Felisberto Botão
Entender a economia de guerra e corrupção
A maior tristeza e desgraça de um povo é ver seu presidente ao serviço de um outro povo. Pior ainda quando este presidente é eleito por este povo. É isso que vemos um pouco por toda África, presidentes que pediram voto ao seu povo, mas quando estão no poder não ouvem o que este povo diz, mas se colocam às ordens de presidentes de outros povos, lá do antigo colonizador.
O pior é ver estes líderes seguros no que estão a fazer, como o certo a ser feito.
Parafraseando Ibrahim Traoré, no seu discurso do último Domingo, 07 de Julho de 2024, ”…vamos ter orgulho de ser nacionais do AES, este povo que sofre por conta do imperialismo, este que só tem um cliché em mente – que África é um império de escravos, que lhes pertence. O que é deplorável é que até hoje eles pensam desta forma. Esta condição ainda é possível hoje por conta de marionetes que eles deixaram no poder, que são “escravos de sala”, que querem viver como o mestre, satisfazer o mestre e fazer tudo o que o mestre ditar. Roubam da nossa terra e guardam a sua riqueza com o mestre, lá na europa. São indivíduos sem dignidade, sem moralidade e sem personalidade, que o mestre sempre sabe como identifica-los, porque são traidores e corruptíveis”.
Entretanto, as guerras vão sempre surgir enquanto os homens pensarem diferente. A guerra da ucrânia está a ser um excelente caso de estudo sobre a geopolítica actual e os sistemas estabelecidos a nível global.
A Rússia em face de vários ataques dos seus inimigos ocidentais, incluindo mais de 17,000 sanções, adoptou a economia de guerra, para resistir a invasão. A Rússia ordenou a sua indústria de guerra para maximizar a sua produção. Parafraseando Vladimir Putin, presidente da Federação Russa, falando com seus oficiais do exército, “as negociações internacionais serão conduzidas na defesa dos nossos interesses nacionais. Para isso, precisamos de forças armadas fortes, fiáveis, bem armadas e motivadas. Para ter este tipo de forças armadas, precisamos de uma economia forte, um funcionamento estável da indústria em geral, e do complexo industrial militar em particular e, o mais importante, contar com as pessoas do país, localmente e no estrangeiro”. No final ele remata, querendo realçar que Rússia hoje tem FORÇA, “vocês hoje têm tudo isso, e a mãe pátria espera a vossa retribuição”.
Para por a indústria de guerra na sua máxima produção, esta precisa aumentar o seu “procurement” de mão de obra, materiais e tecnologia. A ordem é “conteúdo local”, ou seja, só comprar fora quando esgotar a capacidade interna, ou não haver disponibilidade, como é o caso de chips que compram da China. Para atrair a mão de obra para a indústria, esta tinha que pagar salários aliciantes, o que obrigou outros sectores também a aumentarem seus salários para segurarem a mão de obra, o que aumentou o poder de compra da população russa. A indústria local aumentou a produção para alimentar a indústria de guerra, e suportando-se umas as outras.
Adicionado a isso, a Rússia manteve o controlo dos seus recursos naturais, e buscou construir mercados diversificados para o mesmo, sem ficar preso a um único cliente, e implementou uma política monetária que se dissociou do dólar americano.
Por outro lado, os americanos e europeus seguiram um caminho diferente, no lugar do aumento da produção, eles focaram-se no aumento da impressão de dinheiro. Este modelo é puramente baseado em esquemas de corrupção, que é o que o sistema ocidental defende e cultiva, apesar de serem muito vocais com relação ao combate a corrupção. Para este sistema funcionar, eles precisam de ter um estado interlocutor extremamente corruptível. Isso explica porque os estados unidos patrocinaram e deram assistência ao golpe de estado na ucrânia em 2014, para remover do poder um bom dirigente, pró-russa, e instalaram o regime corrupto, pró-ocidente, que hoje é representado pelo Volodymyr Zelensky, o topo da corrupção. O que o corrupto ocidente quer do Zelensky é só a assinatura, a confirmar que ele solicitou ajuda e recebeu ajuda, o resto lhe cabem as suas comissões.
Com esta luz verde do governo corrupto ucraniano, os corruptos americanos tratam dos lóbis para as aprovações necessárias no parlamento e no senado, passando depois a chancela do presidente da república, que deve ser o cabeça dessa corja corrupta. Quando o dinheiro é impresso pelo FED, outro braço corrupto do sistema, este é distribuído entre a classe, desde os parlamentares e senadores que fizeram passar a decisão, o presidente e os seus ministros, membros do ministério da defesa e do exército, para simularem o envio das armas, a indústria da defesa americana, que simula a produção e fornecimento de armamento, e vários lobistas e administrativos que facilitam as papeladas. Depois passa para o lado da ucrânia, a comissão deve ser distribuída entre o presidente, os seus ministros, e elementos do exército.
Entretanto, uma pequena quantia entra na ucrânia, de forma oficial, para manter o sistema a funcionar e algumas armas velhas para entreter os militares na frente de combate.
