“Crianças que crescem num ambiente que acham que não há normas, banalizam a violência quando adultas”

SOCIEDADE
  • Psicólogo alerta o perigo da exposição das crianças nas manifestações

O psicólogo moçambicano Bóia Júnior, clínico terapeuta, especialista em recuperação de menores depois de eventos traumáticos, como foi no caso da Guerra Civil, alerta para o risco de exposição das crianças às manifestações caracterizadas por violência, como o uso de gás lacrimogéneo, baleamentos mortais, vandalismo, entre outros, que podem resultar em traumas psicológicos profundos que podem levá-los a normalização da violência quando adultos.

Elísio Nuvunga

Desde dia 21 de Outubro, a nação moçambicana vive um ambiente de tensão devido às manifestações convocadas pelo candidato presidencial suportado pelo partido PODEMOS, Venâncio Mondlane, para protestar contra os resultados anunciados pela Comissão Nacional de Eleições e a degradação das condições de vida dos moçambicanos.

As manifestações nem sempre foram caracterizadas pela pacificidade, sendo caracterizadas por vandalismo e confrontações violentas entre manifestantes e forças policiais, que usam excessivamente a força, resultando em mortos e feridos. Nestes eventos é notória a participação de crianças, que inocentemente são arrastadas por jovens e adultos.

A participação de crianças tem sido veementemente criticada por vários actores sociais, pelo perigo que elas correm por alegadamente precisarem ainda de acompanhamento e por serem indefesas. Mas o psicólogo Bóia Júnior vai mais longe, chamando atenção dos pais e autoridades sobre os riscos que as crianças correm e das consequências futuras.

“As crianças quando crescem num ambiente que acham que não há normas, banalizam o normal, a violência, a vida humana, a autoridade e isto claramente vai ter efeitos negativos na formação da personalidade da criança e no próprio exercício de convívio que implica respeito pelo próximo, pelas normas. Estamos numa situação anormal em Moçambique em que quem devia tomar essa posição, protagonismo de proteger as crianças são os adultos. O que se deve dizer às crianças é que elas devem continuar em casa, seguras e o que está acontecer em Moçambique é atípico, não é normal”, explicou.

Bóia recordou a situação da Africa do Sul, de 16 de Junho de 1976, ano que ocorreu o “Massacre de Soweto”, em que jovens se rebelaram contra o sistema com vista a acabar com o racismo, apartheid, desrespeito pelos direitos dos cidadãos, sobretudo dos mais marginalizados, e mostrar que estão agastados com que se vivia.

“Na África do Sul, no Soweto, os jovens e crianças se tornaram rebeldes contra os pais dizendo que eles tinham tolerado por muito tempo o apartheid, racismo, descriminação, e que os mesmos não aceitariam morrer sem que a África do Sul tivesse sido modificado”, lembrou.

Como sociedade adulta estamos a falhar

Como acima referido, Bóia Júnior destaca a “ausência” dos pais para educar e proteger as crianças, que não percebem que a sua exposição incute no seu cérebro que a violência é, sim, um caminho para a resolução de problemas.

“Quando as crianças vão à rua se expõem à violência e acabam aprendendo que o caminho para mudança é o desrespeito pela vida deles primeiro, porque eles estão se pondo em risco e desrespeitam a vida dos outros. Quando vemos crianças de 12 anos, que deviam estar na escola, a fazerem controlos ilegais de portagens à noite e a exigirem dinheiro é preocupante”, lamentou.

A violência policial é outra mensagem que é captada pelos menores que encaram a PRM, em primeira instância, como uma entidade que assalta a tranquilidade e segurança.

“Estamos a educar as crianças que aqueles que deviam proteger a todos nós, que é a polícia, e o Estado são perpetuadores da violência. Isso vai ter implicações a longo prazo, porque é um descrédito das autoridades em que a criança se devia sentir protegida e, sente que não há normas e vive numa situação em que o que ela pensa pode fazer e seus instintos mais mortíferos, agressivos, são colocados na rua sem nenhum controlo”, alerta o experiente psicólogo.

Para finalizar, o especialista destacou que é papel dos pais, tanto das autoridades, proteger as crianças de todos os perigos, sobretudo proibir a participação delas em manifestações que se vivem há mais de um mês. Saindo um pouco da psicologia, Bóia Júnior apelou às negociações para o fim das manifestações, para de algum lado proteger a sanidade mental das crianças expostas na violência das manifestações.

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