Cabo Delgado: Apropriação identitária dos Makondes de Mueda e as linhas invisíveis

OPINIÃO
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John Kanumbo

Em Cabo Delgado, os tiros não caem do céu: eles têm endereço certo. E esse endereço, quase sempre, é a casa do pobre, a aldeia esquecida, o pescador que regressa ao nascer do sol. A pergunta é simples, mas ninguém tem coragem de a responder: por que atacam a população? Não atacam o governo, nem os quartéis, nem Mueda, terra dos generais mais temidos dessa terra, nem as sedes dos partidos. Atacam o povo excluído.

A resposta é amarga: atacam para esvaziar terras. Atacam para criar zonas de medo e silêncio. Atacam para que os camponeses de Mocímboa, Macomia, Chiúre fujam e deixem atrás de si as machambas, as florestas, os rios, os futuros campos de gás, grafite, rubis. A guerra em Cabo Delgado não é apenas terrorismo religioso; é também estratégia económica. É um projecto em que o sangue do pobre serve como tinta para assinar contratos de milhões.

O bastião histórico da Frelimo — Cabo Delgado — hoje é palco de uma violência sem rosto. Mas quem vive aqui sabe que há interesses claros. Não é coincidência que as zonas mais atacadas sejam áreas ricas em recursos naturais. Mocímboa da Praia, Palma, Muidumbe, Nangade, Macomia — todas regiões estratégicas, não só pelo gás e petróleo, mas também por seus portos, terras férteis e potencial de ligação com corredores regionais.

Há quem ainda acredite na narrativa simplista: “terroristas islâmicos radicais”. Mas os que fogem sabem que isso é apenas parte da história. Por trás do jihadismo importado, há uma rede de interesses políticos e económicos que lucra com o deslocamento de populações. Cada aldeia queimada abre espaço para um projecto, para uma concessão, para um mapa redesenhado em escritórios com ar-condicionado.

É importante lembrar: Cabo Delgado foi sempre um bastião político da Frelimo. Terra dos Makonde, berço da luta de libertação, distrito que deu sangue e filhos para a independência. Hoje, ironicamente, esse bastião tornou-se laboratório de uma política de segurança que protege elites e projectos internacionais, mas não protege o povo.

E quem paga o preço é sempre o mesmo: o camponês sem nome. A mulher que foge com os filhos às costas. A criança que cresce no campo de deslocados sem escola. Enquanto isso, as forças de defesa e segurança erguem trincheiras em volta de projectos como o Afungi, mas deixam aldeias inteiras à mercê de ataques.

Não é só terrorismo. É um projecto de gestão de territórios pelo medo. A guerra cria zonas vazias. E zonas vazias são mais fáceis de “integrar” em grandes empreendimentos. O discurso religioso é apenas a capa. O que se esconde por baixo são interesses geopolíticos, contratos com multinacionais, e uma velha prática colonial de transformar os nativos em refugiados em sua própria terra. Eis a denúncia: Cabo Delgado está sendo redesenhado com sangue. O terrorismo não ataca ao acaso: ele ataca onde o povo é a barreira entre o capital e a terra.

A guerra em Cabo Delgado tornou-se uma ferida aberta na história de Moçambique. Mas antes de falar do sangue, precisamos de falar da terra. Cabo Delgado não é uma província qualquer: é um mosaico cultural e geográfico.

Falar dos Makondes é entrar num labirinto de histórias, memórias e geografias. O que para o estrangeiro da zona parece um único povo guerreiro, escultor e resistente, para nós é um mosaico complexo de divisões, identidades e rivalidades internas. O povo Makonde nunca foi homogéneo. A sua força histórica está justamente na diversidade, mas essa mesma diversidade foi manipulada pelo poder para criar hierarquias e exclusões.

No mapa invisível de Cabo Delgado, as divisões Makondes são nítidas: Makondes do Planalto (Planalto de Mueda) ou Vamakonde, vandonde são todos de zonas altas do distrito Muidumbe e Mueda: Vivem no coração do planalto, onde a altitude cria terras frias e um certo isolamento geográfico. Esses Makondes foram os primeiros a ganhar prestígio político, pois dali saíram líderes da luta armada. O massacre de 1960 em Mueda consolidou o planalto como símbolo nacional, tornando-o sinónimo de heroísmo. Essa imagem, porém, também criou arrogância: o Planalto passou a se ver como “centro do mundo Makonde”. Mas esse grupo excluiu Planalto de Muidumbe, que é verdadeiramente Planaltos dos Makondes.

