- Ninguém mexe na esposa do “chefe” Faustino e irmã do piloto do PR
- É a ministra com mais escândalos, mas passou cinco anos a andar na chuva sem molhar
- Sistema de educação está um caos, com escolas às escuras, sem água e nalguns casos nem giz
- Pela primeira vez na história as crianças correm risco de fechar o ano sem livro escolar
- Mas seu esposo é secretário-geral da ACLIN e o irmão é piloto do Presidente da República
Nas últimas duas semanas, o Presidente da República, Filipe Nyusi, fez aquela que pode ter sido a sua última mexida no Governo, com a queda do ex-ministro da Economia e Finanças, Max Tonela, e outros dirigentes de sectores estratégicos do Estado. Quem tem o dom de escapar e mais uma vez a sua incompetência não saltou aos olhos do Presidente da República é a ministra da Educação e Desenvolvimento Humano, Carmelita Namashulua, que se mantém intocável, apesar dos inúmeros problemas em que está mergulhado o seu sector e a manifesta incapacidade de resolver a crise do livro escolar, numa altura em que, pela primeira vez, em cerca 50 anos da independência nacional, os alunos correm risco de terminar o ano sem os manuais de distribuição gratuita, para além da já crónica falta de orçamento nas escolas que faz faltar material didático, a ponto de às vezes sequer haver giz para leccionar. A estes problemas juntam-se os cíclicos erros nos manuais escolares, a falta de pagamento de horas extras e facturas de água e energia, que para além de deixar várias escolas às escuras degradou as condições de higiene individual e colectiva, levando ao encerramento das casas de banho e ou obrigando os alunos a trazerem o precioso líquido em bidões de casa para poderem aliviar suas necessidades biológicas. Apesar deste quadro aterrador, a ministra deste pelouro continua de pedra e cal, desafiando toda a lógica de boa gestão. No entanto, uma análise mais profunda, destapa relações que podem estar a influenciar na tomada de decisão por parte do Presidente da República. É que, Evidências apurou, para além de ser esposa do secretário-geral da ACLIN, um dos membros mais influentes da Frelimo, a ministra Namashulua é parente próxima do piloto particular do Presidente Nyusi.
Pela primeira vez em 50 anos de independência, as crianças do Ensino básico correm o risco de terminar o ano sem o livro escolar. Quando já está à espreita o terceiro e último trimestre, as crianças, que agora estão de férias, ainda não receberam os manuais de distribuição gratuita, o que tem estado a comprometer o processo de Ensino e aprendizagem.
A falta dos manuais, cujo ministério vem prometendo desde o início do ano, mas sem nunca cumprir, está causando preocupação não só dos pais e encarregados de educação, como também dos educadores (professores e directores das escolas).
A falta acontece num ano em que foram introduzidas novas alterações curriculares, o que comprometeu a capacidade dos professores seguirem com o currículo estabelecido e prejudicou a qualidade do ensino, obrigando-os a improvisar com materiais alternativos e estratégias pedagógicas não planeadas.
Pais e encarregados de educação se mostraram preocupados com o impacto dessa lacuna na educação de seus filhos, temendo que o atraso nos conteúdos possa reflectir em um desempenho académico a longo prazo.
Inúmeras promessas e descarregamentos de livros que nunca chegaram
Após inúmeras promessas de distribuição dos livros escolar nas EP1, o governo moçambicano, através do Ministério da Educação e Desenvolvimento Humano MINEDH, garantiu, nos finais de Julho 24.07, que já estão disponíveis os livros escolares, pelo menos para a segunda classe, enquanto as outras classes do nível básico continuam no aguardo.
A novidade foi avançada pelo porta-voz do MINEDH, Manuel Simbine, em uma conferência de imprensa, na capital do país, Maputo, tendo afirmado que os mesmos já estão a ser descarregados no Porto de Maputo e, ao longo dos próximos dias, seriam distribuídos nas escolas.
“Em relação aos livros, queríamos informar que os livros da segunda estão a chegar. Iniciou agora o processo de descarregamento no porto de Maputo e, nos próximos dias, poderemos ter melhor informação para partilhar porque é preciso recolher os dados. É preciso ir ao terreno. O importante é que os livros já chegaram”, garantiu Simbine.
