Cabo Delgado: A dor que não cabe debaixo da bandeira nem nas viagens do poder

OPINIÃO
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John Kanumbo

Imagine acordar e descobrir que a sua aldeia foi destruída. Que tudo o que você conhece foi queimado, saqueado ou arrancado das suas mãos. Que os seus filhos choram de fome e medo, e que a água que chega uma vez por semana não chega para todos. Que as lonas sob as quais você dorme balançam com o vento, enquanto a noite te gela a alma. Isso é a realidade de milhares de famílias em Cabo Delgado.

Enquanto isso, o Chapo viaja de cidade em cidade, países em países, desfilando, tirando fotos, aplausos ensaiados, como se o país fosse palco e não ferida aberta.

Estou no campo de deslocamento. Nas tendas oferecidas pelo ACNUR, que mais parecem insulto do que ajuda. E estou com raiva e com vergonha. Estou a ver com os meus olhos o que as televisões de Maputo fingem não ver. Estou a falar com quem não tem voz nas praças de Maputo, nem lugar nas manchetes. Lyanda, Eduardo Mondlane (Mueda). Ntamba Dimakonde (Nangade). Ntutupwe, Metoro (Ancuabe). Ndele, (Montepuez), Miezi. Mecufi. Chiúre. Coane (Nampula). Nomes que são mapas de ossos e esperanças partidas. Todos estes lugares são experimentos instrumental do Estado Moçambicano que permitiu que certos abutres das elites se beneficiassem.

Três vezes cruzo os mesmos olhos cansados, as mesmas roupas sujas, a mesma fome que arranca dignidade. Aqui existe um país dentro de outro: tendas que se desfazem, latrinas improvisadas, crianças que viram demasiado, mulheres sem absorventes no seu período, velhos tremendo de frio e medo. A vida resume-se a esperar: água, comida, segurança — tudo promessa.

Em Lyanda, no Eduardo Mondlane em Mueda, em Ntamba Dimakonde (Nangade — os números oficiais murcham quando a fome, o frio e as noites sem tecto entram em cena. E todo o resto do país, distraído, segue com os seus programas, as suas polémicas e os seus anúncios institucionais. Vejo o que já sei que vejo: famílias inteiras empilhadas em tendas e debaixo de lonas rasgadas, crianças que já sabem a medida da miséria, velhos com mãos que trepidam de cansaço e medo. Vejo mães que já não choram por falta de forças — só guardam dentro do peito um nó que as impede de respirar.

Nas tendas, o vento entra pelas costuras, a água é promessa, a comida é sorte, e a dignidade é o que cada família tenta salvar com as unhas. Crianças dormem sobre jornais molhados. Mulheres carregam na pele e na memória violências que nenhum ser humano deveria conhecer. Velhos tremem não só de frio, mas de medo — o medo que já destruiu aldeias inteiras.

Pergunto, falo, choro em silêncio com velhos e com mães. A resposta que escuto em Makua, em Makonde, em Mwani é sempre a mesma e directa: ekhotto (makua), in’gondo (makonde) vitha (em kimwani) — GUERRA. Não têm outra palavra e nome. Uma palavra que empurra corpos para as estradas e os empurra de novo para filas, para números, para estatísticas que não cabem nos olhos. Escuto histórias de pessoas que perderam tudo: a palhota onde nasceram, o pequeno negócio, o sítio de culto, o cemitério da família. Escuto histórias de crianças que foram arrancadas no colo, da escola, que viu o seu pai a ser degolado, e mandado ele para segurar a cabeça do pai. Escuto histórias de jovens que viu amigos a serem executados e ele a ser obrigado a degolar o próprio amigo a fim de ser liberto. Escuto histórias de mulheres a serem estupradas com 10 terroristas ao mesmo tempo. Escuto histórias de mães e pais a serem obrigadas a apresentar aos filhos nos terroristas para serem salvos. Escuto histórias de tropas de segurança a ameaçar a própria população e a se infiltrarem do terrorismo. Escuto histórias de homens velhos que caminharam por dias com apenas uma pequena cama e palha na cabeça — e, ainda assim, ao lembrarem-se do que deixaram, sorriem com resignação, como quem aprendeu a esconder o grito.

Uma velha de Ntutupwe diz o que ninguém no poder tem coragem de admitir: “Se são os recursos, explorem sem nos matar.” Ela fala de gás, rubis e acordos assinados longe do sofrimento real. Em todas as regiões, repete-se o padrão: desalojamento, fome, filas intermináveis e noites de pavor. E porque este silêncio? A quem interessa que um povo permaneça esquecido? Às vezes penso que o silêncio tem um dono: o mesmo dono que assina contratos, que recebe delegações, que sussurra acordos com estrangeiros e depois volta a pronunciar a palavra “segurança” como se essa palavra fosse remédio. O mesmo que se beneficia de terras abandonadas, aliás, o mesmo dono que dito do primeiro tiro. O silêncio interessa àqueles cujo poder se alimenta de ignorância, de terras esvaziadas, de famílias que fogem à pressa e deixam atrás as suas memórias de infância.

Há três crimes que o Estado comete diariamente: a omissão, a mentira e a negligência deliberada. Omitir é negar que as aldeias queimam; mentir é dizer que a segurança foi restabelecida; negligenciar é cortar o abastecimento de água e deixar a fome se alastrar. Pergunto aos leitores: que tipo de Estado é este que prefere aparar as arestas dos relatórios oficiais a socorrer um idoso que morreu de frio numa tenda?

As agências humanitárias fazem o que podem. A ONU, a Cruz Vermelha, as ONGs locais tentam mitigar a dor. Mas mitigar não é resolver. O que vemos é uma economia humanitária que cria circuitos de sobrevivência parciais, enquanto os proprietários do poder continuam a escrever contratos que tornam territórios em zonas de risco aceitável. Que diferença faz para uma petrolífera se um povo precisa de voltar a Mueda ou não? Ou se, amanhã, alguém decidir que o projecto é mais rentável sem gente na redondeza?

Enquanto um grupinho frustrado agita com bandeira nova e discursos inflamam multidões em Maputo, no norte mães enterram filhos às pressas, em covas rasas. Enquanto Chapo percorre a governação em viagens sem pausa, crianças percorrem quilómetros à procura de água. A pergunta que grita nas tendas é simples e devastadora: Onde está o Estado? Onde estão os partidos políticos que usam o nome do povo? E essa pergunta não é retórica. É GRITO.

Os relatos convergem: quando a aldeia é atacada, não se pensa. Guarda-se o que se pode, pega-se a criança, as chaves, e corre-se. A estrada fica tomada de gente. Há quem venda a mota para pagar a viagem; há quem entregue o pouco que tem a transportadores que cobram preços inflacionados; há quem se sente envergonhado por pedir ajuda, porque pedir é admitir derrota. E quando chegam ao campo — se chegarem — encontram o Estado reduzido a papel assinado e centros onde o essencial falta: água potável, saneamento, assistência médica, psicossocial, escolas minimamente equipadas.

Pergunto aos makonde que estão no poder: a quem interessa o silêncio sobre os deslocados em Cabo Delgado? A quem serve que estas imagens não choquem a opinião pública? A quem interessa que as crianças usadas para carregar bens saqueados e os casamentos forçados fiquem reduzidos a menções de rodapé em relatórios? E, acima de tudo: quem pagará a conta da desintegração social quando esta guerra tiver passado?

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