Makondes da Costa ou Vamwani e makwe de Palma: Esses são os Makondes de Palma, Mocímboa da Praia, Quiterajo e outros pontos costeiros. Diferente dos do Planalto, eles viveram em contacto constante com mercadores árabes, portugueses e swahili (Zanzibar, Mombaça). Essa convivência histórica os tornou culturalmente híbridos, muitos convertendo-se ao Islamismo e se integrando à economia do mar. São Makondes, mas são também costeiros, com identidade própria. Foram esses que mais sofreram com o terrorismo, pois as cidades costeiras tornaram-se campos de batalha e zonas de saque.

Quero ressaltar especial atenção quem são os Makwe / Emakwe / Vamakwe. Os Makwe (ou Kimakwe, Palma, Makwe, Emakwe) são um grupo que vivem na costa de Cabo Delgado, especialmente no distrito de Palma.  Falam a língua Makwe, ou Kimakwe, que tem similaridades com Swahili, Mwani, Yao — mas é suficientemente distinta para manter identidade própria. Alguns homens falam também Swahili ou Makonde, mulheres menos por vezes; há mistura cultural de costumes, comércio costeiro, pesca, trocas marítimas. São um dos muitos grupos costeiros que convivem com identidades múltiplas: por serem muçulmanos ou animistas, por suas línguas costeiras, pelo contacto marítimo. Têm sido marginalizados nas narrativas de poder que enaltecem o interior Makonde, o planalto de Mueda. Quando se fala do projecto de gás em Afungi, é sempre mencionado o reassentamento de comunidades. Essas aldeias costeiras, incluindo comunidades Makwe, são despejadas ou pressionadas para deixar as suas terras, para que se instale a infra-estrutura necessária.

As decisões de reassentamento raramente consideram plenamente a cultura, o modo de vida costeiro (pesca, trocas marítimas, espaços sagrados costeiros) desse povo. A comunicação e participação são parcialíssimas, e, frequentemente, pessoas ficam fora dos censos, dos inventários patrimoniais. As populações Makwe vivem uma tensão dupla: vêem promessas de emprego e “benefícios do gás”, mas também vêem deslocamentos, perdas territoriais, ruptura de modos de vida. A infra-estrutura ligada ao gás raramente nunca chega para satisfazer essas comunidades de forma justa. Porque não fazem parte da ala Libertária da Luta Armada, por outro, são desconhecidas nas folhas oficiais.

Makondes do Vale do Messalo, chamados Vamwalu são populações de dois distritos; Muidumbe e Macomia (Miengueleua, Chitunda, xitaxi, Litamanda, Chai, 1 de Maio, Litandacua (valombe…): O rio Messalo é mais do que um divisor natural: é uma linha cultural. Os Makondes desta região têm uma relação espiritual com a água, com histórias de peixes sagrados (mikobo, matukwi) e lendas que ligam o rio à ancestralidade. Vivem entre zonas férteis e matas densas, e historicamente ocuparam uma posição de mediação entre planalto e costa.

Makondes de Vaiyanga: Vaiyanga é um nome que muitos fora de Cabo Delgado desconhecem, mas para nós representa uma terra dura, infértil, seca. São residentes das aldeias do distrito de Mocimboa da Praia, nomeadamente: Mbau, Chinda, Ntotwe, manilha, Limala, Naquitengue. Os Makondes dessa região aprenderam a sobreviver na escassez, desenvolvendo uma resiliência que os tornou guerreiros temidos. Praticando agricultura precária, respeitando estações anuais chuvosas, caça (Ulumba, Lyangola…) Mas a infertilidade da terra também significou exclusão económica: poucos

As divisões, naturais na história de qualquer povo, foram politicamente exploradas. Durante a luta armada, a FRELIMO precisava de símbolos fortes, e Mueda foi elevado a centro de poder. Com isso, outras regiões Makondes foram silenciadas, e os próprios Makondes se viram divididos: os do planalto, próximos ao poder; os da costa, mais vulneráveis e marginalizados; os de Vaiyanga e Messalo, esquecidos.