Na Escola Primária 03 de Fevereiro, localizada na capital do país, o impacto da falta dos livros foi imediatamente percetível. Entrevistada pelo Evidências, a directora da escola, Custódia Zucula, disse que, devido à falta de livros, a escola viu-se na obrigação de improvisar para minimizar possíveis impactos no desenvolvimento dos petizes.
“Foi um desafio enorme, mas acredito que no próximo trimestre teremos situação regularizada porque os livros já estão no país, conforme o ministério disse há dias. Felizmente, enquanto não se disponibilizavam os livros, o Ministério da Educação e Desenvolvimento Humano disponibilizou os cadernos de exercícios para as primeira e segunda classe”, lamentou esperançosa.
“A situação é muito caótica, não é só a situação dos livros, tudo anda mal”
Os professores da mesma escola, por sua vez, mostraram-se desiludidos com o sistema e descreveram a situação de caótica, não só por causa da falta de livro escolar, como também de outras condições de ensino e aprendizagem.
“Nós estamos a trabalhar porque não podemos deixar as nossas crianças abandonadas. Temos criado condições para avançar com o nosso trabalho, que é na verdade uma missão para nós. A situação é muito caótica, não é só a situação dos livros, tudo anda mal”, disse indignadamente Belarmina Alexandre, professora da segunda classe.
Para a professora Lurdes Pale, da primeira classe, não está a ser fácil trabalhar sem livro, e conta que se viram obrigados a recorrer aos manuais descontinuados para garantir que os alunos de primeira viagem tenham um primeiro contacto com a escola menos traumatizante.
“Nós estamos a trabalhar à nossa maneira para os meninos não ficarem sem orientação, até aqui tentamos avançar com o livro descontinuado (reprovado) e apenas escrevíamos nos cadernos para lhes orientar. Nas classes iniciais, as crianças devem ouvir e acompanhar as imagens do livro, e isto pode afectar as crianças futuramente porque não é fácil trabalhar nessas condições. Para além do livro, não se diz nada sobre o material didático”, lamentou.
Confrontados, os alunos contam que é difícil continuar a aprender como deve ser porque devem partilhar os manuais dentro das salas, e poucos dispõem.
“É difícil porque na minha sala não temos muitos livros, e para a professora dar aulas temos que sentar em grupos porque os livros não chegam para todos. Outros não fazem TPC porque não têm livro”, disse a pequena Kiana Rafael, aluna da sexta classe.
Facto que foi secundado por Mário Welton, aluno da terceira classe: “Nós não temos livros, a professora às vezes nos manda fazer cópias e desenhar. Às vezes vou à casa do meu colega para fazer. Mas disseram que vamos ter”.
Livros dos anos passados usados para suprir falta de manuais da 3ª a 6ª classe
A situação da Escola Primária Completa 03 de Fevereiro se replica em vários pontos do país. Na Escola Primária Completa do Alto Maé, por exemplo, para além da demora na distribuição dos livros, os professores lamentaram o facto de os livros dos anos passados estarem degradados, alguns sem páginas ou mesmo parcialmente destruídos.
“Os livros que nós temos são esses que estás a ver. Não têm capa, não têm páginas completas, só usamos porque não temos como. Não é fácil trabalhar nessas condições, os alunos não têm como desenvolver e ter bons resultados porque a escola não tem condições de os preparar”, disse uma professora da quarta classe que preferiu não se identificar.
Enquanto isso, outro professor que também preferiu não se identificar questionou o país em que estamos, o governo que temos e o futuro da educação, desde alunos até ao corpo docente.
“Não recebemos livros, mas dizem que já estão no país. Isso prova que já não temos esperança nem futuro em Moçambique porque a educação já é péssima, e como sabem os professores são os mais desprezados neste país. Cada dia que passa a educação perde valor e isso afecta os nossos filhos. Para onde é que vamos, afinal? Em que país estamos? Isso não é normal. Não vou falar do material didático, porque isso é um outro assunto que não dizem e já estamos acostumado”, lamentou.
Apesar dos constrangimentos, o director de uma das escolas da capital do país, que não se quis identificar, afirmou que as aulas decorrem normalmente porque souberam se adaptar e treinar os professores para melhor actuação.
