Elísio Macamo desconstrói narrativa de Venâncio Mondlane de ser o inspirador da Geração Z

DESTAQUE POLÍTICA
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  • Afinal, movimentos revolucionários de jovens começaram no Senegal e Quénia!

O académico moçambicano Elísio Macamo voltou a chamar atenção, semana finda, ao dedicar uma coluna de opinião a desconstruir a narrativa do ex-candidato presidencial e líder do partido ANAMOLA, Venâncio Mondlane, que, recentemente, se auto-intitulou o influenciador da Geração Z no mundo e em África em particular. Em uma página de jornal,  no artigo com o título “A racionalidade do irracional: populismo nos trópicos e lições para Portugal”, o sociólogo sustentou que o movimento teve a sua origem no Senegal e no Quénia, não em Moçambique.

Evidências

Aquando da sua intervenção após a sua eleição como membro permanente no World Liberty Congress (WLC) – uma rede mundial de  dissidentes e combatentes contra regimes autoritários que reúne líderes e movimentos comprometidos com a liberdade, democracia e direitos humanos no mundo, Venâncio Mondlane disse que iniciou a geração Z e influenciou cerca de 11 países africanos.

“Muita gente deve estar com uma pergunta: afinal quem é que inspirou a geração Z? Houve muitas pesquisas e estudos de académicos, mas quero apresentar: está aqui diante de vós (indicando a si mesmo) quem influenciou a geração Z”, disse o líder da ANAMOLA, em Berlim.

Para o professor universitário Elísio Macamo, a intervenção do Venâncio Mondlane é uma peça de retórica em estado puro em que as falácias substituem os factos e  a “emoção suplanta os factos”.

“Ao dizer que ‘iniciou a geração’, Mondlane reescreve a história recente com um narcisismo quase inocente. A designação da ‘Geração Z’ é uma categoria sociológica global e os movimentos juvenis africanos que inspiraram rebeldia cívica (do “on en marre” no Senegal – “Estamos fartos”- ao Geração Z  do Quénia) existiam muito antes de ele entrar na cena política nacional”, rebateu o renomado académico moçambicano e professor de sociologia e estudos africanos na Universidade de Basileia, na Suiça.

Ainda no WLC, o ex-candidato presidencial reiterou que ganhou as eleições de Outubro do ano passado, e que só não tomou posse à força porque está ciente de que quem toma o poder à força, também pode ser arrancado à força. Aliás, disse que não foi falta de vontade nem oportunidade, pois os governantes, segundo ele, haviam abandonado o país.

“Nas últimas eleições presidenciais, aconteceu algo inédito em Moçambique, África e no mundo. Consegui mobilizar uma manifestação durante 03 meses sem parar no meu país, apenas usando o celular. Nós podíamos ter  tomado posse à força porque o governo de Moçambique estava fora do país.  Mas não tomei posse porque quem à força toma o poder, à força também será retirado”, destacou.

Para o sociólogo é uma falácia mais reveladora, uma falsa modéstia e ao sugerir que “podia ter tomado o poder pela força”, Mondlane dramatiza a sua própria impotência transformando-a em virtude.

“Não houve qualquer ameaça real de insurreição. O Estado manteve controlo pleno e, ao contrário do que afirma, o governo não abandonou o país. A declaração, porém, funciona emocionalmente, pois constrói a imagem do líder moral que, apesar da injustiça sofrida, escolhe a democracia. É narrativa, não história, portanto, teatro, e não política”, diz Macamo.

Para ele, essa manipulação da lógica é bem-sucedida porque opera num terreno fértil, pois Moçambique vive, como muitas democracias frágeis, um esgotamento da credibilidade institucional.

Numa das passagen,  Mondlane disse que conseguiu mobilizar cerca de 34 milhões de pessoas a protestar sem parar, e conseguiu impactar 11 países africanos, nomeadamente: Mali, Togo, Tanzânia, Angola, Senegal, Quénia e diversos.

Aos olhos do sociólogo, Venâncio Mondlane não ganhou as eleições por mais vezes que o repita e a população total de Moçambique ronda precisamente esse número, o que tornaria tal mobilização simplesmente impossível. Ademais, Macamo rebate que o Governo teria abandonado o País,  socorrendo-se ao bloqueio das vias na altura.

“O governo não abandonou o país como afirma, e seria absurdo imaginar que o pudesse o fazer enquanto as principais estradas estavam bloqueadas. Se 34 milhões de Moçambicanos o tivessem apoiado, ele teria chegado ao poder sem resistência”, explicou, acrescentando que a retórica da unanimidade é, aqui, “uma espécie de ficção emocional que oferece aos desiludidos a ilusão de terem precipitado um feito histórico”.

Ainda na sua intervenção em Berlim, Mondlane disse que parou o país apenas com o celular, reiterando que tudo estava apostos para a tomada de posse.  Para Elísio Macamo, este acto reivindica “sem perceber” a própria conduta que fundamenta o processo movido pela PGR (Procuradoria-Geral da República), o mesmo que Venâncio Mondlane classifica de perseguição política.

“Ao dramatizar os acontecimentos como um sacrifício pessoal pela liberdade, acaba por reconhecer, inadvertidamente, a factualidade das acusações que o incomodam. Essa inversão é típica de populismo”, rematou.

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