Essa geografia da exclusão ajudou a criar o caldo de revolta que hoje explode em Cabo Delgado. O terrorismo não nasceu do nada: nasceu de décadas de marginalização, desigualdade e abandono. Para muitos jovens Makondes da costa ou de zonas esquecidas, pegar em armas tornou-se uma forma de vingança contra um Estado que os via apenas como mão de obra barata ou estatística eleitoral.

Enquanto isso, o Planalto de Mueda consolidava-se como fortaleza da elite. Os sobrenomes dos generais e ministros são, em grande parte, filhos desse planalto. A guerra, ironicamente, fortaleceu ainda mais essa elite: com a militarização da província, Mueda tornou-se quartel-general, ponto estratégico para operações internacionais e para a exploração do gás.

Há zonas de guerra e há zonas de conforto. Em Moçambique, essas linhas não são desenhadas pela bússola da necessidade humana, mas pelo compasso do poder. Cabo Delgado tornou-se um mapa cruel, onde a geografia da dor é manipulada conforme interesses políticos e militares. Mueda nunca sangrou — nunca foi palco do terror recente — e, no entanto, tornou-se o quartel-general da ajuda humanitária. Mecúfi, longe das minas e dos tiros, virou vitrine do reassentamento. Palma, Mocímboa, Macomia, Nangade, Muidumbe? Esquecidos. E é isso que denuncia a hipocrisia do nosso tempo: a ajuda humanitária transformada em espectáculo, enquanto os mortos são enterrados em silêncio no mato.

Quem decide onde a dor é legítima? Quem determinou que o epicentro das operações seria Mueda, terra de estabilidade, longe do sofrimento? A resposta é simples: segurança e controlo. É mais fácil montar escritórios, hotéis e briefings em Mueda, onde as autoridades estendem tapetes vermelhos, do que enfrentar a poeira e o cheiro de morte em Mocímboa. A mesma lógica que levou a ONU a instalar-se em Goma durante os massacres do Congo, ou em Port-au-Prince após o terremoto do Haiti, deixando o interior abandonado. O que está em jogo nunca foi salvar vidas — mas sim construir narrativas políticas.

E Mecúfi? Mecúfi virou laboratório estratégico. Após o ciclone Kenneth, o ex-presidente Nyusi, dono de um hotel luxuoso na zona, e na terra do governador de Cabo Delgado Tauabo, percebeu que a tragédia podia ser convertida em vitrina. O projecto-piloto de reassentamento ali não nasceu de um imperativo ético, mas de uma engenharia política: mostrar ao mundo um cartão-postal organizado, enquanto Macomia e Muidumbe, Mocímboa continuavam sem escolas, sem estradas, sem futuro. É a política da dor controlada, do sofrimento convertido em propaganda.

Mas há outra camada dessa história, uma ferida cultural raramente dita em voz alta: a arrogância histórica dos Makondes de Mueda. Mueda sempre foi vendida ao país como “planalto dos Makondes”, símbolo de resistência, lugar do massacre que impulsionou a luta de libertação nas décadas 60. Mas quem é Makonde de verdade sabe que o coração da cultura Makonde está em Muidumbe. É em Muidumbe que a tradição pulsa, que a arte resiste, que a identidade é genuína. Mueda, após a independência, autoproclamou-se centro do mundo Makonde, mas transformou-se em feudo político, território fechado, onde ninguém “de fora” se estabelece sem permissão.

Houve um tempo em que até a música denunciava isso. O hip-hop de Big Fox, jovem de Muidumbe, lançava críticas directas aos “netos dos chefes” de Mueda. E também os próprios filhos de Mueda lançavam pedras ao seu governante filhos. Temos o grupo musical como Chimbunga, Babu Kuliuka, entre outros. E Mueda respondia, censurando-se em rimas. A rivalidade artística revelava o que muitos temiam dizer: Mueda era arrogante, orgulhosa, resistente a qualquer desenvolvimento que ameaçasse a sua posição central. Até poucos anos atrás, Mueda não tinha um único prédio de cinco andares. Estradas asfaltadas eram sonho. Piscinas eram uma utopia doutro mundo. Hotéis eram quase inexistentes. Nenhuma visita turística havia, exceptuando pesquisadores e antropólogos do sistema. Os generais, filhos de lá, não se importavam. Orgulhavam-se do poder, mas não investiam em progresso.