O mesmo modelo é usado pelos aliados europeus. Por falar em armas velhas, uma das acções que o ocidente fez, foi renovar o seu arsenal as custas da ucrânia. Eles anunciaram fundos, que na verdade foram usados para comprar novos tanques de guerra, novos aviões e novos sistemas antiaéreos, em substituição dos velhos que levaram para a ucrânia, ao custo de novos, que, entretanto, é uma dívida para este país.
Ucrânia tem lítio, petróleo e terras muito aráveis. É isso que a europa quer, e não a autodeterminação do povo ucraniano.
A mentalidade imperialista não sai da cabeça do europeu. A europa reafirmou a sua estratégia de olhar para si primeiro, e também quer fazer a economia da guerra. Parafraseando a Ursula von der Leyen, presidente da comissão europeia, esta afirmou recentemente “…precisamos robustecer a nossa indústria militar nos próximos 5 anos – para isso, a europa de gastar mais, deve gastar melhor e deve gastar europeu, para tornar as forcas armadas dos países membros, mais fortes, e continuar a ajudar a ucrânia”. Esta é a europa, que iremos assistir aos poucos a abandonar todos os seus princípios que impunham ao mundo, sobre democracia, clima, meio ambiente, paz e não proliferação de armas. Perante a realidade, imposta pelo crescimento de outros actores, como a China, Rússia, Irão, já não é possível disfarçar.
O sistema ocidental foi construído por cima da corrupção, roubo e elitismo. Não é possível construir uma sociedade justa e saudável seguindo o modelo ocidental.
Este modelo de corrupção é o que usam em África, com o esquema dos fundos de desenvolvimento, através de ONGs, e a dívida externa. Antes de tudo, o ocidente precisa garantir que o governo africano é corruptível, de contrário, não serve para este sistema. Não é por acaso que mataram Samora Machel, Thomas Sankara e John Magufuli, e agora querem matar o Ibrahim Traoré. Estes líderes não estavam para defender regimes ou sistemas, mas sim para trabalhar para o povo. Não servem para este modelo.
O sistema de dominação e exploração implementado pelos ocidentais em África, visa e sempre visou os nossos líderes. É a lei de menor esforço. No lugar de gastar recursos lutando com cada pessoa individualmente, o ocidente adoptou a estratégia de capturar os nossos líderes, e usar estes, através de várias formas de coação, a explorar e castigar seu próprio povo. Foi assim na escravatura, foi assim na colonização, e está sendo assim hoje, com o negócio das multinacionais, principalmente na indústria extractiva, no negócio das dívidas externas para os países africanos, e no negócio das ONGs.
Este modelo de negócio é sistemático para o ocidente, com carácter político e económico, para manter África num determinado status quo. As operadoras nacionais no ocidente desenham seus modelos, desenvolvem seus contactos com as lideranças africanas, tanto para explorar minérios, como para vender um objecto da dívida, ou ainda para criar uma crise a resolver por uma ONG, e tem a total cobertura dos governos ocidentais, que dão luz verde e indicação ao governo africano que “é para acontecer”. São negócios, onde os líderes africanos geralmente operam como comissionistas apenas, por imposição, como troca para se manter no poder e não ser vítima de desestabilização da sua governação. É uma verdade dura para o africano, mas são os factos.
Os líderes que tentam resistir a este sistema, recebem muita pressão a todos níveis, através de meios estabelecidos pelo ocidente, desde publicidade negativa nas TV’s globais, avaliação das empresas de rating, unidades internas no país para desestabilização, e no último caso, até manifestações ou golpes de estado.
Para África se libertar verdadeiramente, precisa de uma nova gema de líderes, com consciência do status quo imposto pelos ocidentais, seu impacto negativo no desenvolvimento e qualidade de vida da nossa comunidade, com mentalidade pan-africana e desapego a coisa europeia.
Olha para a democracia, esta não está a dar respostas às dinâmicas sociais, até no ocidente. Por que insistimos?
Os outros pagam-nos para trairmos o nosso país, e seguirmos a agenda deles. Eles fazem isso para proteger os seus países, portanto, são mais conscientes que nós. Quem vai proteger o seu país? Veja a polícia queniana, está a ser usada como segurança privada na embaixada americana no Haiti. Como é possível chegarmos a este extremo de absurdo?
África precisa fechar tudo e isolar-se para uma introspecção. Largar um pouco deste sistema ocidental, sem pânico. Alguma coisa vai aparecer, genuinamente africana. Quando a bíblia fala de “fim dos tempos”, refere-se ao tempo do sistema colonial, mas nós entendemos que é o fim do mundo. Não é não…
O imperialismo está em decadência, o reino da corrupção está no fim, todo mundo já percebeu isso, e a juventude africana já percebeu isso. A liderança africana está a ficar atrás, não percebe que o mestre já não tem a força que tinha, e alguns preferem ser arrastados juntos para o abismo, tendo a opção de soltar as correntes…
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