“O problema do livro não é de hoje, mas mesmo assim conseguimos nos adaptar para continuar com as nossas actividades. Preparamos os professores para reforçarem sua atenção e paciência, mas de qualquer modo as aulas continuam e estão a decorrer, não esperamos pelo Ministério da Educação para continuarmos com o nosso trabalho porque esse problema é de longa data”, disse mostrando determinação.
O director da Escola avançou ainda que do MINEDH a escola recebeu apenas livros da primeira classe, que também não foram suficientes, e para a segunda classe apenas receberam livro-caderno, e da terceira a quarta classe usam-se livros dos anos anteriores.
“Recebemos os livros, mas ainda continuamos a redobrar esforços para que tudo corra num bom ritmo. A escola recebeu os livros, mas não completos. Da primeira classe, por exemplo, não recebemos todos os livros, da segunda classe recebemos os caderno-livros, que são para orientar os alunos. Já as restantes classes, falo de terceira à sexta classe, temos livros suficientes dos anos passados”, explicou.
Os pais também estão preocupados com a situação. Ana da Silva, mãe de um aluno da 2ª classe, expressou sua frustração.
“É triste ver que, enquanto em outras escolas privadas as crianças têm todos os recursos necessários, na Escola Primária completa de Mumemo, onde estuda o meu filho, ainda não receberam livros. Para meu caso, tive que comprar os livros e apostar num explicador para que não seja prejudicado”, lamentou
Por seu turno, William, residente no bairro de Muhalaze, Município da Matola, também partilhou o drama de quem tem os seus filhos na escola pública.
“Tive que tirar meus filhos daquela escola de Muhalaze porque a situação não é das melhores. A escola não oferece condições para nada. Os meninos estudam fora, não têm livros, não têm carteiras. Mudei minhas prioridades para apostar no ensino privado, porque no público é um desastre”, lamentou.
Uma ministra intocável
Apesar dos inúmeros problemas relatados e visíveis a olho nú, a ministra que desde que assumiu o poleiro em 2020 o sector vai de mal a pior, nunca foi mexida e não há histórico de alguma vez ter recebido alguma advertência do Presidente da República, Filipe Nyusi, que num passado não muito distante destituiu ministros por alegadamente não estarem a dar conta do recado.
Amade Miquidade e Arsénia Massingue, no ministério do Interior, são disso exemplo. Não sobreviveram a uma aparente falta de capacidade de resolver o gritante problema dos raptos no país. Recentemente, após a queda do ministro Max Tonela, corredores oficiais fizeram passar a ideia de que caira porque tinha uma folha de pecados bastante extensa, que ia desde a incapacidade de resolver os gritantes problemas da TSU ao congelamento de pagamentos.
No entanto, se a mão de Filipe Nyusi consegue ser pesada para alguns membros do seu governo, parece que não a consegue tirar do lugar no caso da ministra Carmelita Namashulua. Apesar dos inúmeros problemas desde a crise histórica do livro escolar, falta de orçamento nas escolas, escassez de material didático, cíclicos erros nos manuais escolares, a falta de pagamento de horas extras e facturas de água e energia, que para além de deixar várias escolas às escuras degradou as condições de higiene individual e colectiva, levando ao encerramento das casas de banho e ou obrigando os alunos a trazerem o precioso líquido em bidões de casa para poderem aliviar suas necessidades biológicas, continua no cargo de pedra e cal.
A falta de coragem para remover aquela que foi das ministras mais improdutivas e contestadas do seu segundo mandato pode dever-se ao facto de ser esposa de nada menos, nada mais que o poderoso Fernando Faustino, secretário-geral da ACLIN, que curiosamente nos últimos tempos tem sido manso às maquinetadas de Filipe Nyusi e seu grupo, tendo transformado a ACLIN, de um grupo antes temido, em mais um coral de hossanização do líder.
Mas, mais do que ser esposa do todo poderoso secretário-geral da ACLIN, Carmelita Namashulua é irmã do piloto pessoal Presidente da República, que geralmente voa usando o seu jacto privado pelo país e nalguns países da região.

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