Hoje, ironicamente, Mueda é a menina dos olhos da “ajuda humanitária”. Hotéis surgem, delegacias novas, centros de saúde modernos, escolas, restaurantes modernos. Não porque Mueda sangrou, mas porque o regime decidiu que ali seria seguro construir uma vitrina para diplomatas e ONG. E essas mesmas ONG, cúmplices silenciosas, aceitam. Adaptam-se, obedecem, trocam ética por contratos e vistos. É a política da omissão que já vimos em Darfur, no Sudão, quando a ajuda internacional foi usada para legitimar Omar al-Bashir, ou no Haiti, onde Paul Farmer denunciou a indiferença das elites diante da miséria rural.

A história repete-se aqui: a dor é administrada como capital político. Mocímboa, Palma, Macomia, Muidumbe — onde a guerra é realidade — são tratados como zonas interditas. Mueda, Mecúfi e Pemba, onde a dor é “negociável”, recebem as luzes, os fundos, as câmaras. E os Makondes de Mueda, fortalecidos por décadas de poder, perpetuam uma narrativa que apaga a diversidade do próprio povo Makonde. Como se todos os Makondes fossem de Mueda. Como se o “planalto” se resumisse a um só distrito.

Mas quem conhece a história sabe: a cultura Makonde verdadeira não nasceu dos gabinetes de Mueda. Vive em Muidumbe, nas aldeias esquecidas, nas esculturas entalhadas à luz de fogueiras, nas danças que resistem sem patrocínio. Mueda é poder. Muidumbe é essência. E o que vemos hoje é a apropriação política de uma identidade ancestral, usada para justificar privilégios, exclusões e centralização.

Dizer isso é arriscar julgamentos. Mas o silêncio é pior. O filósofo Žižek já disse: “a caridade perversa prolonga a dor que finge combater”. E é isso que vemos: ONG que preferem hotéis a campos de deslocados; generais que transformam tragédias em palcos; líderes que usam o nome Makonde para dominar um Cabo Delgado que não os reconhece como donos.

Mueda nunca sangrou. Mecúfi nunca foi o epicentro da dor. E ainda assim, é lá onde a ajuda se concentra. Isso não é acaso: é projecto. É a coreografia do cinismo institucional. Nós, que descendemos desse povo, não podemos fingir que não sabemos. Não nos farão de burros.

Essa divisão interna reflecte-se até na ajuda humanitária: Mueda e Mecúfi recebem infra-estrutura e projectos; Palma, Mocímboa e Macomia recebem relatórios e promessas. Os Makondes, que outrora foram símbolo de unidade e resistência, agora vivem uma guerra que os separa ainda mais.

O povo que enfrentou o colonialismo com armas tradicionais e danças mapiko é hoje vítima de uma guerra sofisticada: drones, contratos de gás, mercenários internacionais, ONG corporativas. Cabo Delgado virou laboratório de necropolítica. A vida Makonde, antes respeitada até pelo inimigo colonial, hoje é moeda de troca em negociações diplomáticas.

A filosofia nos ajuda a decifrar essa tragédia: Fanon falaria de uma elite nativa que reproduz a lógica colonial; Mbembe chamaria isso de “necropolítica”, o poder de decidir quem pode viver e quem deve morrer; Foucault lembraria que a geografia do poder nunca é inocente. Cabo Delgado é a prova: os Makondes não são apenas vítimas, mas também instrumento e cenário de um projeto que transforma cultura em propaganda, território em lucro, e sofrimento em espetáculo.

E, no meio disso, as divisões internas do povo Makonde são como cicatrizes: algumas abertas pelo colonialismo, outras aprofundadas pelo próprio Estado moçambicano. Hoje, para compreender Cabo Delgado, não basta falar de terrorismo ou gás: é preciso entender Vaiyanga, Megomano, Messalo, Planalto, Costa. É preciso ouvir vozes que nunca entraram em relatórios da ONU, mas que conhecem cada pedra desse chão vermelho.

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