminhar.

Alguns dos megaprojectos que temos no país não contribuem em quase nada para as receitas do Estado. O país continua com um défice orçamental de aproximadamente 50 por cento.

A Mozal é um dos exemplos. Anualmente, é distinguido como o maior exportador. Ganha muito dinheiro com o negócio de alumínio, mas não paga o imposto. Os dirigentes dizem que serve de cartão de visitas para o investimento estrangeiro. Como se isso não bastasse, a empresa quer energia moçambicana quase de borla. Está a negociar o fornecimento a cerca de metade do preço do mercado (entre 3 e 4 dólares/ kwh, contra pouco mais de oito dólares/ kwh).

Em Inhambane, a Sasol, instalada há cerca de 20 anos, está a bombear gás natural, através de um gasoduto, para Secunda, na África do Sul. Os distritos de Inhassoro e Vilanculos, locais onde se desenvolve o projecto e que deviam ser os maiores beneficiários, continuam na mesma: pobres e sem sinais de desenvolvimento.

Segundo dados do Banco Mundial, houve um aumento exponencial da pobreza no pais. De 2014/15 e 2019/20 subiu de 48,4 por cento para 62,8 por cento ou seja de 13,1 milhões, passamos a ter 18,9 milhões de pobres. Contentamo-nos com o discurso de que não somos pobres, mas empobrecidos e nunca saímos dessa.

O congolês Christian Malanga chegou ao país. Reuniu-se com pessoas influentes e apertou-lhes a mão. Montou negócios de exploração de ouro em Manica e de pedras preciosas algures em Cabo Delgado. Financiou milícias que lutam contra o regime de Félix Tshisekedi, na República Democrática de Congo, à luz do dia, e acabou morto na tentativa de golpe de Estado naquele país.

Tantos outros estrangeiros saqueiam riquezas moçambicanas no centro e norte do país. Em Gilé, na Zambézia, 80 por cento das empresas que operam não têm licenças ou seja dez das doze estão numa situação ilegal. As autoridades sabem disso, mas nada lhes acontece. Estão a explorar os recursos e os donos a enriquecerem-se num à vontade. É terra de ninguém.

Temos uma Assembleia da República com 250 deputados de diferentes círculos eleitorais que não estuda estes dossiers. Nunca ouvi um assunto sério como estes, bem estruturado, a ser levantado por um deputado e debatido na casa do povo. Nada.

Debater e aprovar leis ou regulamentos para corrigir contratos ou projectos mal negociados em defesa dos interesses nacionais. Nada, mas nada está a ser feito. Porque, como donos dos recursos, temos que tirar melhor proveito da sua exploração. Infelizmente, a AR comporta-se como um mero espectador. Fica calado a ver o comboio a passar.

Gulamo Nabi, um cidadão de origem indiana, foi condenado a morte, no governo do Presidente Samora Machel, por tráfico de camarão, um produto estratégico para a economia nacional. Eram alguns quilos, mas, mesmo assim, foi executado para transmitir a mensagem de que não se deve brincar com a riqueza nacional.

Hoje, o país está a saque. Estrangeiros pilham os nossos recursos, nomeadamente madeira, pedras preciosas e outros e nada lhes acontece, curiosamente no mesmo país onde um cidadão foi morto por traficar alguns quilos de camarão. É uma mudança de noite para dia: o rigor no controlo do que é da maioria, os níveis de exigência e responsabilização dos prevaricadores. Tudo mudou. É um país dentro do outro país.

A ideologia, os princípios e os valores que norteiam a actividade dos partidos políticos deixaram de ser a base para alguém optar por militar numa ou noutra formação política. O que conta, agora, é se o tacho está garantido ou não. Caso contrário, nada feito.

As eleições internas nos partidos para a escolha dos candidatos a deputados da AR e a cabeças-de-lista para governadores provinciais estão cheias de exemplos desses.

Na Coligação Aliança Democrática, a chefe do Posto de Insidua, na Zambézia, Sintiana Domingos Zoa, está de saída da CAD, tão cedo quanto se podia esperar, de regressar à Renamo, tudo porque o seu nome não consta da lista de candidatos efectivos a deputados da AR. Ela é número 15 na lista dos suplentes naquela província.

Quer dizer que o facto de estar numa posição desvantajosa é suficiente para abandonar a coligação. Com esta sua atitude, ficou claro que o que lhe interessava, ao ingressar na CAD, não era servir as massas, porque isso pode ser feito sem se estar no parlamento, mas, isso sim, tornar-se deputada. Não era porque se identificava com os princípios e valores que a coligação defende. Estava, isso sim, em busca de um conforto. Esta é que é a verdadeira face do político de actualidade em Moçambique.

Promo������o

Facebook Comments