Quais são os ganhos das manifestações?

OPINIÃO

Por Alexandre Chiure

Estava, aqui, a pensar comigo mesmo se as manifestações, do jeito que têm sido feitas, irão produzir os efeitos desejados. O que os moçambicanos querem é, no fim do dia, haja justiça eleitoral nas eleições de 9 de Outubro, cujo processo está na fase de validação e proclamação dos resultados pelo Conselho Constitucional.

Tornou-se viral, entre os manifestantes, a declaração de que “estamos a organizar o país”. É verdade que Moçambique está a atravessar maus momentos. A qualidade de vida de moçambicano é lastimável. Os níveis de pobreza aumentaram em 87 por cento, nos últimos dez anos. Hoje, 65 por cento da população é pobre.

Há o consenso de que não estamos bem como país. Precisamos de decidir que rumo a tomar para sairmos deste imbróglio em que estamos. Temos que trabalhar com metas a atingir a curto, médio e longo prazo. Em suma, Moçambique precisa de ser reiniciado e o Estado, refundado.

Quando se fala em organizar o país, o que é que se pretende dizer concretamente? Porque se é para alcançar estes objectivos, o caminho a seguir não são as manifestações. Colocar o país nos carris não se compadece com marchas que paralisam esse mesmo país. Estamos a ser contraproducentes.  

É evidente que não se organiza o país assaltando e saqueando lojas, destruindo infra-estruturas públicas e privadas. Em nenhum momento estes actos devem ser vistos como retaliação às investidas da polícia que, por um lado, impede a realização das marchas, violando a lei, e, por outro, mata e fere cidadãos indefesos disparando balas verdadeiras.  

Se perguntar não ofende, o que é que já mudou no xadrez político do país no fim de três fases de manifestações convocadas por Venâncio Mondlane que resultaram na morte de 20 cidadãos, alguns dos quais crianças a regressarem da escola.

É que se o caminho que está a ser seguido é o mais adequado, por estas alturas, os manifestantes já deviam estar a agitar no ar algumas conquistas, o que não é o caso. Tudo está na mesma.

Se é verdade que não há nada a reclamar em termos de vitórias nestas manifestações, também é real que o governo pouco ou nada fez, até agora, no sentido de acabar com a crise política pós-eleitoral que se faz sentir no país. Não mexeu uma palha para que o diálogo se efective. Está a comportar-se como sendo um mero espectador ante a contínua degradação da situação política no país.

O executivo, a parte que tem mais a perder do que os manifestantes, não deve continuar assistir ao escangalhamento da economia nacional, piorando o estado débil em que já estava quando tem tudo nas mãos para resolver os problemas que se levantam.

Enquanto isto, há muito que se diga em termos de prejuízos das manifestações. A paralisação, por um dia, da fronteira de Ressano Garcia, na sequência da sua vandalização, posto que representa pouco mais de 50 por cento do total das receitas fronteiriças do país, significou a perda de cerca de 400 milhões de meticais, segundo a Autoridade Tributária de Moçambique. A CTA, por sua vez, fala em prejuízos incalculáveis para a economia nacional.

Incidir as manifestações sobre os postos fronteiriços, como se pretende nesta quarta fase, vai criar um caos nas grandes cidades, em particular em Maputo e arredores. O país é dependente de importações. A maior parte dos produtos vem de fornecedores sul-africanos. A circulação de pessoas e bens será limitada ou suspensa.

Estender as marchas aos portos, que são as fronteiras marítimas, significa que as operações de importações e exportações serão afectadas e há o risco de estes perderem clientes a favor de portos concorrentes sul-africanos no manuseamento de carga.  

O mercado moçambicano começa a ressentir-se dessa paralisação. Alguns produtos são escassos, incluindo citrinos e leguminosas e os preços, a dispararem. Esta situação está a agravar o custo de vida.

Se até hoje não há nada de palpável que se possa apresentar como “troféu de guerra” significa que alguma coisa não está bem. Quer dizer que é preciso rever a estratégia de luta, a começar com a clarificação dos objectivos das manifestações, adoptando modelos que possam produzir melhores resultados como o diálogo.

Ninguém está contra as manifestações em tanto que tal. Elas fazem parte dos direitos fundamentais do cidadão. Uma coisa é marchar manifestando insatisfação devido ao elevado custo de vida, raptos e terrorismo. Outra coisa é sair à rua e reivindicar os resultados eleitorais considerado fraudulentos. É preciso separar as águas.

Pelo sim ou pelo não, a mensagem chegou onde devia chegar com as três fases de manifestações já realizadas, quer dentro do país, quer junto da comunidade internacional. É tempo de abrir outras frentes de luta. Explorar outras janelas.

Do que foi feito até hoje é quanto basta para perceber que há o sentimento de que os resultados eleitorais tornados públicos pela Comissão Nacional de Eleições são fraudulentos e que algo deve ser feito pelo CC, onde está o processo, para garantir que haja justiça eleitoral.

Nesse exercício ficou claro, também, que este não é o país com que os moçambicanos sonhavam. É preciso trabalhar mais para que este atinja os patamares desejados. Isso é possível, em parte, com o investimento estrangeiro que estamos a afugentar com as manifestações.

Não há investidor de espécie algum que possa aplicar o seu dinheiro num país com uma instabilidade política como o nosso. Não se pode falar de turismo, esta que é uma grande fonte de receitas, enquanto circularem, pelo mundo, imagens chocantes de um país em estado de guerra, com forte presença de polícias e militares nas ruas.

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